Os infernos possíveis

contos de Ronaldo Bressane

Universidade

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Meu nome é Cleudival, precisamente por ser filho de Cleuda e Edival; este, filho de Edileuza e Válter, que são, por suas vezes, nascidos de Edílson e Neuza e Tereza e Valdir, que teria tido como pais Dirce e Valdomiro, o qual, lendejam, fora integrante do bando de Lampião. Sou, da cabeça aos pés, nordestino; portanto um ordinário de primeira nesta cidade de São Paulo, aquele santo que abriu os olhos quando Deus cegou-os. Semelhante a seu trajeto é este meu trabalho: contar aqui um trecho de minha história, a dos últimos dias, pra que no meu íntimo ela se apague definitivamente. Se fosse católico, se acreditasse em Deus, diria que se trata de uma confissão, seguida de expurgo e perdão através da hóstia e do vinho. Meu problema é de outra ordem: não pequei, e ainda assim sinto culpa; meu nome é limpo na praça – talvez seja a praça, suja.

Começo lembrando-me da dor em meu braço esquerdo, por ter dormido em cima dele, mal-ajeitado num pequeno divã no quarto de hospital em que minha mãe se encontra. O braço formigando, o quarto tomado de claridade ensurdecedora, ruídos eletrônicos como pirilampos cegos, coloco meus óculos e olho para minha mãe que se afunila entre lençóis enormes e tubos e dutos e cateteres e aparelhos.

Parece dormir: nunca sei quando inconsciente, em coma, desmaiada ou prestes a despertar – são muitos os humores dos que têm os olhos abertos para o outro lado. Entra uma enfermeira, a qual, logo após cumprimentar-me com um leve gesto de cabeça, prepara cuidadosamente uma injeção e aplica-a no campo já tão minado por agulhas quebradas e pontos pretos que é o braço da mãe. Ela nem se mexe. Calço os sapatos, espio o relógio: atrasado. Pego cuidoso minha maleta e saio, sem olhar para atrás, para a manhã que se ensolara como um grito.

Zarpo desembestado até a USP: pela Marginal Pinheiros, de dentro de meu carrinho, presente materno, buzino, xingo, cuspo, bato no painel; sou um vaqueiro indomável, mais rápido e ágil que qualquer um. Pequeno, franzino, baixo, de finas carnes e ossos, ao volante me agiganto, meto meu veículo onde couber, e escapo do trânsito. Sim, sei dessas compensações materialistas: sei demais de mim para mentir. Mas sou cúmplice em várias omissões. Como a em que contribuirei, na aula próxima do professor Alfredo Bosi. Tratam-se de alguns ensaios de final de semestre, que fiz para ajudar uns amigos do segundo ano de Letras: um soneto de Bandeira, uma glosa de Gregório, um estrambote de Drummond – cada poema um texto de dez páginas de análise interpretativa, cada texto um amigo que escapa da recuperação. Querem me pagar por isso; não deixo. Às vezes me pergunto onde é que termina a generosidade e onde começa a soberba. Disfarço bem; sofro melhor ainda.

Dissimuladamente, distribuo os trabalhos a meus colegas, que parecem bastante aliviados por minha presença; a aula finda, sou uma ilha cercada de tapinhas nas costas por todos os lados, massa de sorrisos que me constrangem, me envaidecem e me enojam. Um, mais solícito, pergunta pela saúde de Dona Cleuda.

– O câncer entrou em metástase – respondo, grave e um pouco envergonhado por uma aparente fraqueza. Tento um sorriso: – é a carne, meu amigo, é tão-somente a carne…

Ele me olha sem entender: é mais um estranho, e, para nosso mútuo bem, me distancio, numa vaga careta. Desço as escadas até ali onde o mato é mais alto, e chamo: – Teobaldo! Ô menino, onde é que se meteu? Venha cá, vou-lhe fazer uma surpresa, bichinho! – E do meio de umas flores amarelas vem correndo um gato miúdo, malhadiço, a quem dei este nome; tiro da maleta um pacote com sobras de comida que colhi na lanchonete do hospital, arroz com batatas murchas. Ele mia, e começa a comer. E de repente Teobaldo não é mais o único: proliferam-se vários clones dele, um mais feio e sujo que o outro, embora às vezes apareça um siamês ou um angorá que ninguém mais quer ter em casa e larga por aí, pelo campus – a universidade está infestada desses esfaimados indesejados.

Largo-os com a comida, e saio para uma volta, sozinho, estranho entre meus colegas. Sim, porque vindo de onde vim, expulso do Nordeste – que nunca foi o Éden – e dando cabeçada em tudo quanto é esquina desta cidade, jamais posso me esquecer disso, a condição de estrangeiro, que não creio com ressentimento, mas, aliás, muito natural. Irreal é o fato de minha estranheza ter corroído até o âmago minha própria família, até meu próprio ser. Lembro-me subitamente de minha mãe horizontalizada e me arrepio ante a natureza do que virá.

– Quantas vezes já me debati entre a noção do que é certo e o que é errado, até chegar à conclusão de que somente existem possibilidades, realidades, ilusões – é o que tento explicar a Hermes, um de meus melhores amigos, senão o único, na USP aluno de Italiano. Ele acaba de me relatar um sonho que teve, em que mordia furiosamente o braço da irmã, Lisle. Sansei, magro, broche do PSTU na camiseta rasgada, quase um adolescente, Hermes sorri amarelo enquanto desajeitado limpa o óculos na camisa de flanela e ouve-me dizer que, para além do simbolismo óbvio, não sei interpretar este sonho, no que ele teria de mais profundamente revelador. Freud não é tudo na vida, e Lisle é muito bonita – e devo encontrá-la mais tarde. Hermes espia em volta, procurando pelas estantes um livro qualquer – estamos na Edusp, livraria em que trabalho, como vendedor, no horário entre as aulas matutinas e as noturnas – e me fala que Lisle o procurou com dificuldades sobre um livro do Arrigucci, e ele não soube conversar com ela pois o sonho ainda estava presente em suas retinas. Não sei o que dizer, pois ontem combinara com Lisle um encontro, em segredo, como me pedira. Hermes confia plenamente em mim, e eu temo traí-lo, ou pelo menos que venha a saber. Mas o que não poderia saber? E o que seria uma traição, segundo minha ética particular?

Sou de todos e não sou de ninguém – é em que acredito. Assim, passa por mim a vida, em seus inúmeros enganos e diminutos prazeres, e me espraio em uns poucos minutos, me distraindo do resto; e me dou todo, negando-me qualquer redenção que disto advenha. É desta maneira, pois, que me sinto ao chegar, muito humilde, até a secretaria do Crusp, o conjunto residencial dentro do campus:

– Cleudival da Silva, baiano, 26 anos, residente à rua Dezesseis de Novembro, número 66, estudante de Letras, curso de Russo, trabalho na Edusp, venho solicitar uma vaga num apartamento, por não dispor de condições de me deslocar de onde moro até aqui, todos os dias. Não, não tenho condução própria. Tenho três irmãs; a mais velha, de 23 anos, tem seis filhos. Meu pai, Edival da Silva, morreu, eu tinha seis anos. Conosco mora o padrasto, de sessenta anos, inválido. Minha mãe?

Respondia sem pestanejar às perguntas da senhora da secretaria, mentindo aqui, ali simplesmente falando a verdade – a infância difícil, a morte do pai, a miséria, a fome, a força da minha mãe. Tudo verdade, tudo doído, minha cara é testemunho. No entanto eu precisava de um quarto meu, necessidade física mesmo, e não podia falar do automóvel, e as supostas irmãs desempregadas sobrevivendo às custas de meu pequeno salário na livraria eram ótimos fatores. A minha mãe? Olhava de baixo, mais de baixo que eu já sou, mexendo insistentemente nos óculos redondos, olhava de lado, tímido voltando as mãos suadas ao bolso; e dos documentos que não tenho, ela me responde com um “tudo bem”: está comovida, sim, com minha penosa situação, é uma alma boa, ganho-a aos poucos, como quando interrompo a descrição de minha errança pelo sertão do Nordeste para indagá-la do braço, que está enfaixado e imobilizado – não é nada, responde, só uma luxação, sabe como é, velhos; sorri, e faço que tento sorrir, não conseguindo pela terrível timidez que aparento ou pelo mero complexo de inferioridade; muito simpática, a senhora, falo, me lembra a minha mãe. Sim? Sua mãe? E o que faz sua mãe?

– A minha mãe – e levo a mão ao óculos, amasso nervoso as sobrancelhas, fingindo conter um choro que quer vir; é um truque melhor que meramente chorar: a lágrima tem de sair rápida, e ser enxugada mais rápido ainda, e a voz embargar e desembargar numa questão de segundos. – Mãinha é falecida.

E passo mais alguns minutos falando da grandeza extraordinária dessa mulher, de como fugiu da seca com os filhos sem conhecer absolutamente ninguém, nem parente nem amigo, e conseguiu erguer-se sozinha, com a força de suas mãos costurando, lavando, passando, cozinhando, sol a sol segunda a segunda, tendo como única companhia a voz jovial de Silvio Santos – nesse ponto a senhora pôs-se a soltar lágrimas silenciosas – e muito depois dos filhos estudados, o mais velho entrando na faculdade, é que se deu ao luxo de casar-se novamente, só para ter uma companhia, uma de verdade, mesmo assim maldizia-se por ter feito a escolha errada, pois o padrasto, embora boa pessoa, era um alcóolatra irrecuperável, coisa que a entristecia e a fez ficar doente, nosso dinheirinho guardado perdendo-se no abismo das contas da farmácia, e aí, há dois dias, em casa, sem mais nenhum alento, o fim; após, somente o enterro, num cemitério pobre, numa cova rasa, sem número.

– Vá, meu filho – a senhora gaguejava, assoando o nariz, limpando os óculos, o rosto vermelho, a boca úmida – vá, que eu vou ver o que posso fazer por você. Tem muita gente na fila de espera, você sabe, e nenhuma vaga em vista; mas vou tentar te ajudar. Não, não precisa mesmo de nenhum documento, filho…

– Obrigado, senhora, muito obrigado – ganhei, ganhei a mulher, é o que penso; estou todo suado – muito obrigado pela sua atenção, amanhã passarei aqui, para saber a resposta. – Vou saindo cabisbaixo, mirradinho; a noite cai sobre o campus, belíssima em sua lua cheia azulando os enormes espaços verdes vazios da universidade, e se coalhando em uma pequena multidão de manchas esvoaçantes – são os gatos, que saem para o escuro, seu território pleno, atrás de restos de comida.

Entro no estacionamento e discretamente escapo de lá em meu Uno, na direção do edifício da faculdade de Letras, os faróis do carro acendendo mil olhos detrás dos arbustos, das árvores, dos matos altos. Mil olhos me olham.

Lisle, irmã mais velha de Hermes, me espera lindissimamente num vestido florido, sorriso simples no rosto sereno, livro do Arrigucci sob o braço. Convido-a para entrar no meu carro; finjo que estou procurando uma vaga para estacionar e paro num lugar um pouco mais reservado. Ao seu lado, sinto-me tenso.

– Seu irmão me disse das suas dúvidas desse livro – inicio, pouco à vontade – mas acho que não era disso que você queria me falar, não é, menina?

– O Hermes… – ela desvia o olhar pra fora, translúcidos olhos a refletir-se em flutuantes olhos de gato. Suas pernas se escondem sob o vestido somente a partir do joelho, ficando descobertos os braços limpos, suaves, e o peito magro, chato, de pele acobreada, macia, parecendo ter cheiro de sol. – O meu irmão anda um pouco estranho comigo… ele tem me evitado, sabe? Nós sempre fomos tão próximos, e agora… Eu fui pedir ajuda pra ele, ele disse que não sabia… Foi brusco, e me mandou falar com você…

– Olhe, Li – era seu apelido, não intimidade – eu não disse a ele que a gente tinha combinado de se ver…

Ela olhou rápido, profunda, nos meus olhos, e soltou:

– É bom, é melhor. Eu não sei por que ele está assim, é tão estranho, não sei explicar… – e pôs a mão no queixo.

Ficou um silêncio besta, de braços cruzados eu, ela de joelhos morenos. Lembro de ter desviado pra uma preocupação fora de hora – não sabia se meu padrasto estava com mãinha, a essa hora, no hospital, ou se sairia, antes que eu voltasse, atrás de bebida. Ocorre-me uma idéia, uma idéia meio maluca:

– Li, você sabe que eu quero muito bem ao seu irmão, não sabe? É feito um irmão mais novo, pra mim. Eu acho que ele anda tenso, por causa das reuniões do partido, só isso. O Hermes tem grande valor, Li – e ela assentiu, abrindo os olhos rasgados – um enorme talento, e eu velo muito por ele, você pode ficar descansada, sim? Que ele é muito importante pra mim. Olhe, Li, guarda um segredo?

– Claro.

– Jura?

– Juro, por quê?

– Eu fiz um poema pra o Hermes – na verdade, tinha escrito o tal poema era pra Lisle; mas tinha de arriscar neste palpite – um poema, que eu tenho um pouco de pudor de mostrar a ele, não sei como iria receber… Posso ler pra você?

– Nossa, claro, quero ver.

Limpo a garganta, olho para a lua, imposto a voz e vou:

– O título é “Esse rapaz”. – Mas havia um outro, que não disse: era “Não matarás”.

Ainda não há erro do qual eu não seja capaz,
nem sentimento do qual não me veja capataz.

Em meu sangue nenhum pássaro jaz.

Mas em mim persiste a dúvida voraz:
quando virás, o quanto abraçarás.

Ela fica me observando daquele jeito veloz e fundo como balas, ora olhando pra fora ora dentro dos meus olhos; meu coração bate depressa.

– Lê de novo?

Eu leio, aquele poema ruim, agora o vejo, naquela dicção retórica, cheio de rimas abertamente fáceis, mas que meu acento se encarrega de preencher de subjetividades misteriosas. É um poema meu, mas um poema mau, pois não sou eu, ou então, não de todo.

– É lindo – Lisle sussurra, com o rosto bem próximo – eu havia me achegado a ela enquanto lia, bem devagar. E olho, sério, nos seus olhos castanhos, pensando ser o momento certo: aí – suspensão – a beijo.

Uma boca morna, de lábios um pouco duros e resistentes, que eu procuro vencer inteira, por vias tortas: estranho amor este, onde estou fora do verdadeiro lugar, sou uma projeção, uma proteção, mas de quê, se de mim pra ela, ou entre os irmãos, ou uma fuga de tudo que se passa comigo, ou um instante de soberba, orgulho macho; tudo é, e mais, é só um beijo, mas não amor: eu respiro descompassado, acerco-a com meu corpo, meu humilde e úmido corpo pequeno e minha trêmula excitação; minhas mãos vão deslizar de seus ombros redondos, macios, que aperto, e aperto – ela se afasta:

– Não, não, por favor – esconde o rosto. – Desculpa, tá? – Me olha. Olha pra fora. – Acho melhor ir. Depois – abre a porta – depois, a gente conversa.

Onde é que tinha errado? Ah, estrangeiro, estrangeiro sempre. Mas era só um beijo. Saio do carro, vou para a aula de Latim, a que não assisto direito, perdido em estratosferas de raciocínios e temores. Tapetum lucidus. Diz a professora que este é o nome da camada vítrea nos olhos dos gatos, que, em vez de absorver, reflete a luminosidade: tapete de luz. Feio, feio, muito feio eu. A ilusão de ser um intelectual poderoso e cosmopolita se dissolve nas lembranças terríveis sempre vindo. Saio da classe, aqui fora o silêncio. Vejo-me nu, queimado, castigado, lascado ante o sol que não me alimenta, mas que me come de todos os lados, bicho carunchento na garganta, mosca varejeira invadindo a boca, o nariz, chifre de boi e galhos rústicos ralando as pernas. Os gatos miam alto: o que querem? Olhos de luz e miados escuros. A mão na mão da mãe, a mãe no alto sem olhar pra mim, olhando a lonjura do que vem, mas não vinha, não vinha nunca, não veio. E tudo o que faço é pensar no conteúdo da maleta, e então é como se minha mãe puxasse de dentro uma fresca força e com seu braço bom me botasse em seu colo. Chega. Tenho de voltar pra o hospital.

Mesmo à noite, o hospital é um organismo vivo, bicho de mil patas e cabeças e caudas, crivado de salas graves em que pessoas debatem-se por descobrir se venderão o apartamento ou as jóias para pagar o tratamento médico daquele que está internado: corredores densos de rancores frios confortavelmente limpos, de asseadas arestas. Embora minha mãe tivesse conseguido pagar um convênio, com suas economias de costureira, também nós deveremos arcar com tratamentos intensivos e remédios importados: a casinha onde vivíamos e meu carro foram postos à venda, e talvez não bastem. Por isso é que aqui quase ninguém sorri. Mesmo assim, por dentro eu trago um sol – seria aquele que orbitava a cabeça de minha mãe, no dentro do sertão?

Padrinho – é como chamo meu padrasto – foi-se mesmo. Diz sempre não agüentar essa situação, já há alguns meses; um disparate, ele fala – costuma voltar pra casa lá pelas dez, cansado e frouxo de velar minha mãe durante o dia, quando não estou. Um homem que cada vez mais é menos pra mim. Entro no quarto. Estado inalterável: dona Cleuda continua ausente, feito um feto de mandacaru, avançando emusguecenta sobre os aparelhos, cacto chupado. A enfermeira entra, me sorri, uma injeção aplica-lhe. Preparo-me para a longa noite: descalço os sapatos, pego de um livro à cabeceira, deixo a maleta ao lado da cama – observo-a pressuroso – acendo a luminária. Sai a mulher de branco. A sós, eu e minha mãe no coração do silêncio. Eu olho seus olhos dentro das pálpebras. E sinto nojo.

O que acontece nessa noite nunca vou saber direito: como esses sonhos em que temos a nítida sensação de cair, e caímos de verdade da cama. Tentava o sono, mas me tentava mais a imaginação o som de miados lá fora– poderia ser, até aqui, o ronronado dos gatos da USP? Uivos felinos no cio, parecendo crianças com a fome na garganta engasgada, me estremecendo as carnes como chicotes raivosos. Eu tentava o sono, fechava os olhos no frio quarto, enfezava-me. Vinham os miados, e daí, devagar, iam os mios miando, surdinos, doídos. As pálpebras, duas tumbas. Para daí os olhos de dentro, cada vez mais. Numa estrada sem fim. Fugir, fugir. Nunca mais voltar. Mas volta e meia tinha a cara de minha mãe grande junto à minha, rude e rala, rasgada terra sertaneja, ensolarada e desolada.

Eu retornava, em silêncio e com fome; dores pelos ossos, pelos nervos, pelas veias. Entrava em outro país, sem passaporte, distinção, idioma, sobrenome. Meu nome e o nome dela, Cleudival e Cleuda: coisas contíguas, em letras que numa barafunda de movimentos suaves duplica-se uma injeção carinhosa envolvendo meus miolos quentes e doidos. Agulhas furando o chão rachado, furos esguichando leite e pus. Luz que me vela os olhos, por todo o ar a luz que me aperreia, me desabita: urubus comendo-me os contornos, a estrada se indo embora, eu junto. Atrás. E os santinhos que ela levava, e o terço que rezava, e meu nojo pelo Salvador e o painho que não existia, o expulsador, o sol, só sobrando a terra nua e crua, relento dentro e fora. O medo enganando a fome, a fome esganando a raiva – raiva de seus santinhos. Nos atalhos por onde Judas perdeu as botas, os pés doendo, a mão na mão da mãe, suava, ardia; ela rezava, resolutamente certificada da vinda do Messias, o braço reto apontando o caminho da frente: o beijo por trinta dinheiros, não queira você meu filho dar nunca em ninguém. E me beijava a testa, em ensinamentos – eu tremia, convulso me rolando em mim. A estrada uma enorme língua sem boca. O calor do sol feito felinas línguas de lixa subindo pelas minhas pernas – o mundo era todo cheio de bocas. O beijo em Lisle, o beijo de Lisle em Hermes, a boca de Hermes na minha boca. Crispação. Lábios fechados da mãe em Cristo, por Cristo, para Cristo. E daí a chegada de um homem, um outro homem em casa, companhia para a igreja no domingo. Torvelinhos: minha bíblia rasgada que ela descobriu. Meus olhos que ela descobriu. Meu lençol que ela descobriu.

Estava descoberto.

Abro os olhos: a enfermeira me balançava o ombro; empurro a coberta, sento. Minha mãe tinha morrido.

Afinal.

Segue-se uma confusão de atestados, protocolos, cheques cautelares, documentação incompleta, preços imprecisos, brigas com os maiorais do seguro-saúde, procuras por coisas nunca antes sabidas: padre, caixão, velório, flor, cemitério, cova, pedreiro, coveiro, letreiro, dinheiro que não se tem na hora incerta. As economias nossas, diminuindo, sumindo. Meu padrinho e eu gastamos o resto da madrugada e a manhã toda atrás disso. Passada entre quatro paredes de madeira, dona Cleuda é um nadinha, um recém-nascido ao avesso. A pior parte é levá-la ao crematório: não há papel com ordem expressa sua para que seja feita sua vontade, que ela me declarara, e quase acabamos aceitando fazer o enterro simples. Mas, à semelhança da cena no Crusp, consigo a tal documentação, e é dispensado o restante. E minha mãe – ou seu corpo, que sua alma não pode haver, é em que acredito – pode ter satisfeito seu desejo. Morria de medo de despedaçar dentro do caixão, braço na boca de um verme, pé espojado na de outro, cabeça comida, cortada, feito a dos cangaceiros esquartejados pelos macacos do exército. Lá se vão lambendo as chamas pelo caixãozinho orgulhoso: meu padrasto chorava sem parar, mãos unidas no terço. Meu padrasto e eu, homens desvinculados. Preciso pensar no que fazer a casa, com o carro, com o dinheiro que estávamos devendo – remédios, médicos, hospitais. Precisava pensar na minha vida, e depois. Entretanto, só tinha cabeça para lembrar, repentinamente, das vezes em que lia Dostoiévski pra ela, enquanto ela fazia crochê, um braço sumido nas cores das linhas: ela acompanhava com devoção e grande atenção – era analfabeta –, como se fosse uma novela de TV. E sabia todos os nomes difíceis daquelas personagens frias, e comungava de meu esforço por conhecer outros mundos.

De volta à USP, encontro-me com Hermes e Lisle – ela com o braço no braço do irmão. Teria contado a ele sobre ontem? Preciso saber, não posso ser enganado. Mas, a uma pergunta de Hermes, aproveito e narro de uma vez a história da morte da mãinha. Dizem-se chateados, e procuram consolar-me. É estranho, pois começo a receitar meus princípios – o fim do corpo no corpo, a ausência do espírito – como uma espécie de justificativa. Tão calmo pareço, que Lisle acha que estou brincando, que é tudo mentira, pois nunca havia dito a ele de nada. Sou levado a falar que chorei, que sofri muito. Parece-me um pouco desagradável e entediante, conversar assim de minha vida com eles. Estando na hora pra o início da aula, vão-se. Sinto-me ridículo, como se tivesse que ter dado razões para emocionar-me.

Fecho a livraria. Onde estará Teobaldo? Com fome, com certeza. Vou até o Crusp, ver o resultado de meu pedido.

– Aceito. Tem um quarto que acabou de vagar. Isso, assina aqui. É, rápido assim. A documentação tá ótima – me diz um homem barbudo. Pergunto sobre a senhora com quem conversara na véspera. – Pediu desligamento ontem mesmo – e eu me espanto: – estava passando por problemas, dúvidas em relação à profissão. Parece que veio uma pessoa aqui e ela ficou muito deprimida com a situação dela. Não sei se volta. – Ah – é tudo que consigo dizer. Pego a chave, os papéis, agradeço, e me despeço.

Noite. Calmo, caminho até o Crusp. Um lance de escadas e estou no quarto – um espaço de cinco por cinco metros, tendo de um lado uma pequena cozinha, um banheiro, e ao centro uma janela. Slogans políticos, corações, palavrões – as paredes são um piche só. Nem hesito: jogo a maleta sobre uma cadeira quebrada, estendo-me sobre um colchão embolorado ali, fecho a porta e adormeço, olhando a fria e boa lua.

O sol, mais uma vez soberano, é quem me arranca do torpor, junto de barulhos no quarto ao lado: os gemidos de um rapaz e os gritos e guinchos da garota num crescendo. Diabo, parece que estão todos nesse maldito cio. Por que não consigo um pouco de silêncio? Vou ao banheiro, lavo a cara; lembro da escova de dentes em minha maleta e volto. E de dentro, no meio de um livro e outro, aponta-me definitiva a seringa com a dose de cloreto de potássio. Na medida certa para um ataque cardíaco fatal, sem deixar vestígios ou suspeitas. Vêm-me a tona, de uma só vez, as cenas terríveis da noite passada: a agulha da seringa brilhando no escuro do hospital, o brilho que julguei ser dos olhos da mãe subitamente abertos, a procura por uma veia em seu braço; a febre, o sono, os sonhos secos; a busca pelo seu e meu alívios, há tanto tempo, meses que eu levava a seringa na maleta, desde antes do hospital, à espreita do melhor momento. O alívio, o fim do sofrimento, mais meu que dela. Rodo pelo quarto, sem ar, vou até a janela, ainda segurando a seringa. Mas ali a dose de cloreto parece intacta. Eu não a utilizara, afinal? Talvez não tivesse precisado, o que de modo algum poderia me aliviar. Como saber agora? E como pudera ter a idéia absurda de matar um ser já tão impregnado de morte?

A cabeça estrala de espanto, quando então vejo, bem debaixo da janela, meu gato Teobaldo, olhando para mim. Surpreendo-me por ele ter vindo de tão longe – o Crusp fica a alguns quarteirões do prédio da Letras – teria vindo me procurar? Mia. Mia obsessivamente. Num segundo, voa sobre um pássaro muito pequeno, que eu nem havia percebido, ao meu lado, no parapeito. Este deblatera-se na boca do bichano, porém é pouco, e pára. Agora são só ossos crepitando. Quase não sobra sangue. E agora é só um gato alimentado, seus olhos misteriosos, sua forma malhadiça esculpida em reentrâncias iluminadas pelo sol, pelo vôo que lhe vai dentro. Depois disso é que tive a súbita vontade de escrever.

Olho para essas páginas, seis ou sete horas depois, olho para o lado de fora do quarto, meu quarto, agora: vejo um verdejante campus, atrás o sujo rio Pinheiros, atrás uma massa opaca de edifícios feito uma fileira de tumbas. Mais que só, sou inteiriço, monobloco. Detrás da parede o casal se aquieta, nos meus dedos o gato ronrona; penso em Lisle, em Hermes, em minha ausência de cordas com o mundo, de motivos para continuar, e nesta dúvida horrível pelo desejo que tive e não sei se concretizei. De tanto escrever, meu braço dói. Penso que, então, finalmente, posso dizer: sou todos e sou ninguém. Poderia até mudar-me para outro nome. Mas qual?

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Verão, 1996.

Escrito por faker

Fevereiro 23, 2008 às 4:14 pm

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