Texugos
Era amigo de avencas, texugos e relógios. Todo dia ele curvado dando pêssegos às crianças, o rego aparecendo, alvas sobrancelhas sorridentes, flores no chapéu. Queria mostrar os bichinhos, fazer festa pra eles e pras crianças. Os pais não o engoliam: homem do saco, a sentença. Contudo não se enganava a molecada – o tio Floreal era gente fina. Uma flor de pessoa.
Duas menininhas, tarde de sol, sorvetes de pêssego e um livro de figuras – o caminho pra casa se alonga. De entrada, ganham um punhado de frutas e avencas [quente, a estufa, tio]. Tati e Lulu então conhecem os texugos: tão fofos bichinhos comem na mão. Na mão comem, e aí comem a mão – querem o braço, os lindos texugos; as pernas; os corpinhos; os olhos: os olhos de Tati e Lulu [gritos inúteis das meninas no sumidouro das bocarronas].
Desconsolado, o bom velhinho – em seus olhos recorta-se um vale de lágrimas a avinagrar o vidro dos relógios, molhar as molas, estragar as engrenagens. A própria cabeça ele estapeia. Os texugos observam quietos: um corre à estufa, retorna com dois pêssegos, pendurados na boca pelos cabinhos. Coloca-os aos pés de Floreal, que os cheira, ainda entorpecido e fungo. Enfim, dorme, ronco rude, e sonha – uma aquarela de relógios avencas menininhas.
Acordou assustado: os texugos mordiam suas sobrancelhas, resfôlegos, faimantes. Já os pêssegos no saco, ele voltou, fatigado, em curva, à rua, onde pessoas em desfile vinham empunhando tochas. Os relógios de sua casa talvez estivessem fora de prumo, mas tio Floreal não saberia mais dizer que horas são.
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Primavera, 1997.