Os infernos possíveis

contos de Ronaldo Bressane

Zero

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Como foi mesmo o sonho? Tocava ao piano uma música que nunca tinha ouvido antes. Mas ele se lembrou de que não sabia tocar piano e ainda tentava se recordar do que teria acontecido, antes que visse estiletes entre as teclas e temesse cortar os dedos e acabasse acordado pelo despertador para o trabalho, quando o ônibus chega ¬– automático, paga o cobrador, que o fixa detrás de óculos escuros; e ele se acomoda a um penúltimo banco, como se com isso conquistasse o direito a uma ausência. Pelas janelas abertas – quente demais, insetos zunem –, há várias possibilidades no ônibus vazio; assim, resolve não ler a revista que comprou, para fazer passar mais rápido esta viagem em busca de mais um dia de trabalho. Suave, feito vidro moído, a música insidia-se na mente. O corpo dói; ele encolhe-se sobre sua pasta, o rosto apoiado no vidro frio. Um inseto. Passeiam pelos olhos prédios; automóveis; calçadas; pessoas. Um sujeito pergunta as horas a outro. E ele tem certa simpatia pela gente do asfalto.

Uma luz chapada é desenrolada pelo vento, feito imensa bandeira colorida, e ele se sente até próximo das pessoas diárias – as da banca de jornais, dos botecos, do açougue, atravessando a rua; amenas, fugazes, portáteis. Sente nelas mesmo uma louca esperança… enquanto o ônibus navega leve no fluxo e ele, liso, na inconsciência, um zumbido batendo asas nos ouvidos.

Numa parada, no meio do torpor percebe que se sentou no mesmo banco um homem vestido de preto, de óculos escuros e uma boina também negra. De tempos em tempos, o homem espreita-o discreto, parece. Incomodado, exila seu olhar na janela, à sua direita – e observa como, dia a dia, os carros empurram cada vez mais as pessoas para a calçada. À sua esquerda, o homem exala um odor ruim, de fuligem; familiar, no entanto… O sol rói a pele. Buzinas e o som morno do motor. O homem o perscruta? Ele se sente preso – no engarrafamento, no ônibus, no dia, dentro do corpo: encapsulado no próprio corpo. No entanto, está livre; todas as janelas, escancaradas. O ônibus se afunda, o cobrador abana-se: uma gota de suor vaza detrás dos óculos escuros – uma lágrima, talvez? E por quem? Ele tenta se distrair na revista; num lance, porém, decide descer um ponto antes. Ainda o ônibus ancorado; o homem dentro o examina, ainda, e mais. De lado, ele recorda, no outro, alguém que conhece… Vai deslizando lento, no mesmo sem-ritmo do ônibus. Curioso, relanceia o olhar: o homem não pára de vigiá-lo – e, agora, sorri. Pelo esgar dos lábios, ele lembra: parecia um ator que representou naquele filme, naquele filme perdido na memória, com essa boina e esses óculos, algo como um pintor cego que só pintava tetos, céus, infinitos… E agora ri, dentes grandes, gargalha, dentes arreganhando. Para quem? Talvez o pintor só existisse mesmo num sonho. E é só um instante: já se esqueceu do riso, pois se volta à boca do túnel que, todos os dias, ele cruza por baixo da linha férrea, para chegar ao trabalho, do outro lado. Ao trabalho.

Um buraco abafado de gente que esbarra e berra, ele tem de abaixar a cabeça e espadanar como peixe: na trombada, dezenas se comprimem, indo e voltando e crianças sujas mercadorias éter cola lâmpadas gosmentas que zumbem por paredes grafitadas e aleijados levantando as mãos e velhos homens-sanduíche comprando ouro ou emprestando dinheiro a crédito e estranhos ofícios e mijando em vãos e garotas seminuas de bonés empurrando papéis e filhos levando os pais paralíticos em carrinhos de supermercado enquanto a água dava nas canelas e camelôs de vozes agônicas oferecendo alarme-relógios que tocam e tocam e tocam e ecoam agudos pelos muros estritos do túnel que treme e trovoa as rodas de ferro dos vagões fechados que carregam gente a marchar sobre o teto em ritmo escuro, surdo, suando, úmido, quase derrubando sua pasta, ele, sem ar, a caminho do trabalho, ultrapassa o cardume grosso de mãos olhos bocas feito náufrago estilete, conseguindo aos poucos desembaralhar-se, pois pressente-se, como sempre, no meio de um filme, e imagina o que vê, talvez para se salvar, matéria de celulóide, porque a vida de todos os dias não pode ser real, essas pessoas como refugiados subaquáticos de filme de guerra, como assim?, quando a densa luz de fora numa porrada na cara banha-o no claror quente afinal do outro lado, assistindo a um bêbado molambo de chapéu-coco urrar:

Vocês têm que se enfiar aí! Todo mundo pra dentro! Pra dentro!

Como foi mesmo o sonho? Como não conseguia mais capturá-lo, feito uma canção? Como pode um sonho ir se entranhando assim, vertiginando-se no abismo da memória, até perder-se para sempre? Em que meada exata ele se desfaz? Não pode ser este preciso instante alguma lembrança antiga e devastada de um sonho muito diferente, criado por outra realidade?

O céu parece mais baixo: à frente, a grande fábrica de tijolos negros onde ele trabalha. A caminho do trabalho, ele segue sempre rápido, estremecendo em pensar como a gente do asfalto de todos os dias pode ser perigosa… Um som de piano enche os ares. Tira o crachá da pasta. A música circula sua cabeça, alto, muito alto, mas ele já não ouve. Já não imagina filmes mais. Pois surgiu, em algum lugar – de sua pasta? – um medo. Um medo frio como o vento, e coceira no corpo molhado: antes de chegar à porta escura do trabalho, o porteiro fecha seu caminho e lhe devolve o crachá. Nele, em 3 x 4, o homem de boina preta sorri. De onde está, ouve a canção do piano ser substituída pelo som dos alarme-relógios, alto, cada vez mais. Ainda segurando o crachá, ele faz um meio-giro timidamente e dá as costas ao porteiro. À entrada do túnel, está de novo o bêbado, apontando para baixo:

Pra dentro!

Quase com alegria – uma louca esperança –, ele obedece. Pressente que o túnel está diferente: lá dentro, sombras líquidas, brancas e escuras. Cansado – seu dia era longo, seu dia era curto – feito antes de morrer, ele se senta a um banco; esquecido: como se com isso conquistasse o direito a uma ausência. Que bom ter alguém para fazer meu trabalho hoje, pensa – enquanto, sutil, pousa sobre sua pasta, jogada meio de lado em cima do piano, um inseto verde, que parece uma folha. Verde claro o ventre, verde jade escuro a carapaça, uma antena quebrada. Passa nervoso as patas dianteiras uma na outra, enquanto balança a sua única antena boa: como se o observasse… Então, seus dedos se lembram.

O inseto voa.

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Verão, 1999.

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Written by rbressane

fevereiro 23, 2008 at 4:27 pm

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Em torno da mesa, os quatro acomodaram-se afoitamente nos pufes moles. Havia ainda um lugar vago. Mal se viam, tão escuro estava. Quando Cláudio acostumou-se à pequena claridade que vinha de um spot no alto pé-direito apontou, horrorizado, para o centro da mesa e perguntou, gaguejando:

– O-que-é-isso?

Walter tocou naquilo e recuou, a mão crispada, como que com nojo:

– Não pode ser isso que eu estou pensando.

– Aaargh! – fez Clara, ao realizar o que era.

– Aaargh! – fez Moema. Era muito amiga de Clara.

– Como isso veio parar aqui?

– Não-fui-eu! – silabou Cláudio, puxando com as pontas dos dedos a camisa empapada de suor, para todos os lados, como se se beliscasse para perceber que não era um sonho. Walter murmurou, engolindo meia ânsia de vômito:

– Não acredito que isso está aqui, justo hoje. Parece brincadeira. Quem de vocês trouxe?

Moema disse:

– Eu não fui! Vocês sabem como eu vim pra cá: sem malas, só a roupa do corpo. E ainda fui revistada, acho até que com um pouco de descortesia – e deu um apertão no joelho direito de Walter, por debaixo da mesa, sem que os outros notassem.

– É verdade – Clara reparou, aos berros; – e eu, como vim junto com ela, também não fui, também fui revistada, lembram? – e apertou o joelho esquerdo de Walter, que conteve um gemido.

– Cala a boca, Léo, não grita, podem ouvir – Moema pegou na mão da amiga, acalmando-a. Jogou os cabelos pra trás e o hálito de gengibre mascado sobre Walter: – Você e o Cláudio já estavam aqui antes, não pode ter sido um de vocês?

– Eu não estou agüentando olhar pra isso muito tempo – Cláudio continuava a se beliscar, o suor escorrendo por suas gordas faces – acho que vou ter que deixar a mesa…

– Ninguém sai! Ninguém pode sair dessa mesa até ele chegar, não foi o combinado?

– Puta que o pariu! Quando Ele ver isso… Ah, meu… – e o gemido de Cláudio foi cortado por Moema:

– Não continue! Nem comece o que ia falar! Deve ter sido você quem trouxe isso mesmo! – Clara esbraveja com Cláudio, que afundava a cabeça entre as diminutas mãos; os seios de Clara, quando ela se irritava, ficavam maiores do que pareciam: e era o que acontecia então – duros, pro alto, sob o suéter vermelho: – Eu quero saber o que o senhor Walter tem a dizer sobre isso aqui!

Os olhos fixos no objeto ao centro da mesa, Walter roía as unhas, já muito estragadas, algumas só no toco, e meneou a cabeça dum jeito que Moema achou muito charmoso, pois alguns fios se derramavam sobre sua testa longa dando-lhe um aspecto de poeta romântico. Ela subiu a mão pelo joelho direito de Walter, que para se dissuadir disso apressou-se: – Por favor, gente. Vamos manter a calma e recapitular o que aconteceu aqui. Primeiro: que horas são?

– Quinze para as nove – sussurrou Clara. – Ele vai chegar daqui a quinze minutos. E Ele nunca se atrasa.

– Não quero nem ver o que vai acontecer… – Cláudio resmungava

– Escutem – Walter bateu sua grande mão peluda sobre a mesinha de cerejeira falsa. Instantaneamente, Moema e Clara retiraram suas mãos dos joelhos dele, que bradou: – Só vamos chegar a um consenso se reconstituirmos os fatos. A memória clara, a memória clara, lembrem-se – sua voz tomou um tom quase professoral – é o caminho para se chegar à iluminação. Como Ele disse. Continuando: há uma hora atrás, nós arrumamos todas nossas coisas no quartinho e deixamos esta sala limpa. Que eu me lembre – aqui fez uma careta, olhos miúdos atrás dos óculos – nenhum de nós ficou sozinho um minuto, sempre tinha alguém pra fazer companhia…

– O princípio de desconfiança… – bufou Clara.

–…então – Walter pigarreou; eles se calaram, imóveis – nos sentamos, Cláudio foi até o interruptor e só deixou essa luz acesa. Foi aí que vimos – apontou enojado – isso aí.

– Mas isso é loucura, não pode ter aparecido aí de repente! – os seios de Clara pareciam explodir sob o suéter.

– O que contraria os princípios da lógica. – Walter balançou a cabeça três vezes, com convicção; Moema cruzou as pernas, entre pressurosa e desejosa: estava aflita para que a noite terminasse e ela pudesse ter aquela conversa a sós com Walter, que sugeriu: – A não ser que, de tão preocupados com o encontro, não tenhamos nos dado conta desse troço aí. Quem arrumou a mesa?

– Fui eu – empalideceu Moema. Todos a olharam como se quisessem mordê-la; ela levou as mãos ao pescoço, e coçou-se, a voz estrangulada: – Mas eu juro que não coloquei isso aí! Juro! Aliás, desde que eu entrei para nossa – fez uma pausa de sobrancelhas elevadas – Confraria, ouvindo os ensinamentos dEle, não toco numa COISA dessas! – e pôs-se a chorar.

– Ah, por favor, não chora – Cláudio tentou consolá-la; entre soluços altos, Moema refutou-o. Cláudio abriu os braços, soltando para todos os narizes presentes o odor forte que enxurrava de seus sovacos:

– Escutem, não adianta brigar, todos nos conhecemos e sabemos que não poderíamos trazer isso aqui, Ele não permitiria e nem nossas consciências! Temos é que achar um jeito de nos livrar dessa COISA antes que Ele chegue!

Todos miraram tensos para o objeto ao centro da mesa. Imoto, sombrio, parecia pulsar, feito um coração pequeno, aos quatro pares de olhos, a desgraça que se avizinhava. Talvez tenham se passado uns quatro minutos nessa contemplação, quando Clara cortou o silêncio com seu tom brando:

– Essa é a situação: – e procurou compor-se, alisando o suéter para baixo, alongando os olhos de Moema – estamos presos nessa cama, Ele vai chegar daqui a pouco, com certeza, revistar todos os aposentos, como sempre faz. Se escondermos isso, Ele achará. Se jogarmos pela janela, também. Se a gente colocar na roupa, então, vai ser pior. Queimar pode trazer suspeitas, acho que mais pesadas ainda: o cheiro, as cinzas… Aliás, isso aí, queimado, deve ter um cheiro muito peculiar. Só se…

Os outros três engoliram em seco, meio que adivinhando.

– É pequeno…

– Pois é… – disse Walter.

– E mole – opinou Moema.

– Mas nojento – mastigou Cláudio.

– Eu acho que é o único jeito – soprou Clara, e então seus seios pareceram voltar ao normal.

– Bem – pigarreou Walter – com água deve descer melhor. Vão buscar um jarro d’água, Cláudio, Clara!

Durante o breve espaço de tempo em que a dupla foi e voltou da cozinha, Moema puxou Walter para si e disse-lhe baixinho, os lábios roçando sua orelha:

– Preciso falar com você de qualquer jeito. Não agüento mais, isso está me subindo…

– Tudo bem, tudo bem – Walter pegou delicado na mão dela – isso tudo vai acabar, logo logo, a gente pode conversar, aí…

– E aí…

– E aí, gente, vamos começar? – chegou Cláudio, a jarra derramando a água meio barrenta da cozinha.

– Você parece que gostou da idéia – azedou Clara.

Walter pegou o objeto e, com regularidade, despedaçou-o. Estava prestes a detonar um processo irreversível de violação; assim, o ato necessitava uma certa carga ritualística. Com precisão de gestos e rigidez de movimentos – tal como Ele agia -, Walter impunha àquele objeto toda a força de suas mãos, que ainda assim exibiam algum despreparo para mexer com a massa um pouco dura, fria. Seus dedos iam macerando, rasgando, cortando e distribuindo aos outros integrantes da mesa-redonda, em partes estritamente iguais, fatias do tal objeto tão refutado e nojento a todos ali, que ainda não tinham coragem ou desprendimento suficiente para cair de boca e aguardavam, como convivas muito educados, que o anfitrião se pusesse a comer para que eles próprios o imitassem. Ao terminar o trabalho, Walter passou uma mão na outra, para limpar-se de alguns fiapos da coisa, olhou para a jarra de água da torneira, e para as porções daquilo inerte à frente de cada participante, e não pôde deixar de pensar na conhecida frase “tomai e comei, este é meu corpo” etc; só não a disse pois pensou que os outros achariam de extremo mau gosto: assim, somente esboçou um sorriso e um ar contrafeito e, olhando um a um, exortou-os:

– Devo lembrá-los de que só estamos fazendo isso para a não-dissolução desta nossa Confraria. Porque Ele nunca nos iria perdoar. Apesar de que, acho mesmo – puxou os óculos, que escorregavam para a ponta do nariz – que se Ele soubesse, em certo sentido, até ficaria orgulhoso. Mas não há mais tempo pra volteios filosóficos. Ele não se atrasará, vocês sabem. O jeito é engolir isso o mais rápido possível.

Satisfeito com a segurança de seu discurso, Walter enfiou um pouco daquilo na boca, mascou, com força, tomou um gole d’água e o engoliu.

A gororoba desceu-lhe o esôfago aos enguiços, uma enguia que se debatesse, elétrica, entre as cavernas da sua fé e sua lúcida resignação. Um troço cheio de arestas, plano e sebento, viscoso, difícil de unir-se ao seu corpo – um gosto e um cheiro embriagantes pelo que tinham de ausência. Enquanto a substância tentava se desfazer em seu suco gástrico, Walter perguntou-se, subitamente, se aquele ato, que ao mesmo tempo que afirmava destruía seu credo, corrompia-o e o salvava, se aquele objeto em seu interior não carregaria um veneno, porquanto desconhecido, e que isto os mataria de corpo então, ao invés de somente danificar o próprio espírito – caso lhe houvesse algum.

Mas exatamente no mesmo instante a gosma já entranhava-se em Moema, que soluçava ainda, e cada vez menos, ao mesmo tempo em que contava as mastigadas da amiga Clara, uma a uma, reproduzindo-lhe o movimento. Horrível, como um primeiro nojo que se tem, uma barata subindo pelos vãos da saia: porém, vendo Clara em idêntica situação, não deixava de sentir um certo consolo. Coisa que de imediato se esvaía, pois percebia os olhos da amiga hipnotizados pela figura de Walter, o qual seguia enfiando na boca grande os nacos do objeto, impassível. Consistência, consciência – estranhas palavras vindas de um rito anterior brotavam em seu cérebro, e enquanto perdia as linhas que a ligavam àquele ato concreto, lembrava-se de outro, tão anterior: a imitação da mãe, comendo de boca fechada, a força que ela fizera para não se afogar e ser direita. O que havia entre Walter e Clara? Nunca que a amiga lhe omitira um segredo, uma comparação, como se fossem partilhar de um brinquedo comum, em que ora ela assistia ora era assistida. Nenhuma das duas coisas ocorria agora, era como se estivesse apartada desse brinquedo, e tudo o que podia continuar fazendo era mastigar e engolir e beber água, como Clara, como Walter, e, infelizmente, como Cláudio, que arfava, ao seu lado.

Isso não era possível. Não podia ter acontecido, não com ele, nunca isto, jamais com essas pessoas. Sobretudo com aquela Clara. Se Ele o visse! Quando O procurara, meses atrás, sofria de uma insônia irreversível. Via homens dançando em torno, retorcidas figuras com os olhos elevados a um céu de tons arroxeados, o roxo cetim do caixão do avô, grande, maior deitado, e o algodão no nariz dele se parecia com o gosto dessa COISA, que engolia, fundo, e tornava a comer, machucando a garganta, quase sem água, para apreciar-lhe melhor o sabor. Cláudio suava e tinha até uma vontade de sorrir, terrível, pois devia contorná-la dos outros, aqueles outros que o separavam dEle, tão pequeno e gorducho, bola de bilhar rolando escada abaixo pelos interstícios de seu estômago, o mal-feito, o Mal grande, o erro, o desvio, a chibata e o grito que o reconduzia, bom que era, não vou mais fazer isso. Uma certeza o mordia por dentro; um coisa iria fazer sem dúvida: contar a Ele o acontecido. Isso o faria diferente dos outros aos olhos dEle, – embora, com desgosto, admitia de algum jeito estar indissoluvelmente ligado aos demais. Com este último pensamento tossiu, atraindo sobre si o olhar severo de Clara.

Espetáculo ridículo e degradante. Estúpida dispersão de tempo, refeiçãozinha grotesca, essa. Clara sentia vontade de arrombar o suéter e dançar por cima da mesa. Fosse uma doida varrida, que fosse: um pouco mais de caracterização idiota àquele cenário não faria mal. Caralho. Onde é que isso a levara – essa besteira, em que não acreditava e ponto final. Acreditar, esse era o problema: ela nunca tinha tido nenhuma fé nas palavras dEle, e agora era obrigada a fazer isso. E o pior é que ela não tinha culpa nenhuma; mas quem acreditaria? A água estava chegando ao fim, e felizmente a coisa também. Era engraçado espiar suas caras de nojo – embora ela mesma tivesse sido tomada de náusea, a princípio. [Agora, porém, que tudo chegava ao fim, pressentia uma espécie de tontura: um estranho tremor sacudindo-a, feito um palhaço de mola a escapar de uma caixa, ou uma colméia trabalhando, um carrilhão; azeitonas brotando. Um bebê formando-se. Uma estranha idéia de que neste ato paria-se por dentro. A comunhão se reunia num feto brilhante na barriga. Mas foi só impressão.] Abriu rapidamente os olhos e percebeu que a água havia acabado, e coisa toda fora consumida. Ato consumado.

Ficaram por muito tempo calados, os comensais. Não ousavam mirar-se: olhavam para o centro da mesa, como que para se certificarem de que aquilo já não existia. Ouvia-se aqui um ruído de trabalho gástrico; ali um suspiro; à esquerda um engolir em seco; à direita um curto bocejar: em tudo, um grande silêncio, e uma expectativa oca, esquecida. Alguma coisa havia acontecido e outra deixara de acontecer. Subitamente, ainda sem tirar os olhos do centro da mesa, Walter resmungou:

– Não foi tão ruim assim.

Ao que Clara disse, vagarosa, meio sorrindo:

– É verdade… no fim, já nem sentia nojo…

– Até que não deixou de ser gostoso – atalhou Moema: – não é? Aquela hora que o Cláudio trouxe um pouquinho de ketchup?

– Engraçado, não me lembro disso – resfolegou Cláudio.

– Eu me lembro da mostarda. É bom o gosto da mostarda nisso, não? – Walter sorriu, leve; espantado ao ouvir a própria voz, que lhe soou tão natural, feito um riacho.

– Quando Ele souber – suspirou, num selvagem saudosismo, o já molhadíssimo Cláudio. E nisso todos se deram conta da não-presença dEle ali ao encontro. Principalmente Walter, que rápido, tirou o relógio do bolso e declarou, recobrando a voz solene:

– São dez horas, amigos.

– Dez?

– Mas como pode ter passado tanto tempo?

– E Ele, onde está?

– Ele não virá mais – ciciou Walter, debruçando-se sobre a mesa, como se lhes revelasse um segredo que, no fundo, já desconfiavam; Moema quis apertá-lo neste instante, mas teve medo e observou de soslaio as feições sempre indecifráveis de Clara. Walter continuou: – Ele nunca se atrasa, vocês sabem.

– Isso é.

– Nunca.

– Parece um relógio – Clara quis declarar “um chato”.

– E quando se atrasa – Walter seguia, quase triunfante – é porque não vem, não veio, não virá. E vocês sabem o que quer dizer isso, não sabem?

Moema olhava ainda para Clara, que acompanhava a revelação intrigada [pensava, de relance, que, sim, ele era bonito, como Moema dizia. Interessante só reparar nisso agora] mas em seguida tornou a visão para Walter, que abria a boca para responder à própria pergunta quando interrompeu-o uma tossida e uma voz surpreendentemente sólida:

– Ele não comparece aos encontros quando sabe que lá não precisam dEle – e Cláudio dizia estas palavras sem gaguejar, mirando o escuro que os envolvia fora da mesa e dos pufes – não precisam dEle ali, então vai para onde O necessitam. Agora, por que…

– Ele não era necessário aqui? – Clara pegou, esperta, o pensamento de Cláudio. Mais um silêncio – que foi em seguida furado por chutes.

– Uma prova – tentou Moema.

– Uma traição – engasgou Cláudio.

– Uma fuga – jogou Clara.

– Uma gentileza – murmurou Walter. – Uma gentileza – repetiu. E depois de um suspiro, levantou-se, derrubando o pufe amarelo. – Acho que nisso encerra-se o encontro.

E todos, comum acordo, saíram do convívio.

Cláudio arrumou toda a pequena casa: acendeu as luzes, varreu, lavou, tirou impressões digitais. Clara e Moema jogavam uma água na pia; Walter acendeu um cigarro. A fumaça caiu-lhe no estômago como uma carícia. Uma hora depois, trancaram o local, reservado aos encontros, e, como o combinado, desprenderam-se fazendo o sinal. Conforme outro dos preceitos, os quatro confrades separaram-se, cada um tomando um rumo cardeal.

Madrugada, cada qual em sua cama dormia tranqüilo, feliz sono de fera bem alimentada. A exceção era Cláudio, que acordou às quatro da manhã, assustado, olhos esbugalhando-se para fora de um pesadelo que o fizera suar-se todo. Sentia medo, calor e um pouco de formigamento, pelo corpo inteiro, no entanto não conseguia recordar-se, sequer pensar, o que era aquele estado de ausência que lhe tomava a pele pelas bordas, aos beliscões. Um troço dentro o cutucava – o que era? Encolheu-se, os olhos ainda arreganhados. Não, não teria coragem de contar a Ele o que acontecera. E pôs-se miudamente a roer as unhas.

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Inverno, 1995.

Written by rbressane

fevereiro 23, 2008 at 4:21 pm

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Weboi

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Ó solidão de boi no campo!
[Drummond]

Tem boi no pasto. No pasto tem boi. Boi tem no pasto. Tem no pasto boi. Boi no pasto tem. Dia após dia, meses após meses, passados quase dois anos, o enigma não saía da cabeça: variava pra achar sentido naquelas palavras que se tão fundo fixaram na mente a ponto de temer esbarrar nelas, gigantescas, pelo corredor que ia do quarto à cozinha. Essa a frase: famous last words da velha, seu testamento lingüístico, lavrado em caixa alta no pseudoleito de morte. Camila esforçava-se por fixar o que afinal quis comunicar a vó, naquele tão imenso momento. Tem boi no pasto.

Mas, antes disso: aproxime-se, querida. Sim, vó. Preste atenção, minha neta. Tem boi no pasto. E aí, o cursor mudo. Silêncio de silício: sim, porque a vó morrera-lhe via internet. Até aquele chatting nonsense surgir em sua tela, havia anos não se noticiavam; desavenças de família criaram distâncias – coisas de que nem se lembrava mais, desafetos e segredos engasgados. E a ironia: vizinhas de bairro, sequer na padaria jamais se esbarraram, na hora fatídica do leite B matinal. Da vó, Camila sabia por conhecidos que saía de casa, dava seus passeios de totó cagar. Depois ouviu que o bicho de estimação morrera atropelado – mas a vó seguia zanzando pelas esquinas arrastando uma coleira. Tempos atrás, quando ainda dirigia, vez em quando via uma velhinha atravessando a avenida e a culpa lhe tremia as mãos no volante – mas não era ela, a vó Sabrina: era sempre uma vó de outro alguém, de outro ninguém. Sabia também que a vó era vista rondando as ruas do bairro soltando em voz alta discursos ininteligíveis sobre estética, filosofia e política, e que também às vezes gritava que a Interpol estava em seus tornozelos. Por causa da vó, de erradia foi se enfiando numa pessoa arredia – cortara festas, locadora e visitas, e até mesmo leite de manhã – o supermercado lhe mandava um boy com caixas de leite longa-vida. Longa vida, arte breve. Estava certa de que viveria muito. E mais certa além de que a vó não falharia nunca, feito sequóia. Não queria cruzar com ela, e também não queria acusar-se desse pânico total absurdo. Entranhada, estranharam.

Mas os outros? Pro inferno.

O telefone teimava em tocar, e um amigo vinha no calo – engraçado, Camila, outro dia fui no Fran’s da Fradique e vi uma senhora super bonita, velha mas linda, de cabelos compridos brancos, e ela falava sozinha, sempre sorrindo, assuntos intelectuais, mas totalmente nonsense, falava muito alto, tomando um chá, as pessoas iam embora, sem graça, acho que ela deve morar na rua… mas por que eu tou falando isso? ah, é que aí eu lembrei de você, alguma coisa nela me fazia lembrar seu rosto… Comprou uma secretária eletrônica, vendeu o carro, passou a trabalhar só em casa: historiadora, tudo se dispunha via web, mandava seus textos pela rede e o pagamento era creditado diretamente na conta bancária, movimentada à distância – água, luz, telefone, condomínio, provedor, tudo. Felizmente, boa no seu fazer, nunca faltavam pedidos de trabalhos: de certa forma, sua reclusão até lhe perfumava de charme, os jornais e as revistas a requisitavam ainda mais. Quantos anos tinha? A idade abolira: convicta de nunca passar desta pra pior, Camila continuava sempre a mesma – e a outra que tomara seu lugar: Camila, por que você nunca me telefona? Camila, por que não vamos ao cinema? Camila, por que você não atende ao interfone? Camila, por que você me abandonou assim sem mais nem menos?

Não conseguia mais falar com os amigos – um tédio total: qualquer papo era déjà-vu. Comia pizzas. Comia comida chinesa. Um desespero foi quando o maldito PC deu pau, teve de chamar a assistência técnica; apareceu um sujeito de azul, a senhora mora aqui sozinha? Mastigando voraz o chiclete – medo de bafo, comprava caixas e caixas –, tremeu: meu marido tá trabalhando. Marido? Uma vez pensara em casar – juntar os trapos com o tal cara, mudar de aparamento, e talvez, um filho. Ah – onde tinha parado essa idéia? Vocês nessa casa gostam mesmo de pizza, hein? As caixas de delivery espalhadas por todo canto, até no banheiro tinha. Tomou banho hoje? Ontem? Que data era aquela mesmo? Terminara um texto sobre a Revolução Industrial contudo o nome do cara que um dia visitara suas noites não lhe convinha à cabeça. Assina a nota? O sujeito lambia de olhos suas pernas, subia pelas coxas até encontrar, por trás do peignoir, a calcinha manhada de sangue – precisava comprar absorventes. Mesmo? Obrigado, jogou o técnico com nojo, junto com a nota fiscal. Tem boi no pasto.

Tem boi no pasto.

Na verdade só havia realizado a morte da vó por um telegrama frio de sua mãe. Na cabeça a charada, telefonara: ela foi encontrada no cybercafé de uma livraria, em cima do computador, agarrada no mouse, que até quebrou, o gerente ainda quis me cobrar porque ela tinha derrubado chá no teclado e quem é que paga a conta? a trouxa aqui, sempre, mas foi o que tinha que ser, coitada, ataque cardíaco, muito velha e cabeçuda, não tomava remédio nem se cuidava, o que é que se vai fazer, você não precisa vir no enterro se não quiser, mas eu queria muito te ver, você precisa ver sua mãe – e dá-lhe soluços, a velha lenga-lenga xaroposa de sempre; preferira desligar a perguntar sobre o enigmático enunciado. Então aquilo tinha sido mesmo a derradeira tolice sem sentido de sua vó. Mas por que justo com ela, Camila? Nunca nem sonhara que vó Sabrina entendesse de computador – e agora tinha que imaginar a velha estertorando no mouse como quem se apega à última tábua, ao rosário infinito, à mão confortante. Tem boi no pasto! Cada um ganha o Rosebud que merece. Segura essa: mais uma sacanagem da louca filha da puta. Eu aqui, bem. Na minha. E isso.

Precisava achar. Precisava cortar as asas daquela esfinge. Tem boi no pasto. Sobre a teia de bois deslizou: investiu-se do espírito de Champollion, inverteu, trocou, anagramatizou, contou as palavras, os caracteres, deu a cada letra um número, somou, subtraiu, dividiu, e multiplicou o nada. Procurou homepages sobre pecuária, sobre a psicanálise dos sonhos com animais, visitou sites de artes plásticas cujas palavras-chave estivessem no âmbito do bovino, leu poemas árcades, viu pinturas ruprestes em velhos livros, pesquisou o ciclo do gado do Brasil, acessou CDs que cantavam antiquados rocks rurais, música sertaneja, caipira e country. E, se do avesso não vinha, nem pelo interno: recorrer à própria árvore genealógica foi uma coisa logo descartada porque não queria conversar com a mãe, e, além do mais, memória é um troço que dá uma puta dor de cabeça e em casa não existia aspirina. Como a vó, horrorizava remédios e médicos. Que mais semelhanças haveria? Quem era Sabrina? Não era vovó de carochinhas, amante de lobo mau, velha sábia, cozinheira esmerada, matriarca extremada de amores, nem mesmo cavaleira de vassoura. Era o centro de um donut. Era uma impressora sem tinta. Era uma janela fechada com cadeado cuja senha esquecera. Tem boi no pasto, tem boi no pasto, tem boi no pasto: Camila ainda quis acreditar ser só uma piada, sem rima no real. Uma grande piada, de humor negro, de mau gosto, essa assombração. Não, não devia morder essa isca: não queria significar nada.

Abriu outro pacote de chicletes, enfiou logo três na boca – mordeu, mastigou, fez bola, a bola estourou grudando na cara toda. Tentou rir da vó, tentou esquecê-la enquanto, por exemplo, jogava paciência no PC pela 524ª vez seguida. Mas sempre acabava voltando um passo para trás deste penhasco: e caiu.
O mouse que a avó agarrara na morte era ela mesma – estaria até o fim presa nessa armadilha. Entanto, desesperar jamais. Lucidez, esse o seu predileto vinho; e cada menos que ela rejuvenescia, sua crença crescia, geométrica, bissetriz. Tudo o que não queria era ser como ela. A velha doida assustadora, faminta por vexames. Camila não. Sua paciência, seu inteligível e sua vigília careciam de fronteira. Pouco a pouco, enfim compenetrada e detida, foi dispensando pedidos de textos, de biografias, de artigos, de consultorias. E a inacessível grande historiadora ia lentamente sendo inacessada; o que nem discutiu, nem redargüiu, nem reclamou. Agora que agora é nada, só importava o mistério maior. Em busca do sentido perdido, desencanou.

A catástrofe caiu de noite, entretanto, sem telegrama dessa vez, em setenta punhais: um blecaute por toda a cidade. À sua frente, o computador ficou cego, a secretária eletrônica calou, a TV fugiu ao controle, o microondas esfriou, a luz velou. Logo veio um medo – aquele pânico quando andava de carro pela cidade temendo ver velhinhas de cabelos longos e brancos atravessando a rua. Soluçando, Camila atirou-se no fofo carpete da sala, escondendo o rosto no chão – tapou as orelhas para não escutar a cantilena: tem boi no pasto, no pasto tem boi, boi tem no pasto, tem no pasto boi, boi no pasto tem – e daí, insidioso e fofo, veio um silêncio; primeiro de fora, depois, de dentro. Um silêncio bom, delicioso, de travesseiro fresco e novo, uma dobra do tecido sugado pelos dentes. E ela começou a gostar, lá no fundo das caraminholas – uma liberdade. Assim sim, desse jeito, tranqüila, total, teria mais tempo. Todo o tempo do mundo. Ou o que quer que tivesse esse nome de mundo demarcado numa coisa, numa substância, num corpo. Porque, daqui pra frente, para ela só haveria na face da Terra um imenso e longínquo pasto, liso como uma pele, e nele, um tranqüilo boi ruminando sem parar sua consciência. Sua consciência de boi. Ela seria um boi. Solitário e bom, desgarrado num campo perene possuído por todas cores do verde, essencial, mascando capim-gordura de bem leve, com pesaroso amor, vagado, mas de tão sozinho cheio, que abriria asas. Nas quatro patas sólido, continuado presente, comendo e dormindo e sonhando e cagando e andando verde, parado, penso no tempo, feliz, simples, pensando pensamentos de boi – de boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa criança que tem medo de careta.

De vez em quando, espantava uma mosca com a cauda.

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Inverno, 1997.

Written by rbressane

fevereiro 23, 2008 at 4:17 pm

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Universidade

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Meu nome é Cleudival, precisamente por ser filho de Cleuda e Edival; este, filho de Edileuza e Válter, que são, por suas vezes, nascidos de Edílson e Neuza e Tereza e Valdir, que teria tido como pais Dirce e Valdomiro, o qual, lendejam, fora integrante do bando de Lampião. Sou, da cabeça aos pés, nordestino; portanto um ordinário de primeira nesta cidade de São Paulo, aquele santo que abriu os olhos quando Deus cegou-os. Semelhante a seu trajeto é este meu trabalho: contar aqui um trecho de minha história, a dos últimos dias, pra que no meu íntimo ela se apague definitivamente. Se fosse católico, se acreditasse em Deus, diria que se trata de uma confissão, seguida de expurgo e perdão através da hóstia e do vinho. Meu problema é de outra ordem: não pequei, e ainda assim sinto culpa; meu nome é limpo na praça – talvez seja a praça, suja.

Começo lembrando-me da dor em meu braço esquerdo, por ter dormido em cima dele, mal-ajeitado num pequeno divã no quarto de hospital em que minha mãe se encontra. O braço formigando, o quarto tomado de claridade ensurdecedora, ruídos eletrônicos como pirilampos cegos, coloco meus óculos e olho para minha mãe que se afunila entre lençóis enormes e tubos e dutos e cateteres e aparelhos.

Parece dormir: nunca sei quando inconsciente, em coma, desmaiada ou prestes a despertar – são muitos os humores dos que têm os olhos abertos para o outro lado. Entra uma enfermeira, a qual, logo após cumprimentar-me com um leve gesto de cabeça, prepara cuidadosamente uma injeção e aplica-a no campo já tão minado por agulhas quebradas e pontos pretos que é o braço da mãe. Ela nem se mexe. Calço os sapatos, espio o relógio: atrasado. Pego cuidoso minha maleta e saio, sem olhar para atrás, para a manhã que se ensolara como um grito.

Zarpo desembestado até a USP: pela Marginal Pinheiros, de dentro de meu carrinho, presente materno, buzino, xingo, cuspo, bato no painel; sou um vaqueiro indomável, mais rápido e ágil que qualquer um. Pequeno, franzino, baixo, de finas carnes e ossos, ao volante me agiganto, meto meu veículo onde couber, e escapo do trânsito. Sim, sei dessas compensações materialistas: sei demais de mim para mentir. Mas sou cúmplice em várias omissões. Como a em que contribuirei, na aula próxima do professor Alfredo Bosi. Tratam-se de alguns ensaios de final de semestre, que fiz para ajudar uns amigos do segundo ano de Letras: um soneto de Bandeira, uma glosa de Gregório, um estrambote de Drummond – cada poema um texto de dez páginas de análise interpretativa, cada texto um amigo que escapa da recuperação. Querem me pagar por isso; não deixo. Às vezes me pergunto onde é que termina a generosidade e onde começa a soberba. Disfarço bem; sofro melhor ainda.

Dissimuladamente, distribuo os trabalhos a meus colegas, que parecem bastante aliviados por minha presença; a aula finda, sou uma ilha cercada de tapinhas nas costas por todos os lados, massa de sorrisos que me constrangem, me envaidecem e me enojam. Um, mais solícito, pergunta pela saúde de Dona Cleuda.

– O câncer entrou em metástase – respondo, grave e um pouco envergonhado por uma aparente fraqueza. Tento um sorriso: – é a carne, meu amigo, é tão-somente a carne…

Ele me olha sem entender: é mais um estranho, e, para nosso mútuo bem, me distancio, numa vaga careta. Desço as escadas até ali onde o mato é mais alto, e chamo: – Teobaldo! Ô menino, onde é que se meteu? Venha cá, vou-lhe fazer uma surpresa, bichinho! – E do meio de umas flores amarelas vem correndo um gato miúdo, malhadiço, a quem dei este nome; tiro da maleta um pacote com sobras de comida que colhi na lanchonete do hospital, arroz com batatas murchas. Ele mia, e começa a comer. E de repente Teobaldo não é mais o único: proliferam-se vários clones dele, um mais feio e sujo que o outro, embora às vezes apareça um siamês ou um angorá que ninguém mais quer ter em casa e larga por aí, pelo campus – a universidade está infestada desses esfaimados indesejados.

Largo-os com a comida, e saio para uma volta, sozinho, estranho entre meus colegas. Sim, porque vindo de onde vim, expulso do Nordeste – que nunca foi o Éden – e dando cabeçada em tudo quanto é esquina desta cidade, jamais posso me esquecer disso, a condição de estrangeiro, que não creio com ressentimento, mas, aliás, muito natural. Irreal é o fato de minha estranheza ter corroído até o âmago minha própria família, até meu próprio ser. Lembro-me subitamente de minha mãe horizontalizada e me arrepio ante a natureza do que virá.

– Quantas vezes já me debati entre a noção do que é certo e o que é errado, até chegar à conclusão de que somente existem possibilidades, realidades, ilusões – é o que tento explicar a Hermes, um de meus melhores amigos, senão o único, na USP aluno de Italiano. Ele acaba de me relatar um sonho que teve, em que mordia furiosamente o braço da irmã, Lisle. Sansei, magro, broche do PSTU na camiseta rasgada, quase um adolescente, Hermes sorri amarelo enquanto desajeitado limpa o óculos na camisa de flanela e ouve-me dizer que, para além do simbolismo óbvio, não sei interpretar este sonho, no que ele teria de mais profundamente revelador. Freud não é tudo na vida, e Lisle é muito bonita – e devo encontrá-la mais tarde. Hermes espia em volta, procurando pelas estantes um livro qualquer – estamos na Edusp, livraria em que trabalho, como vendedor, no horário entre as aulas matutinas e as noturnas – e me fala que Lisle o procurou com dificuldades sobre um livro do Arrigucci, e ele não soube conversar com ela pois o sonho ainda estava presente em suas retinas. Não sei o que dizer, pois ontem combinara com Lisle um encontro, em segredo, como me pedira. Hermes confia plenamente em mim, e eu temo traí-lo, ou pelo menos que venha a saber. Mas o que não poderia saber? E o que seria uma traição, segundo minha ética particular?

Sou de todos e não sou de ninguém – é em que acredito. Assim, passa por mim a vida, em seus inúmeros enganos e diminutos prazeres, e me espraio em uns poucos minutos, me distraindo do resto; e me dou todo, negando-me qualquer redenção que disto advenha. É desta maneira, pois, que me sinto ao chegar, muito humilde, até a secretaria do Crusp, o conjunto residencial dentro do campus:

– Cleudival da Silva, baiano, 26 anos, residente à rua Dezesseis de Novembro, número 66, estudante de Letras, curso de Russo, trabalho na Edusp, venho solicitar uma vaga num apartamento, por não dispor de condições de me deslocar de onde moro até aqui, todos os dias. Não, não tenho condução própria. Tenho três irmãs; a mais velha, de 23 anos, tem seis filhos. Meu pai, Edival da Silva, morreu, eu tinha seis anos. Conosco mora o padrasto, de sessenta anos, inválido. Minha mãe?

Respondia sem pestanejar às perguntas da senhora da secretaria, mentindo aqui, ali simplesmente falando a verdade – a infância difícil, a morte do pai, a miséria, a fome, a força da minha mãe. Tudo verdade, tudo doído, minha cara é testemunho. No entanto eu precisava de um quarto meu, necessidade física mesmo, e não podia falar do automóvel, e as supostas irmãs desempregadas sobrevivendo às custas de meu pequeno salário na livraria eram ótimos fatores. A minha mãe? Olhava de baixo, mais de baixo que eu já sou, mexendo insistentemente nos óculos redondos, olhava de lado, tímido voltando as mãos suadas ao bolso; e dos documentos que não tenho, ela me responde com um “tudo bem”: está comovida, sim, com minha penosa situação, é uma alma boa, ganho-a aos poucos, como quando interrompo a descrição de minha errança pelo sertão do Nordeste para indagá-la do braço, que está enfaixado e imobilizado – não é nada, responde, só uma luxação, sabe como é, velhos; sorri, e faço que tento sorrir, não conseguindo pela terrível timidez que aparento ou pelo mero complexo de inferioridade; muito simpática, a senhora, falo, me lembra a minha mãe. Sim? Sua mãe? E o que faz sua mãe?

– A minha mãe – e levo a mão ao óculos, amasso nervoso as sobrancelhas, fingindo conter um choro que quer vir; é um truque melhor que meramente chorar: a lágrima tem de sair rápida, e ser enxugada mais rápido ainda, e a voz embargar e desembargar numa questão de segundos. – Mãinha é falecida.

E passo mais alguns minutos falando da grandeza extraordinária dessa mulher, de como fugiu da seca com os filhos sem conhecer absolutamente ninguém, nem parente nem amigo, e conseguiu erguer-se sozinha, com a força de suas mãos costurando, lavando, passando, cozinhando, sol a sol segunda a segunda, tendo como única companhia a voz jovial de Silvio Santos – nesse ponto a senhora pôs-se a soltar lágrimas silenciosas – e muito depois dos filhos estudados, o mais velho entrando na faculdade, é que se deu ao luxo de casar-se novamente, só para ter uma companhia, uma de verdade, mesmo assim maldizia-se por ter feito a escolha errada, pois o padrasto, embora boa pessoa, era um alcóolatra irrecuperável, coisa que a entristecia e a fez ficar doente, nosso dinheirinho guardado perdendo-se no abismo das contas da farmácia, e aí, há dois dias, em casa, sem mais nenhum alento, o fim; após, somente o enterro, num cemitério pobre, numa cova rasa, sem número.

– Vá, meu filho – a senhora gaguejava, assoando o nariz, limpando os óculos, o rosto vermelho, a boca úmida – vá, que eu vou ver o que posso fazer por você. Tem muita gente na fila de espera, você sabe, e nenhuma vaga em vista; mas vou tentar te ajudar. Não, não precisa mesmo de nenhum documento, filho…

– Obrigado, senhora, muito obrigado – ganhei, ganhei a mulher, é o que penso; estou todo suado – muito obrigado pela sua atenção, amanhã passarei aqui, para saber a resposta. – Vou saindo cabisbaixo, mirradinho; a noite cai sobre o campus, belíssima em sua lua cheia azulando os enormes espaços verdes vazios da universidade, e se coalhando em uma pequena multidão de manchas esvoaçantes – são os gatos, que saem para o escuro, seu território pleno, atrás de restos de comida.

Entro no estacionamento e discretamente escapo de lá em meu Uno, na direção do edifício da faculdade de Letras, os faróis do carro acendendo mil olhos detrás dos arbustos, das árvores, dos matos altos. Mil olhos me olham.

Lisle, irmã mais velha de Hermes, me espera lindissimamente num vestido florido, sorriso simples no rosto sereno, livro do Arrigucci sob o braço. Convido-a para entrar no meu carro; finjo que estou procurando uma vaga para estacionar e paro num lugar um pouco mais reservado. Ao seu lado, sinto-me tenso.

– Seu irmão me disse das suas dúvidas desse livro – inicio, pouco à vontade – mas acho que não era disso que você queria me falar, não é, menina?

– O Hermes… – ela desvia o olhar pra fora, translúcidos olhos a refletir-se em flutuantes olhos de gato. Suas pernas se escondem sob o vestido somente a partir do joelho, ficando descobertos os braços limpos, suaves, e o peito magro, chato, de pele acobreada, macia, parecendo ter cheiro de sol. – O meu irmão anda um pouco estranho comigo… ele tem me evitado, sabe? Nós sempre fomos tão próximos, e agora… Eu fui pedir ajuda pra ele, ele disse que não sabia… Foi brusco, e me mandou falar com você…

– Olhe, Li – era seu apelido, não intimidade – eu não disse a ele que a gente tinha combinado de se ver…

Ela olhou rápido, profunda, nos meus olhos, e soltou:

– É bom, é melhor. Eu não sei por que ele está assim, é tão estranho, não sei explicar… – e pôs a mão no queixo.

Ficou um silêncio besta, de braços cruzados eu, ela de joelhos morenos. Lembro de ter desviado pra uma preocupação fora de hora – não sabia se meu padrasto estava com mãinha, a essa hora, no hospital, ou se sairia, antes que eu voltasse, atrás de bebida. Ocorre-me uma idéia, uma idéia meio maluca:

– Li, você sabe que eu quero muito bem ao seu irmão, não sabe? É feito um irmão mais novo, pra mim. Eu acho que ele anda tenso, por causa das reuniões do partido, só isso. O Hermes tem grande valor, Li – e ela assentiu, abrindo os olhos rasgados – um enorme talento, e eu velo muito por ele, você pode ficar descansada, sim? Que ele é muito importante pra mim. Olhe, Li, guarda um segredo?

– Claro.

– Jura?

– Juro, por quê?

– Eu fiz um poema pra o Hermes – na verdade, tinha escrito o tal poema era pra Lisle; mas tinha de arriscar neste palpite – um poema, que eu tenho um pouco de pudor de mostrar a ele, não sei como iria receber… Posso ler pra você?

– Nossa, claro, quero ver.

Limpo a garganta, olho para a lua, imposto a voz e vou:

– O título é “Esse rapaz”. – Mas havia um outro, que não disse: era “Não matarás”.

Ainda não há erro do qual eu não seja capaz,
nem sentimento do qual não me veja capataz.

Em meu sangue nenhum pássaro jaz.

Mas em mim persiste a dúvida voraz:
quando virás, o quanto abraçarás.

Ela fica me observando daquele jeito veloz e fundo como balas, ora olhando pra fora ora dentro dos meus olhos; meu coração bate depressa.

– Lê de novo?

Eu leio, aquele poema ruim, agora o vejo, naquela dicção retórica, cheio de rimas abertamente fáceis, mas que meu acento se encarrega de preencher de subjetividades misteriosas. É um poema meu, mas um poema mau, pois não sou eu, ou então, não de todo.

– É lindo – Lisle sussurra, com o rosto bem próximo – eu havia me achegado a ela enquanto lia, bem devagar. E olho, sério, nos seus olhos castanhos, pensando ser o momento certo: aí – suspensão – a beijo.

Uma boca morna, de lábios um pouco duros e resistentes, que eu procuro vencer inteira, por vias tortas: estranho amor este, onde estou fora do verdadeiro lugar, sou uma projeção, uma proteção, mas de quê, se de mim pra ela, ou entre os irmãos, ou uma fuga de tudo que se passa comigo, ou um instante de soberba, orgulho macho; tudo é, e mais, é só um beijo, mas não amor: eu respiro descompassado, acerco-a com meu corpo, meu humilde e úmido corpo pequeno e minha trêmula excitação; minhas mãos vão deslizar de seus ombros redondos, macios, que aperto, e aperto – ela se afasta:

– Não, não, por favor – esconde o rosto. – Desculpa, tá? – Me olha. Olha pra fora. – Acho melhor ir. Depois – abre a porta – depois, a gente conversa.

Onde é que tinha errado? Ah, estrangeiro, estrangeiro sempre. Mas era só um beijo. Saio do carro, vou para a aula de Latim, a que não assisto direito, perdido em estratosferas de raciocínios e temores. Tapetum lucidus. Diz a professora que este é o nome da camada vítrea nos olhos dos gatos, que, em vez de absorver, reflete a luminosidade: tapete de luz. Feio, feio, muito feio eu. A ilusão de ser um intelectual poderoso e cosmopolita se dissolve nas lembranças terríveis sempre vindo. Saio da classe, aqui fora o silêncio. Vejo-me nu, queimado, castigado, lascado ante o sol que não me alimenta, mas que me come de todos os lados, bicho carunchento na garganta, mosca varejeira invadindo a boca, o nariz, chifre de boi e galhos rústicos ralando as pernas. Os gatos miam alto: o que querem? Olhos de luz e miados escuros. A mão na mão da mãe, a mãe no alto sem olhar pra mim, olhando a lonjura do que vem, mas não vinha, não vinha nunca, não veio. E tudo o que faço é pensar no conteúdo da maleta, e então é como se minha mãe puxasse de dentro uma fresca força e com seu braço bom me botasse em seu colo. Chega. Tenho de voltar pra o hospital.

Mesmo à noite, o hospital é um organismo vivo, bicho de mil patas e cabeças e caudas, crivado de salas graves em que pessoas debatem-se por descobrir se venderão o apartamento ou as jóias para pagar o tratamento médico daquele que está internado: corredores densos de rancores frios confortavelmente limpos, de asseadas arestas. Embora minha mãe tivesse conseguido pagar um convênio, com suas economias de costureira, também nós deveremos arcar com tratamentos intensivos e remédios importados: a casinha onde vivíamos e meu carro foram postos à venda, e talvez não bastem. Por isso é que aqui quase ninguém sorri. Mesmo assim, por dentro eu trago um sol – seria aquele que orbitava a cabeça de minha mãe, no dentro do sertão?

Padrinho – é como chamo meu padrasto – foi-se mesmo. Diz sempre não agüentar essa situação, já há alguns meses; um disparate, ele fala – costuma voltar pra casa lá pelas dez, cansado e frouxo de velar minha mãe durante o dia, quando não estou. Um homem que cada vez mais é menos pra mim. Entro no quarto. Estado inalterável: dona Cleuda continua ausente, feito um feto de mandacaru, avançando emusguecenta sobre os aparelhos, cacto chupado. A enfermeira entra, me sorri, uma injeção aplica-lhe. Preparo-me para a longa noite: descalço os sapatos, pego de um livro à cabeceira, deixo a maleta ao lado da cama – observo-a pressuroso – acendo a luminária. Sai a mulher de branco. A sós, eu e minha mãe no coração do silêncio. Eu olho seus olhos dentro das pálpebras. E sinto nojo.

O que acontece nessa noite nunca vou saber direito: como esses sonhos em que temos a nítida sensação de cair, e caímos de verdade da cama. Tentava o sono, mas me tentava mais a imaginação o som de miados lá fora– poderia ser, até aqui, o ronronado dos gatos da USP? Uivos felinos no cio, parecendo crianças com a fome na garganta engasgada, me estremecendo as carnes como chicotes raivosos. Eu tentava o sono, fechava os olhos no frio quarto, enfezava-me. Vinham os miados, e daí, devagar, iam os mios miando, surdinos, doídos. As pálpebras, duas tumbas. Para daí os olhos de dentro, cada vez mais. Numa estrada sem fim. Fugir, fugir. Nunca mais voltar. Mas volta e meia tinha a cara de minha mãe grande junto à minha, rude e rala, rasgada terra sertaneja, ensolarada e desolada.

Eu retornava, em silêncio e com fome; dores pelos ossos, pelos nervos, pelas veias. Entrava em outro país, sem passaporte, distinção, idioma, sobrenome. Meu nome e o nome dela, Cleudival e Cleuda: coisas contíguas, em letras que numa barafunda de movimentos suaves duplica-se uma injeção carinhosa envolvendo meus miolos quentes e doidos. Agulhas furando o chão rachado, furos esguichando leite e pus. Luz que me vela os olhos, por todo o ar a luz que me aperreia, me desabita: urubus comendo-me os contornos, a estrada se indo embora, eu junto. Atrás. E os santinhos que ela levava, e o terço que rezava, e meu nojo pelo Salvador e o painho que não existia, o expulsador, o sol, só sobrando a terra nua e crua, relento dentro e fora. O medo enganando a fome, a fome esganando a raiva – raiva de seus santinhos. Nos atalhos por onde Judas perdeu as botas, os pés doendo, a mão na mão da mãe, suava, ardia; ela rezava, resolutamente certificada da vinda do Messias, o braço reto apontando o caminho da frente: o beijo por trinta dinheiros, não queira você meu filho dar nunca em ninguém. E me beijava a testa, em ensinamentos – eu tremia, convulso me rolando em mim. A estrada uma enorme língua sem boca. O calor do sol feito felinas línguas de lixa subindo pelas minhas pernas – o mundo era todo cheio de bocas. O beijo em Lisle, o beijo de Lisle em Hermes, a boca de Hermes na minha boca. Crispação. Lábios fechados da mãe em Cristo, por Cristo, para Cristo. E daí a chegada de um homem, um outro homem em casa, companhia para a igreja no domingo. Torvelinhos: minha bíblia rasgada que ela descobriu. Meus olhos que ela descobriu. Meu lençol que ela descobriu.

Estava descoberto.

Abro os olhos: a enfermeira me balançava o ombro; empurro a coberta, sento. Minha mãe tinha morrido.

Afinal.

Segue-se uma confusão de atestados, protocolos, cheques cautelares, documentação incompleta, preços imprecisos, brigas com os maiorais do seguro-saúde, procuras por coisas nunca antes sabidas: padre, caixão, velório, flor, cemitério, cova, pedreiro, coveiro, letreiro, dinheiro que não se tem na hora incerta. As economias nossas, diminuindo, sumindo. Meu padrinho e eu gastamos o resto da madrugada e a manhã toda atrás disso. Passada entre quatro paredes de madeira, dona Cleuda é um nadinha, um recém-nascido ao avesso. A pior parte é levá-la ao crematório: não há papel com ordem expressa sua para que seja feita sua vontade, que ela me declarara, e quase acabamos aceitando fazer o enterro simples. Mas, à semelhança da cena no Crusp, consigo a tal documentação, e é dispensado o restante. E minha mãe – ou seu corpo, que sua alma não pode haver, é em que acredito – pode ter satisfeito seu desejo. Morria de medo de despedaçar dentro do caixão, braço na boca de um verme, pé espojado na de outro, cabeça comida, cortada, feito a dos cangaceiros esquartejados pelos macacos do exército. Lá se vão lambendo as chamas pelo caixãozinho orgulhoso: meu padrasto chorava sem parar, mãos unidas no terço. Meu padrasto e eu, homens desvinculados. Preciso pensar no que fazer a casa, com o carro, com o dinheiro que estávamos devendo – remédios, médicos, hospitais. Precisava pensar na minha vida, e depois. Entretanto, só tinha cabeça para lembrar, repentinamente, das vezes em que lia Dostoiévski pra ela, enquanto ela fazia crochê, um braço sumido nas cores das linhas: ela acompanhava com devoção e grande atenção – era analfabeta –, como se fosse uma novela de TV. E sabia todos os nomes difíceis daquelas personagens frias, e comungava de meu esforço por conhecer outros mundos.

De volta à USP, encontro-me com Hermes e Lisle – ela com o braço no braço do irmão. Teria contado a ele sobre ontem? Preciso saber, não posso ser enganado. Mas, a uma pergunta de Hermes, aproveito e narro de uma vez a história da morte da mãinha. Dizem-se chateados, e procuram consolar-me. É estranho, pois começo a receitar meus princípios – o fim do corpo no corpo, a ausência do espírito – como uma espécie de justificativa. Tão calmo pareço, que Lisle acha que estou brincando, que é tudo mentira, pois nunca havia dito a ele de nada. Sou levado a falar que chorei, que sofri muito. Parece-me um pouco desagradável e entediante, conversar assim de minha vida com eles. Estando na hora pra o início da aula, vão-se. Sinto-me ridículo, como se tivesse que ter dado razões para emocionar-me.

Fecho a livraria. Onde estará Teobaldo? Com fome, com certeza. Vou até o Crusp, ver o resultado de meu pedido.

– Aceito. Tem um quarto que acabou de vagar. Isso, assina aqui. É, rápido assim. A documentação tá ótima – me diz um homem barbudo. Pergunto sobre a senhora com quem conversara na véspera. – Pediu desligamento ontem mesmo – e eu me espanto: – estava passando por problemas, dúvidas em relação à profissão. Parece que veio uma pessoa aqui e ela ficou muito deprimida com a situação dela. Não sei se volta. – Ah – é tudo que consigo dizer. Pego a chave, os papéis, agradeço, e me despeço.

Noite. Calmo, caminho até o Crusp. Um lance de escadas e estou no quarto – um espaço de cinco por cinco metros, tendo de um lado uma pequena cozinha, um banheiro, e ao centro uma janela. Slogans políticos, corações, palavrões – as paredes são um piche só. Nem hesito: jogo a maleta sobre uma cadeira quebrada, estendo-me sobre um colchão embolorado ali, fecho a porta e adormeço, olhando a fria e boa lua.

O sol, mais uma vez soberano, é quem me arranca do torpor, junto de barulhos no quarto ao lado: os gemidos de um rapaz e os gritos e guinchos da garota num crescendo. Diabo, parece que estão todos nesse maldito cio. Por que não consigo um pouco de silêncio? Vou ao banheiro, lavo a cara; lembro da escova de dentes em minha maleta e volto. E de dentro, no meio de um livro e outro, aponta-me definitiva a seringa com a dose de cloreto de potássio. Na medida certa para um ataque cardíaco fatal, sem deixar vestígios ou suspeitas. Vêm-me a tona, de uma só vez, as cenas terríveis da noite passada: a agulha da seringa brilhando no escuro do hospital, o brilho que julguei ser dos olhos da mãe subitamente abertos, a procura por uma veia em seu braço; a febre, o sono, os sonhos secos; a busca pelo seu e meu alívios, há tanto tempo, meses que eu levava a seringa na maleta, desde antes do hospital, à espreita do melhor momento. O alívio, o fim do sofrimento, mais meu que dela. Rodo pelo quarto, sem ar, vou até a janela, ainda segurando a seringa. Mas ali a dose de cloreto parece intacta. Eu não a utilizara, afinal? Talvez não tivesse precisado, o que de modo algum poderia me aliviar. Como saber agora? E como pudera ter a idéia absurda de matar um ser já tão impregnado de morte?

A cabeça estrala de espanto, quando então vejo, bem debaixo da janela, meu gato Teobaldo, olhando para mim. Surpreendo-me por ele ter vindo de tão longe – o Crusp fica a alguns quarteirões do prédio da Letras – teria vindo me procurar? Mia. Mia obsessivamente. Num segundo, voa sobre um pássaro muito pequeno, que eu nem havia percebido, ao meu lado, no parapeito. Este deblatera-se na boca do bichano, porém é pouco, e pára. Agora são só ossos crepitando. Quase não sobra sangue. E agora é só um gato alimentado, seus olhos misteriosos, sua forma malhadiça esculpida em reentrâncias iluminadas pelo sol, pelo vôo que lhe vai dentro. Depois disso é que tive a súbita vontade de escrever.

Olho para essas páginas, seis ou sete horas depois, olho para o lado de fora do quarto, meu quarto, agora: vejo um verdejante campus, atrás o sujo rio Pinheiros, atrás uma massa opaca de edifícios feito uma fileira de tumbas. Mais que só, sou inteiriço, monobloco. Detrás da parede o casal se aquieta, nos meus dedos o gato ronrona; penso em Lisle, em Hermes, em minha ausência de cordas com o mundo, de motivos para continuar, e nesta dúvida horrível pelo desejo que tive e não sei se concretizei. De tanto escrever, meu braço dói. Penso que, então, finalmente, posso dizer: sou todos e sou ninguém. Poderia até mudar-me para outro nome. Mas qual?

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Verão, 1996.

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fevereiro 23, 2008 at 4:14 pm

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Texugos

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Era amigo de avencas, texugos e relógios. Todo dia ele curvado dando pêssegos às crianças, o rego aparecendo, alvas sobrancelhas sorridentes, flores no chapéu. Queria mostrar os bichinhos, fazer festa pra eles e pras crianças. Os pais não o engoliam: homem do saco, a sentença. Contudo não se enganava a molecada – o tio Floreal era gente fina. Uma flor de pessoa.

Duas menininhas, tarde de sol, sorvetes de pêssego e um livro de figuras – o caminho pra casa se alonga. De entrada, ganham um punhado de frutas e avencas [quente, a estufa, tio]. Tati e Lulu então conhecem os texugos: tão fofos bichinhos comem na mão. Na mão comem, e aí comem a mão – querem o braço, os lindos texugos; as pernas; os corpinhos; os olhos: os olhos de Tati e Lulu [gritos inúteis das meninas no sumidouro das bocarronas].

Desconsolado, o bom velhinho – em seus olhos recorta-se um vale de lágrimas a avinagrar o vidro dos relógios, molhar as molas, estragar as engrenagens. A própria cabeça ele estapeia. Os texugos observam quietos: um corre à estufa, retorna com dois pêssegos, pendurados na boca pelos cabinhos. Coloca-os aos pés de Floreal, que os cheira, ainda entorpecido e fungo. Enfim, dorme, ronco rude, e sonha – uma aquarela de relógios avencas menininhas.

Acordou assustado: os texugos mordiam suas sobrancelhas, resfôlegos, faimantes. Já os pêssegos no saco, ele voltou, fatigado, em curva, à rua, onde pessoas em desfile vinham empunhando tochas. Os relógios de sua casa talvez estivessem fora de prumo, mas tio Floreal não saberia mais dizer que horas são.

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Primavera, 1997.

Written by rbressane

fevereiro 23, 2008 at 4:10 pm

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Sujeitinha!

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Vem buscar-me que ainda sou teu.
[Vicente Celestino]

O fêmur esquerdo em dois pedaços, Vicente chegou à choupana de sua amada arrastando-se, trazendo-lhe embrulhado num papel de pão o falante coração da progenitora. Vitória, que contara como certa a loucura do camponês, estendeu-lhe a mão, enxugou um soluço; sustentando-se na parede, sujo de sangue, ele abraçou-a: – Está provado agora que te quero? – Ela somente assentiu ao ex-filho único como olhos encovados de choro arrependido. Nada a fazer: culpa sua, só. Deu a ele a outra mão e Vicente mudou-se, naquele momento mesmo, para o casebre da namorada solitária. Embora a perna doesse muito, amou Vitória sem esperar por ela tirar a saia, os dentes nos seios brancos de bicos grandes, a aspereza da língua arranhando a vulva; vergões vermelhos na amada surgindo aqui e ali – a forma de seu amor, feito fome, feito faca.

Saciado, olhando-se no espelho do lado da cama de Vitória, lambendo-lhe o umbigo, viu, do outro lado, sobre a mesa, o ensangüentado músculo materno – a pulsar. “Mas que coisa, coração nenhum assim se mexe ou fala!” E virando-se para a amante: – pra quê tu queria o coração da minha mãe? Pra deixar pras baratas, na cozinha? – E ela respondeu: – Vicente, aquela hora eu estava só brincando, não quis dizer… – Ele levantou-se: – brincando, Vitória? Tens idéia do que fiz pra ti? – Ela permaneceu em silêncio, as mãos entre as pernas quentes, encolhida. Vicente mirou-a de cima a baixo. Seu feito modificara sua percepção sobre as coisas, o que lhe dava uma certa dor de cabeça. – Pois – cuspiu, encarando novamente o espelho. – Sei o que tu fazia antes aqui, como ganhava a vida. – Ajoelhou-se, a barba e os olhos negros crescendo junto ao ouvido da namorada. – Mas hoje, e daqui pra frente, tu vai ser só minha. Só. Entendeste? – Ela outra vez disse sim com os olhos, já pensando no que falar a quem lhe batesse na porta. Vicente foi até a mesa: – Antes de tudo, vais me fazer uma coisa. Assim como eu fiz um sacrifício, tu vai também. – Pegando o coração, estendeu-o para a amada: – tu pediste o coração da minha mãe. Eu te peço que tu coma! – Vitória arregalou o olhar: – Quê isso, Vicente? – Ele colocou o coração à frente dos lábios dela: – Come! –, ela afastou-se, sentindo o cheiro doce; ele repetiu: – Come! – abriu a boca de Vitória, e empurrou-lhe o coração – come! Come! –; Vitória começou a chorar, estômago torcido, língua com uma palavra grossa presa a perceber o sabor da sogra – come! –: e ela entregou-se, os dentes desfibrando suavemente a carne tenra do coração rubro quatro cinco mordidas, as gengivas ferindo-se; não se contendo, gritou, quando a carne sumarenta desceu-lhe o esôfago, e por mais que fizesse, não conseguia expulsá-la de si.

Vicente abraçou a namorada, lambendo suas lágrimas.

Depois daquela noite não tocaram mais no assunto. O coração foi levado por um cachorro que entrara na casa pela porta aberta e Vitória saiu às ruas, noticiando o noivado aos conhecidos. Iria ainda à choupana de Vicente – pois ele não podia andar –, buscar umas coisas. Teve ela mesma de enterrar a gorda mãe do amante, no quintal, sob umas coroas-de-cristo. Aos vizinhos espalhou que a sogra precisara viajar. Eles não se importaram – a velha não significava para eles mais que uma beata chata.

Semanas se passaram, Vicente sempre na cama, cuidando ora da própria perna, ora da vagina de Vitória. O amor os tornava babosos, viviam de apontar estrela. Um dia a barriga berrou. Vitória pensou em costurar para fora – única coisa que sabia fazer, fora embalar homem – e teceu noites a fio. Costurou, costurou, até com as pernas abraçadas às do amante costurou. Infelizmente as vizinhas não lhe pagavam o merecido, se queixando da safra ruim dos esposos, ah, esses homens inoperantes. E Vitória, a moer-se de trabalho, à noite só queria travesseiro. Vicente não gostava da diminuição em sua cota de afago, mas resignava-se, certo de que logo ia sarar.

Contudo, meses e meses e nada de cura. A perna parecia entortada. Doía. Doía muito. Para não senti-la, bebia. Somente o ronco fazia-o suportar-se a si. Vitória o espiava, a baba saindo dum canto da boca, o bucho fofo. Tinha temor, tinha amor pelo come-dorme. Não sabia o que fazer, tanta conta pra pagar, ali as quatro paredes do casebre desabando. No espelho, seus peitos cresciam, e para baixo.

Então, o inevitável: o feijão-com-arroz de gosto ruim virou indigestão e pesadelo, o botão mal-costurado caiu, o mau-hálito de manhã cedo ardeu nas narinas. O lar é o mais edificante dos venenos, e doce demais cria cárie, abcesso e câncer. Vicente deu pra beber, Vitória para rezar. Pedia a Deus e à Virgem Santíssima que o amante melhorasse e arranjasse um emprego – viver assim não pagava a pena. Os olhos cansados, vesgos de ponto, nó e cruz. A noite levava sempre duas garrafas, e se Vicente a pegasse de dedos entrelaçados no rosário, ah!: mandava-a ajoelhar-se e rezar para o único deus que conhecia, aquele entre as pernas. Vitória teve de comungar com o Supremo escondida no banheiro – e pouco a pouco foi crescendo nela um nojo das coisas do amante, até alegrava-se quando Vicente bebia além e não tinha vontade, o que era cada vez mais ocorrente – de nu, só agüentava Cristo crucificado. Na madrugada, no espelho, debaixo do ventre redondo e doente, entre os caracóis do púbis, ela notou uns cabelos brancos.

Uma tarde Vitória entretida entre saias, Vicente entre porres; na porta, três pancadas: – será possível? – pensou ela. Foi atender, era um amigo de outras épocas. – Corre daqui, casei-me. – O homem não foi, Vitória com medo que o marido acordasse, o amigo insistindo numa recordação, acontece o temido. Vicente escutou o vozerio masculino e com muito custo dirigiu-se à salinha apoiado num cajado. – Querendo remediar nossa miséria como dantes, sujeitinha? Tu vai ver! – O cliente desinformado escapuliu; Vitória pediu compreensão; Vicente ofereceu cajadada: – Sujeitinha! – E tome porrada. A mulher fugia pela sala, gritava – não é nada disso que estás pensando~! – ele revidava, com os nós dos dedos: – pensando quê, debaixo de meu teto! Sujeitinha! – Sangrando pela boca, em meio de asco e desespero, Vitória ajoelhou-se aos pés de Vicente, as mãos em cruz: – Por minha Nossa Senhora, Vicente! Meu coração é só teu! – Então os olhos dele se escancararam, entrevendo alguma coisa além da ressaca, além da mulher, além da situação, além dele mesmo, e com a perna boa chutou a amante – que foi parar do outro lado, a nuca espetada numa quina da mesa – Sujeitinha! – ; ele rasgou-lhe os trapos negros que ela vestia, mordendo-lhe o pescoço; abaixou a calça, fez-se nu sobre a mulher de olhos mudos, entrou nela, penetrou os dentes em seu seio esquerdo, de onde escorria uma gota de leite, penetrou os dentes pelas suas carnes – Sujeitinha – arrotou, e reclinou-se ao lado do corpo da amante; mirando-se lá do espelho do quarto, brincou com a cruz pensa do pescoço de Vitória, a massagear a perna insensível entre moscas, permanecendo assim até de manhã.

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Verão, 1989.

Written by rbressane

fevereiro 23, 2008 at 4:10 pm

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Relato entre Machado e faca

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Nada podia acontecer de novo. Os alunos chegavam em sua espasmódica gestualidade, um pé querendo ficar para um café lá fora outro interessado na aula do mestre Valentim; mas é claro que sempre havia os terceiros, ali apenas obrigados — pais, convenções, currículo. Por trás das janelas fechadas da classe, breve quase todos se sedimentavam nas cadeiras. Fazia frio e a maioria abotoava-se dentro de casacos; bons casacos.

Como o meu. Sentado nem muito à frente ou atrás, em panorâmico observatório, entre uma página e outra de Schwarz espiava meus colegas enquanto aguardava a chegada do professor de Literatura, que traria com suas observações sempre brilhantes a fruição estética esperada para completar minha sexta-feira — dia aziago —, destinada a proporcionar-me um líquen, que fosse, de transcendência. Nada demais.

Vinha o Valentim, com seu ar de duende de botequim, pequeno-gordo meio manco, uma simpatia automática no sorridente olhar azul, chispante. Aproximou-se vagaroso da mesa, em que depositou alguns livros, apoiou um pé a uma cadeira, e ao mesmo tempo que fez um comentário banal sobre o tempo levantou a meia preta, amarrou o cadarço do sapato marrom. Simples. Sentou-se como se a um almoço de arroz e feijão, a cara rosada de papai noel desnatalizado, sem barba. E é assim sua fala, grave e quente: — um intelectual prosaico, cabeça coroada por careca; um bebedor de livros.

Isso, só, e eu abri o caderno, pronto para assistir às suas lições de Brás Cubas. Pronto para assistir.

— Vamos hoje ler o capítulo “O Humanitismo”, né. Abram lá, é o capítulo cento e dezessete; pra quem não sabe, C – X – V – I – I em romanos…

E entremeando leitura, comentário, análise e interpretação, Valentim foi nos servindo várias talagadas do Humanitismo de Quincas Borba. Filosofice diabólica de Machado de Assis, encruzilhada de Catolicismo, Positivismo e Darwinismo em falsos silogismos, iluminado por um senso mais que comum, medíocre, o Humanitismo que ali nos era exposto nada mais escondia que a velha e boa justificação fatalista do poder óbvio dos mais fortes sobre os mais fracos — pela ótica dos poderosos, evidentemente. A aula fluía macia, Valentim em sua maneira monólogo-quase-diálogo me entregava de bandeja litros e mais litros da mais fina crítica. E desta maneira eu pousava em meu caderno azul mais uma fatia do grande conhecimento à disposição na sereníssima USP, — assim como quem vai ao banco depositar na caderneta de poupança, ou pagar outra parcela do seguro de vida, ou um consórcio, um carnê. Segue a leitura:

— “O amor, por exemplo, é um sacerdócio, a reprodução um ritual. Como a vida é o maior benefício do universo, e não há mendigo que não prefira a miséria à morte […], segue-se que a transmissão da vida, longe de ser uma ocasião de galanteio, é a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente há só uma desgraça: é não nascer.”

Nisso, o professor — que lia com os óculos bifocais tão colados ao livro que parecia cheirá-lo — empinou as sobrancelhas brancas vindo o olhar arguto na garupa, direcionado à porta:

— Pois não? Você quer falar alguma coisa?

Um homem alto, da cor que o IBGE chama ‘pardo’, camisa xadrez para dentro da calça jeans, acenava à entrada da classe com algo que parecia um bilhete. Seus enormes olhos negros continham uma emoção indefinível — uma zona cinzenta em que coabitavam a súplica educada, a ameaça tenebrosa e uma terceira força que logo identifiquei como fome, fome de alguma coisinha quente. Ele estendeu o bilhete e seu gesto dava a entender que queria ir até Valentim. Nada falava, o que logo estranhei. E me impacientei um pouco, dado que a aula estava tão interessante.

— Façavor de entrar — estendeu por sua vez a mão o professor, deitando de lado os bifocais.

Assim o homem caminhou, tímido, semicambaleante, ou encolhido de frio, pelos intervalos entre as cadeiras que abarrotavam a sala, Moisés atravessando o Mar Vermelho, até chegar a Valentim. Entregou-lhe o bilhete, meio sovado. Novamente o professor colocou os óculos e aproximou o papelzinho do rosto; parecia atravessá-lo com o olhar: um médico-legista, um ourives em dúvida.

— Ele está pedindo aqui para que eu leia o bilhete para a classe. Vou lê-lo.

Sou mudo. Quando eu tinha sete anos, meu tio me arrancou a língua. Estava bêbado. Estou aqui pedindo pra vocês uma ajuda, pra poder comprar um barco.

O homem tocou o ombro do parofessor, que rearqueara os sobrolhos e as sobrerrugas. E abriu a boca, feito o Valentim um médico.

O professor afastou-se — seus olhos se abriam mais e mais.

— Não é preciso fazer isso, meu rapaz: sua história é não só verossímil como verdadeira. Agora eu, como sou um pobre professor — remexeu nos bolsos; surgiu o verde de um real — tenho muito pouco a lhe oferecer.

Então o homem voltou-se para nós, a classe, repetindo o gesto: escancarou a boca marrom, onde luziam dentes fortes — e nenhuma, nenhuma língua. Talvez um toquinho, lá no fundo; não dava para ver direito.

Por essa eu não esperava. Nem eu, nem a classe. Caiu um silêncio rochoso. O espanto. Chegáramos ali para um aula de literatura e fez-se este espetáculo de noite, noite escura na boca muda de um homem que nos pedia esmola. Mas, em vez de me solidarizar aos sustos dos colegas, acelerava o crescimento do meu próprio. Era como se um chão se abrisse, ou um teto, e senti coceira no cérebro, queria unhar de meus miolos alguma luz. Isso era muito mais estranho que dois ociosos a brincar de Sócrates em volta de um frango assado. Não havia ali nenhuma amenidade, nem sinal de complacência, amizade ou sentido — havia um homem que abria a mão, e ela estava lisa branca; abria a boca, e nela não se agitava uma língua, há muitos anos —: era o vazio, o vazio.

Mas também era ridículo. Na faculdade de Letras ingressa um homem sem língua! Imagino o estranho vestibular por que deve ter passado. Fora sua língua cortada em duas fases? Qual teria sido sua nota de corte? Mistérios. E a etapa de ‘bicho’? Quem sabe aí aprendera o ofício de esmolar. A cara toda pintada, o cabelo rapado, pedindo aos motoristas, nos sinais, um dinheiro para repassar aos ‘calouros’. Vencida a concorrência com os mendigos, paralíticos e crianças de rua locais, a brincadeira acabou ficando mais interessante que assistir às aulas e ele ia, de classe em classe, rodando o chapéu, digo, o bilhete e sua historinha edificante.

De outro lado, minhas mãos continuavam a arrancar talos e mais talos de neurônios na tentativa de preencher aquele oco: como é que alguém arranca a língua de outro alguém, assim sem mais nem menos? “Meu tio estava bêbado.” Não, isso não era desculpa, nunca suficiente razão. O que teria aquele homem dito ao tio para perder a língua? Aquilo era o Verbo castrado feito luz, e era luz. E eu vi que não era bom. Pois que pecado indizível seria pago por uma língua de sete anos? O homem ainda justificava o ato pela bebedeira do tio. A coisa me deu um ódio tão grande que quase turvou a suspeita de uma farsa: o homem poderia já ter nascido assim, e como tantos, fazer do aleijão seu ganha-pão… O vazio que alimenta o vazio.

Humanitismo nenhum explicaria o fato. Ninguém fica sem a língua impunemente. Se — pela lei das compensações da qual se dispõe Humanitas, o princípio gerador — a quem se tirasse uma língua correspondesse outro que a tem, qual seria a minha posição nessa luta? Sorte a minha, a de não ter entre os irmãos de meus pais um alcoólatra portador de facas. E um bêbado, de olhar tropicante, de mãos trêmulas, desprovido de centro de gravidade, pode cortar a língua de uma criança assim, tão fácil? Deveria ter havido alguma luta. Qual o motivo? O sobrinho mostrara a língua desaforadamente ao tio?

O homem mostrava a sua não-língua para mim, e eu tinha vontade de arrancá-lo da frente do meu professor, da minha aula subitamente atravessada por esta barbárie, fina flor cortada com a navalha suja que entrara pela porta dos fundos da minha Universidade, para onde fora tranqüilo estudar a inculta e bela língua Portuguesa. Como uma faca pode abrir um corte mais fundo que um Machado? Com que direito esse fulano invadia a minha vida tão suavemente organizada em notas de aula? Deve existir alguma lei que proíba pessoas sem-língua de interromperem o estudo de pessoas com-língua educadamente assentadas, suas línguas quietinhas dentro da boca a espiar a do professor agitar-se com desenvoltura e graça.

E, mais ainda: “uma ajuda pra comprar um barco”? Muito bonito, um sujeito sem língua pescando por aí, mudez desfilada entre peixes e águas silenciosas! Poético, mas — que eu faria com meu nojo? Pois o homem estatuado à frente era uma mosca no meu consommé, era tudo o que eu não queria ver naquela sexta-feira — dissera já, dia aziago.

Urgia resolver a situação, dar ao menino do semáforo o trocado para que ele não riscasse a pintura do nosso carro. Sem culpas. Uma vez que estou pagando, tenho ao menos o direito de saber tudo tintim tintim, não é? Ou, simplesmente, desembolsar o dinheiro: mais prático. Por falar em praticidade, esse negócio de esmola deveria ser mais higiênico, quem sabe com hora marcada, ou, melhor: uma conta que se paga no banco, se possível por débito automático — aí, só nos daríamos conta ao tirar o extrato no caixa eletrônico. Se fosse assim, quem sabe o sem-língua aqui já estivesse com seu barco e nem me interrompesse a aula tão interessante, não é mesmo? Quem sabe nunca o teria visto, e ao vazio em sua boca. O vazio. O vazio.

Entreguei ao homem uma nota de um real, como a do professor. Nossa única mediação possível. Não, não serei metafísico sugerindo que aquele homem poderia ser eu, em outra dimensão do tempo: fora de dúvida. Imagine se iria acontecer a mim uma coisa dessas. Metafísica é bom para o Pessoa. Eu consumo chocolates. O homem queria um barco. Pescava então esmolas a esmo, esbarrando nas cadeiras. Alguns colegas não davam; muitos, por falta de dinheiro; outros, por falta do que se convenciona “compaixão”; os demais quem sabe não acreditassem que esmola desse certo. Por que investir dinheiro a fundo tão perdido? Uma esmola só não resolverá. Quanto a mim, sei lá porque lhe dei o dinheiro. Talvez porque tivesse gostado da exibição. Ou tenha apreciado a poesia na idéia do barco. Talvez medo de parecer desumano; afinal o mestre deu o exemplo, cumpre segui-lo. Pode servir num bom conceito, mais tarde. Com certeza, pago a língua.

O homem se encaminhou à porta. Parou, me olhou, e fez com o polegar um gesto de positivo. Me peguei sem querer o imitando; mas logo recolhi o dedo, envergonhado. O homem sorriu. Ao vencedor, as esmolas. Um reconhecimento. É. Ele venceu.

Mas não.

Valentim pigarreou:

— Bem, voltemos ao nosso infeliz Brás Cubas…

E o simpático mestre, coçando de leve a testa, começou a discorrer sobre como, à luz do Humanitismo, a inveja pode ser uma virtude. Em parte, concordo: não deixei de sentir uma estranha inveja pela não-língua do homem. Estranho. Só não conseguia refazer o círculo vicioso e chegar ao virtuoso da questão. Enfim: isso passaria. Um Machado podia ser mais eficaz que uma faca, depois disso? Os alunos retornavam sua atenção ao mestre, depois dos cinco minutos de silêncio absoluto. E algo se remexia, dentro. Um silêncio de guelras em madrugada, prestes a ser capturadas por uma quieta rede. Não sei, não sabia. Ah, foi só um susto. Porém, essa sensação de vazio. Mas não, foi só um susto. Voltamos à aula. Não aconteceu nada.

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Inverno, 1996.

Written by rbressane

fevereiro 23, 2008 at 4:08 pm

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