Os infernos possíveis

contos de Ronaldo Bressane

Weboi

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Ó solidão de boi no campo!
[Drummond]

Tem boi no pasto. No pasto tem boi. Boi tem no pasto. Tem no pasto boi. Boi no pasto tem. Dia após dia, meses após meses, passados quase dois anos, o enigma não saía da cabeça: variava pra achar sentido naquelas palavras que se tão fundo fixaram na mente a ponto de temer esbarrar nelas, gigantescas, pelo corredor que ia do quarto à cozinha. Essa a frase: famous last words da velha, seu testamento lingüístico, lavrado em caixa alta no pseudoleito de morte. Camila esforçava-se por fixar o que afinal quis comunicar a vó, naquele tão imenso momento. Tem boi no pasto.

Mas, antes disso: aproxime-se, querida. Sim, vó. Preste atenção, minha neta. Tem boi no pasto. E aí, o cursor mudo. Silêncio de silício: sim, porque a vó morrera-lhe via internet. Até aquele chatting nonsense surgir em sua tela, havia anos não se noticiavam; desavenças de família criaram distâncias – coisas de que nem se lembrava mais, desafetos e segredos engasgados. E a ironia: vizinhas de bairro, sequer na padaria jamais se esbarraram, na hora fatídica do leite B matinal. Da vó, Camila sabia por conhecidos que saía de casa, dava seus passeios de totó cagar. Depois ouviu que o bicho de estimação morrera atropelado – mas a vó seguia zanzando pelas esquinas arrastando uma coleira. Tempos atrás, quando ainda dirigia, vez em quando via uma velhinha atravessando a avenida e a culpa lhe tremia as mãos no volante – mas não era ela, a vó Sabrina: era sempre uma vó de outro alguém, de outro ninguém. Sabia também que a vó era vista rondando as ruas do bairro soltando em voz alta discursos ininteligíveis sobre estética, filosofia e política, e que também às vezes gritava que a Interpol estava em seus tornozelos. Por causa da vó, de erradia foi se enfiando numa pessoa arredia – cortara festas, locadora e visitas, e até mesmo leite de manhã – o supermercado lhe mandava um boy com caixas de leite longa-vida. Longa vida, arte breve. Estava certa de que viveria muito. E mais certa além de que a vó não falharia nunca, feito sequóia. Não queria cruzar com ela, e também não queria acusar-se desse pânico total absurdo. Entranhada, estranharam.

Mas os outros? Pro inferno.

O telefone teimava em tocar, e um amigo vinha no calo – engraçado, Camila, outro dia fui no Fran’s da Fradique e vi uma senhora super bonita, velha mas linda, de cabelos compridos brancos, e ela falava sozinha, sempre sorrindo, assuntos intelectuais, mas totalmente nonsense, falava muito alto, tomando um chá, as pessoas iam embora, sem graça, acho que ela deve morar na rua… mas por que eu tou falando isso? ah, é que aí eu lembrei de você, alguma coisa nela me fazia lembrar seu rosto… Comprou uma secretária eletrônica, vendeu o carro, passou a trabalhar só em casa: historiadora, tudo se dispunha via web, mandava seus textos pela rede e o pagamento era creditado diretamente na conta bancária, movimentada à distância – água, luz, telefone, condomínio, provedor, tudo. Felizmente, boa no seu fazer, nunca faltavam pedidos de trabalhos: de certa forma, sua reclusão até lhe perfumava de charme, os jornais e as revistas a requisitavam ainda mais. Quantos anos tinha? A idade abolira: convicta de nunca passar desta pra pior, Camila continuava sempre a mesma – e a outra que tomara seu lugar: Camila, por que você nunca me telefona? Camila, por que não vamos ao cinema? Camila, por que você não atende ao interfone? Camila, por que você me abandonou assim sem mais nem menos?

Não conseguia mais falar com os amigos – um tédio total: qualquer papo era déjà-vu. Comia pizzas. Comia comida chinesa. Um desespero foi quando o maldito PC deu pau, teve de chamar a assistência técnica; apareceu um sujeito de azul, a senhora mora aqui sozinha? Mastigando voraz o chiclete – medo de bafo, comprava caixas e caixas –, tremeu: meu marido tá trabalhando. Marido? Uma vez pensara em casar – juntar os trapos com o tal cara, mudar de aparamento, e talvez, um filho. Ah – onde tinha parado essa idéia? Vocês nessa casa gostam mesmo de pizza, hein? As caixas de delivery espalhadas por todo canto, até no banheiro tinha. Tomou banho hoje? Ontem? Que data era aquela mesmo? Terminara um texto sobre a Revolução Industrial contudo o nome do cara que um dia visitara suas noites não lhe convinha à cabeça. Assina a nota? O sujeito lambia de olhos suas pernas, subia pelas coxas até encontrar, por trás do peignoir, a calcinha manhada de sangue – precisava comprar absorventes. Mesmo? Obrigado, jogou o técnico com nojo, junto com a nota fiscal. Tem boi no pasto.

Tem boi no pasto.

Na verdade só havia realizado a morte da vó por um telegrama frio de sua mãe. Na cabeça a charada, telefonara: ela foi encontrada no cybercafé de uma livraria, em cima do computador, agarrada no mouse, que até quebrou, o gerente ainda quis me cobrar porque ela tinha derrubado chá no teclado e quem é que paga a conta? a trouxa aqui, sempre, mas foi o que tinha que ser, coitada, ataque cardíaco, muito velha e cabeçuda, não tomava remédio nem se cuidava, o que é que se vai fazer, você não precisa vir no enterro se não quiser, mas eu queria muito te ver, você precisa ver sua mãe – e dá-lhe soluços, a velha lenga-lenga xaroposa de sempre; preferira desligar a perguntar sobre o enigmático enunciado. Então aquilo tinha sido mesmo a derradeira tolice sem sentido de sua vó. Mas por que justo com ela, Camila? Nunca nem sonhara que vó Sabrina entendesse de computador – e agora tinha que imaginar a velha estertorando no mouse como quem se apega à última tábua, ao rosário infinito, à mão confortante. Tem boi no pasto! Cada um ganha o Rosebud que merece. Segura essa: mais uma sacanagem da louca filha da puta. Eu aqui, bem. Na minha. E isso.

Precisava achar. Precisava cortar as asas daquela esfinge. Tem boi no pasto. Sobre a teia de bois deslizou: investiu-se do espírito de Champollion, inverteu, trocou, anagramatizou, contou as palavras, os caracteres, deu a cada letra um número, somou, subtraiu, dividiu, e multiplicou o nada. Procurou homepages sobre pecuária, sobre a psicanálise dos sonhos com animais, visitou sites de artes plásticas cujas palavras-chave estivessem no âmbito do bovino, leu poemas árcades, viu pinturas ruprestes em velhos livros, pesquisou o ciclo do gado do Brasil, acessou CDs que cantavam antiquados rocks rurais, música sertaneja, caipira e country. E, se do avesso não vinha, nem pelo interno: recorrer à própria árvore genealógica foi uma coisa logo descartada porque não queria conversar com a mãe, e, além do mais, memória é um troço que dá uma puta dor de cabeça e em casa não existia aspirina. Como a vó, horrorizava remédios e médicos. Que mais semelhanças haveria? Quem era Sabrina? Não era vovó de carochinhas, amante de lobo mau, velha sábia, cozinheira esmerada, matriarca extremada de amores, nem mesmo cavaleira de vassoura. Era o centro de um donut. Era uma impressora sem tinta. Era uma janela fechada com cadeado cuja senha esquecera. Tem boi no pasto, tem boi no pasto, tem boi no pasto: Camila ainda quis acreditar ser só uma piada, sem rima no real. Uma grande piada, de humor negro, de mau gosto, essa assombração. Não, não devia morder essa isca: não queria significar nada.

Abriu outro pacote de chicletes, enfiou logo três na boca – mordeu, mastigou, fez bola, a bola estourou grudando na cara toda. Tentou rir da vó, tentou esquecê-la enquanto, por exemplo, jogava paciência no PC pela 524ª vez seguida. Mas sempre acabava voltando um passo para trás deste penhasco: e caiu.
O mouse que a avó agarrara na morte era ela mesma – estaria até o fim presa nessa armadilha. Entanto, desesperar jamais. Lucidez, esse o seu predileto vinho; e cada menos que ela rejuvenescia, sua crença crescia, geométrica, bissetriz. Tudo o que não queria era ser como ela. A velha doida assustadora, faminta por vexames. Camila não. Sua paciência, seu inteligível e sua vigília careciam de fronteira. Pouco a pouco, enfim compenetrada e detida, foi dispensando pedidos de textos, de biografias, de artigos, de consultorias. E a inacessível grande historiadora ia lentamente sendo inacessada; o que nem discutiu, nem redargüiu, nem reclamou. Agora que agora é nada, só importava o mistério maior. Em busca do sentido perdido, desencanou.

A catástrofe caiu de noite, entretanto, sem telegrama dessa vez, em setenta punhais: um blecaute por toda a cidade. À sua frente, o computador ficou cego, a secretária eletrônica calou, a TV fugiu ao controle, o microondas esfriou, a luz velou. Logo veio um medo – aquele pânico quando andava de carro pela cidade temendo ver velhinhas de cabelos longos e brancos atravessando a rua. Soluçando, Camila atirou-se no fofo carpete da sala, escondendo o rosto no chão – tapou as orelhas para não escutar a cantilena: tem boi no pasto, no pasto tem boi, boi tem no pasto, tem no pasto boi, boi no pasto tem – e daí, insidioso e fofo, veio um silêncio; primeiro de fora, depois, de dentro. Um silêncio bom, delicioso, de travesseiro fresco e novo, uma dobra do tecido sugado pelos dentes. E ela começou a gostar, lá no fundo das caraminholas – uma liberdade. Assim sim, desse jeito, tranqüila, total, teria mais tempo. Todo o tempo do mundo. Ou o que quer que tivesse esse nome de mundo demarcado numa coisa, numa substância, num corpo. Porque, daqui pra frente, para ela só haveria na face da Terra um imenso e longínquo pasto, liso como uma pele, e nele, um tranqüilo boi ruminando sem parar sua consciência. Sua consciência de boi. Ela seria um boi. Solitário e bom, desgarrado num campo perene possuído por todas cores do verde, essencial, mascando capim-gordura de bem leve, com pesaroso amor, vagado, mas de tão sozinho cheio, que abriria asas. Nas quatro patas sólido, continuado presente, comendo e dormindo e sonhando e cagando e andando verde, parado, penso no tempo, feliz, simples, pensando pensamentos de boi – de boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa criança que tem medo de careta.

De vez em quando, espantava uma mosca com a cauda.

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Inverno, 1997.

Escrito por faker

Fevereiro 23, 2008 às 4:17 pm

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