Os infernos possíveis

contos de Ronaldo Bressane

Relato entre Machado e faca

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Nada podia acontecer de novo. Os alunos chegavam em sua espasmódica gestualidade, um pé querendo ficar para um café lá fora outro interessado na aula do mestre Valentim; mas é claro que sempre havia os terceiros, ali apenas obrigados — pais, convenções, currículo. Por trás das janelas fechadas da classe, breve quase todos se sedimentavam nas cadeiras. Fazia frio e a maioria abotoava-se dentro de casacos; bons casacos.

Como o meu. Sentado nem muito à frente ou atrás, em panorâmico observatório, entre uma página e outra de Schwarz espiava meus colegas enquanto aguardava a chegada do professor de Literatura, que traria com suas observações sempre brilhantes a fruição estética esperada para completar minha sexta-feira — dia aziago —, destinada a proporcionar-me um líquen, que fosse, de transcendência. Nada demais.

Vinha o Valentim, com seu ar de duende de botequim, pequeno-gordo meio manco, uma simpatia automática no sorridente olhar azul, chispante. Aproximou-se vagaroso da mesa, em que depositou alguns livros, apoiou um pé a uma cadeira, e ao mesmo tempo que fez um comentário banal sobre o tempo levantou a meia preta, amarrou o cadarço do sapato marrom. Simples. Sentou-se como se a um almoço de arroz e feijão, a cara rosada de papai noel desnatalizado, sem barba. E é assim sua fala, grave e quente: — um intelectual prosaico, cabeça coroada por careca; um bebedor de livros.

Isso, só, e eu abri o caderno, pronto para assistir às suas lições de Brás Cubas. Pronto para assistir.

— Vamos hoje ler o capítulo “O Humanitismo”, né. Abram lá, é o capítulo cento e dezessete; pra quem não sabe, C – X – V – I – I em romanos…

E entremeando leitura, comentário, análise e interpretação, Valentim foi nos servindo várias talagadas do Humanitismo de Quincas Borba. Filosofice diabólica de Machado de Assis, encruzilhada de Catolicismo, Positivismo e Darwinismo em falsos silogismos, iluminado por um senso mais que comum, medíocre, o Humanitismo que ali nos era exposto nada mais escondia que a velha e boa justificação fatalista do poder óbvio dos mais fortes sobre os mais fracos — pela ótica dos poderosos, evidentemente. A aula fluía macia, Valentim em sua maneira monólogo-quase-diálogo me entregava de bandeja litros e mais litros da mais fina crítica. E desta maneira eu pousava em meu caderno azul mais uma fatia do grande conhecimento à disposição na sereníssima USP, — assim como quem vai ao banco depositar na caderneta de poupança, ou pagar outra parcela do seguro de vida, ou um consórcio, um carnê. Segue a leitura:

— “O amor, por exemplo, é um sacerdócio, a reprodução um ritual. Como a vida é o maior benefício do universo, e não há mendigo que não prefira a miséria à morte [...], segue-se que a transmissão da vida, longe de ser uma ocasião de galanteio, é a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente há só uma desgraça: é não nascer.”

Nisso, o professor — que lia com os óculos bifocais tão colados ao livro que parecia cheirá-lo — empinou as sobrancelhas brancas vindo o olhar arguto na garupa, direcionado à porta:

— Pois não? Você quer falar alguma coisa?

Um homem alto, da cor que o IBGE chama ‘pardo’, camisa xadrez para dentro da calça jeans, acenava à entrada da classe com algo que parecia um bilhete. Seus enormes olhos negros continham uma emoção indefinível — uma zona cinzenta em que coabitavam a súplica educada, a ameaça tenebrosa e uma terceira força que logo identifiquei como fome, fome de alguma coisinha quente. Ele estendeu o bilhete e seu gesto dava a entender que queria ir até Valentim. Nada falava, o que logo estranhei. E me impacientei um pouco, dado que a aula estava tão interessante.

— Façavor de entrar — estendeu por sua vez a mão o professor, deitando de lado os bifocais.

Assim o homem caminhou, tímido, semicambaleante, ou encolhido de frio, pelos intervalos entre as cadeiras que abarrotavam a sala, Moisés atravessando o Mar Vermelho, até chegar a Valentim. Entregou-lhe o bilhete, meio sovado. Novamente o professor colocou os óculos e aproximou o papelzinho do rosto; parecia atravessá-lo com o olhar: um médico-legista, um ourives em dúvida.

— Ele está pedindo aqui para que eu leia o bilhete para a classe. Vou lê-lo.

Sou mudo. Quando eu tinha sete anos, meu tio me arrancou a língua. Estava bêbado. Estou aqui pedindo pra vocês uma ajuda, pra poder comprar um barco.

O homem tocou o ombro do parofessor, que rearqueara os sobrolhos e as sobrerrugas. E abriu a boca, feito o Valentim um médico.

O professor afastou-se — seus olhos se abriam mais e mais.

— Não é preciso fazer isso, meu rapaz: sua história é não só verossímil como verdadeira. Agora eu, como sou um pobre professor — remexeu nos bolsos; surgiu o verde de um real — tenho muito pouco a lhe oferecer.

Então o homem voltou-se para nós, a classe, repetindo o gesto: escancarou a boca marrom, onde luziam dentes fortes — e nenhuma, nenhuma língua. Talvez um toquinho, lá no fundo; não dava para ver direito.

Por essa eu não esperava. Nem eu, nem a classe. Caiu um silêncio rochoso. O espanto. Chegáramos ali para um aula de literatura e fez-se este espetáculo de noite, noite escura na boca muda de um homem que nos pedia esmola. Mas, em vez de me solidarizar aos sustos dos colegas, acelerava o crescimento do meu próprio. Era como se um chão se abrisse, ou um teto, e senti coceira no cérebro, queria unhar de meus miolos alguma luz. Isso era muito mais estranho que dois ociosos a brincar de Sócrates em volta de um frango assado. Não havia ali nenhuma amenidade, nem sinal de complacência, amizade ou sentido — havia um homem que abria a mão, e ela estava lisa branca; abria a boca, e nela não se agitava uma língua, há muitos anos —: era o vazio, o vazio.

Mas também era ridículo. Na faculdade de Letras ingressa um homem sem língua! Imagino o estranho vestibular por que deve ter passado. Fora sua língua cortada em duas fases? Qual teria sido sua nota de corte? Mistérios. E a etapa de ‘bicho’? Quem sabe aí aprendera o ofício de esmolar. A cara toda pintada, o cabelo rapado, pedindo aos motoristas, nos sinais, um dinheiro para repassar aos ‘calouros’. Vencida a concorrência com os mendigos, paralíticos e crianças de rua locais, a brincadeira acabou ficando mais interessante que assistir às aulas e ele ia, de classe em classe, rodando o chapéu, digo, o bilhete e sua historinha edificante.

De outro lado, minhas mãos continuavam a arrancar talos e mais talos de neurônios na tentativa de preencher aquele oco: como é que alguém arranca a língua de outro alguém, assim sem mais nem menos? “Meu tio estava bêbado.” Não, isso não era desculpa, nunca suficiente razão. O que teria aquele homem dito ao tio para perder a língua? Aquilo era o Verbo castrado feito luz, e era luz. E eu vi que não era bom. Pois que pecado indizível seria pago por uma língua de sete anos? O homem ainda justificava o ato pela bebedeira do tio. A coisa me deu um ódio tão grande que quase turvou a suspeita de uma farsa: o homem poderia já ter nascido assim, e como tantos, fazer do aleijão seu ganha-pão… O vazio que alimenta o vazio.

Humanitismo nenhum explicaria o fato. Ninguém fica sem a língua impunemente. Se — pela lei das compensações da qual se dispõe Humanitas, o princípio gerador — a quem se tirasse uma língua correspondesse outro que a tem, qual seria a minha posição nessa luta? Sorte a minha, a de não ter entre os irmãos de meus pais um alcoólatra portador de facas. E um bêbado, de olhar tropicante, de mãos trêmulas, desprovido de centro de gravidade, pode cortar a língua de uma criança assim, tão fácil? Deveria ter havido alguma luta. Qual o motivo? O sobrinho mostrara a língua desaforadamente ao tio?

O homem mostrava a sua não-língua para mim, e eu tinha vontade de arrancá-lo da frente do meu professor, da minha aula subitamente atravessada por esta barbárie, fina flor cortada com a navalha suja que entrara pela porta dos fundos da minha Universidade, para onde fora tranqüilo estudar a inculta e bela língua Portuguesa. Como uma faca pode abrir um corte mais fundo que um Machado? Com que direito esse fulano invadia a minha vida tão suavemente organizada em notas de aula? Deve existir alguma lei que proíba pessoas sem-língua de interromperem o estudo de pessoas com-língua educadamente assentadas, suas línguas quietinhas dentro da boca a espiar a do professor agitar-se com desenvoltura e graça.

E, mais ainda: “uma ajuda pra comprar um barco”? Muito bonito, um sujeito sem língua pescando por aí, mudez desfilada entre peixes e águas silenciosas! Poético, mas — que eu faria com meu nojo? Pois o homem estatuado à frente era uma mosca no meu consommé, era tudo o que eu não queria ver naquela sexta-feira — dissera já, dia aziago.

Urgia resolver a situação, dar ao menino do semáforo o trocado para que ele não riscasse a pintura do nosso carro. Sem culpas. Uma vez que estou pagando, tenho ao menos o direito de saber tudo tintim tintim, não é? Ou, simplesmente, desembolsar o dinheiro: mais prático. Por falar em praticidade, esse negócio de esmola deveria ser mais higiênico, quem sabe com hora marcada, ou, melhor: uma conta que se paga no banco, se possível por débito automático — aí, só nos daríamos conta ao tirar o extrato no caixa eletrônico. Se fosse assim, quem sabe o sem-língua aqui já estivesse com seu barco e nem me interrompesse a aula tão interessante, não é mesmo? Quem sabe nunca o teria visto, e ao vazio em sua boca. O vazio. O vazio.

Entreguei ao homem uma nota de um real, como a do professor. Nossa única mediação possível. Não, não serei metafísico sugerindo que aquele homem poderia ser eu, em outra dimensão do tempo: fora de dúvida. Imagine se iria acontecer a mim uma coisa dessas. Metafísica é bom para o Pessoa. Eu consumo chocolates. O homem queria um barco. Pescava então esmolas a esmo, esbarrando nas cadeiras. Alguns colegas não davam; muitos, por falta de dinheiro; outros, por falta do que se convenciona “compaixão”; os demais quem sabe não acreditassem que esmola desse certo. Por que investir dinheiro a fundo tão perdido? Uma esmola só não resolverá. Quanto a mim, sei lá porque lhe dei o dinheiro. Talvez porque tivesse gostado da exibição. Ou tenha apreciado a poesia na idéia do barco. Talvez medo de parecer desumano; afinal o mestre deu o exemplo, cumpre segui-lo. Pode servir num bom conceito, mais tarde. Com certeza, pago a língua.

O homem se encaminhou à porta. Parou, me olhou, e fez com o polegar um gesto de positivo. Me peguei sem querer o imitando; mas logo recolhi o dedo, envergonhado. O homem sorriu. Ao vencedor, as esmolas. Um reconhecimento. É. Ele venceu.

Mas não.

Valentim pigarreou:

— Bem, voltemos ao nosso infeliz Brás Cubas…

E o simpático mestre, coçando de leve a testa, começou a discorrer sobre como, à luz do Humanitismo, a inveja pode ser uma virtude. Em parte, concordo: não deixei de sentir uma estranha inveja pela não-língua do homem. Estranho. Só não conseguia refazer o círculo vicioso e chegar ao virtuoso da questão. Enfim: isso passaria. Um Machado podia ser mais eficaz que uma faca, depois disso? Os alunos retornavam sua atenção ao mestre, depois dos cinco minutos de silêncio absoluto. E algo se remexia, dentro. Um silêncio de guelras em madrugada, prestes a ser capturadas por uma quieta rede. Não sei, não sabia. Ah, foi só um susto. Porém, essa sensação de vazio. Mas não, foi só um susto. Voltamos à aula. Não aconteceu nada.

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Inverno, 1996.

Escrito por faker

Fevereiro 23, 2008 às 4:08 pm

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