Sujeitinha!
Vem buscar-me que ainda sou teu.
[Vicente Celestino]
O fêmur esquerdo em dois pedaços, Vicente chegou à choupana de sua amada arrastando-se, trazendo-lhe embrulhado num papel de pão o falante coração da progenitora. Vitória, que contara como certa a loucura do camponês, estendeu-lhe a mão, enxugou um soluço; sustentando-se na parede, sujo de sangue, ele abraçou-a: – Está provado agora que te quero? – Ela somente assentiu ao ex-filho único como olhos encovados de choro arrependido. Nada a fazer: culpa sua, só. Deu a ele a outra mão e Vicente mudou-se, naquele momento mesmo, para o casebre da namorada solitária. Embora a perna doesse muito, amou Vitória sem esperar por ela tirar a saia, os dentes nos seios brancos de bicos grandes, a aspereza da língua arranhando a vulva; vergões vermelhos na amada surgindo aqui e ali – a forma de seu amor, feito fome, feito faca.
Saciado, olhando-se no espelho do lado da cama de Vitória, lambendo-lhe o umbigo, viu, do outro lado, sobre a mesa, o ensangüentado músculo materno – a pulsar. “Mas que coisa, coração nenhum assim se mexe ou fala!” E virando-se para a amante: – pra quê tu queria o coração da minha mãe? Pra deixar pras baratas, na cozinha? – E ela respondeu: – Vicente, aquela hora eu estava só brincando, não quis dizer… – Ele levantou-se: – brincando, Vitória? Tens idéia do que fiz pra ti? – Ela permaneceu em silêncio, as mãos entre as pernas quentes, encolhida. Vicente mirou-a de cima a baixo. Seu feito modificara sua percepção sobre as coisas, o que lhe dava uma certa dor de cabeça. – Pois – cuspiu, encarando novamente o espelho. – Sei o que tu fazia antes aqui, como ganhava a vida. – Ajoelhou-se, a barba e os olhos negros crescendo junto ao ouvido da namorada. – Mas hoje, e daqui pra frente, tu vai ser só minha. Só. Entendeste? – Ela outra vez disse sim com os olhos, já pensando no que falar a quem lhe batesse na porta. Vicente foi até a mesa: – Antes de tudo, vais me fazer uma coisa. Assim como eu fiz um sacrifício, tu vai também. – Pegando o coração, estendeu-o para a amada: – tu pediste o coração da minha mãe. Eu te peço que tu coma! – Vitória arregalou o olhar: – Quê isso, Vicente? – Ele colocou o coração à frente dos lábios dela: – Come! –, ela afastou-se, sentindo o cheiro doce; ele repetiu: – Come! – abriu a boca de Vitória, e empurrou-lhe o coração – come! Come! –; Vitória começou a chorar, estômago torcido, língua com uma palavra grossa presa a perceber o sabor da sogra – come! –: e ela entregou-se, os dentes desfibrando suavemente a carne tenra do coração rubro quatro cinco mordidas, as gengivas ferindo-se; não se contendo, gritou, quando a carne sumarenta desceu-lhe o esôfago, e por mais que fizesse, não conseguia expulsá-la de si.
Vicente abraçou a namorada, lambendo suas lágrimas.
Depois daquela noite não tocaram mais no assunto. O coração foi levado por um cachorro que entrara na casa pela porta aberta e Vitória saiu às ruas, noticiando o noivado aos conhecidos. Iria ainda à choupana de Vicente – pois ele não podia andar –, buscar umas coisas. Teve ela mesma de enterrar a gorda mãe do amante, no quintal, sob umas coroas-de-cristo. Aos vizinhos espalhou que a sogra precisara viajar. Eles não se importaram – a velha não significava para eles mais que uma beata chata.
Semanas se passaram, Vicente sempre na cama, cuidando ora da própria perna, ora da vagina de Vitória. O amor os tornava babosos, viviam de apontar estrela. Um dia a barriga berrou. Vitória pensou em costurar para fora – única coisa que sabia fazer, fora embalar homem – e teceu noites a fio. Costurou, costurou, até com as pernas abraçadas às do amante costurou. Infelizmente as vizinhas não lhe pagavam o merecido, se queixando da safra ruim dos esposos, ah, esses homens inoperantes. E Vitória, a moer-se de trabalho, à noite só queria travesseiro. Vicente não gostava da diminuição em sua cota de afago, mas resignava-se, certo de que logo ia sarar.
Contudo, meses e meses e nada de cura. A perna parecia entortada. Doía. Doía muito. Para não senti-la, bebia. Somente o ronco fazia-o suportar-se a si. Vitória o espiava, a baba saindo dum canto da boca, o bucho fofo. Tinha temor, tinha amor pelo come-dorme. Não sabia o que fazer, tanta conta pra pagar, ali as quatro paredes do casebre desabando. No espelho, seus peitos cresciam, e para baixo.
Então, o inevitável: o feijão-com-arroz de gosto ruim virou indigestão e pesadelo, o botão mal-costurado caiu, o mau-hálito de manhã cedo ardeu nas narinas. O lar é o mais edificante dos venenos, e doce demais cria cárie, abcesso e câncer. Vicente deu pra beber, Vitória para rezar. Pedia a Deus e à Virgem Santíssima que o amante melhorasse e arranjasse um emprego – viver assim não pagava a pena. Os olhos cansados, vesgos de ponto, nó e cruz. A noite levava sempre duas garrafas, e se Vicente a pegasse de dedos entrelaçados no rosário, ah!: mandava-a ajoelhar-se e rezar para o único deus que conhecia, aquele entre as pernas. Vitória teve de comungar com o Supremo escondida no banheiro – e pouco a pouco foi crescendo nela um nojo das coisas do amante, até alegrava-se quando Vicente bebia além e não tinha vontade, o que era cada vez mais ocorrente – de nu, só agüentava Cristo crucificado. Na madrugada, no espelho, debaixo do ventre redondo e doente, entre os caracóis do púbis, ela notou uns cabelos brancos.
Uma tarde Vitória entretida entre saias, Vicente entre porres; na porta, três pancadas: – será possível? – pensou ela. Foi atender, era um amigo de outras épocas. – Corre daqui, casei-me. – O homem não foi, Vitória com medo que o marido acordasse, o amigo insistindo numa recordação, acontece o temido. Vicente escutou o vozerio masculino e com muito custo dirigiu-se à salinha apoiado num cajado. – Querendo remediar nossa miséria como dantes, sujeitinha? Tu vai ver! – O cliente desinformado escapuliu; Vitória pediu compreensão; Vicente ofereceu cajadada: – Sujeitinha! – E tome porrada. A mulher fugia pela sala, gritava – não é nada disso que estás pensando~! – ele revidava, com os nós dos dedos: – pensando quê, debaixo de meu teto! Sujeitinha! – Sangrando pela boca, em meio de asco e desespero, Vitória ajoelhou-se aos pés de Vicente, as mãos em cruz: – Por minha Nossa Senhora, Vicente! Meu coração é só teu! – Então os olhos dele se escancararam, entrevendo alguma coisa além da ressaca, além da mulher, além da situação, além dele mesmo, e com a perna boa chutou a amante – que foi parar do outro lado, a nuca espetada numa quina da mesa – Sujeitinha! – ; ele rasgou-lhe os trapos negros que ela vestia, mordendo-lhe o pescoço; abaixou a calça, fez-se nu sobre a mulher de olhos mudos, entrou nela, penetrou os dentes em seu seio esquerdo, de onde escorria uma gota de leite, penetrou os dentes pelas suas carnes – Sujeitinha – arrotou, e reclinou-se ao lado do corpo da amante; mirando-se lá do espelho do quarto, brincou com a cruz pensa do pescoço de Vitória, a massagear a perna insensível entre moscas, permanecendo assim até de manhã.
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Verão, 1989.