Os infernos possíveis

contos de Ronaldo Bressane

Organização & Método

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1. Manhã de mar parado e ar errado. O mundo amarelo, nosso tempo ido: último dia do ano – o que era? Eu tinha muitas perguntas e sentia calor demais. Cedinho saímos do escuro, dar uma banda atrás de comida. Os playboys fritando no sol pareciam mortos. Tem gente que nasce morta, mãe? Os quatro famélicos sem força pra gastar nadando – parecia que a gente economizava toda energia pro plano, que a gente repetia uma porrada de vezes pra não errar. A areia rasgava o pé, catei uma conchinha – curtia o sussurro dentro. Nada de rango. Nas latas de lixo nem resto: meiavolta, caverna volver. Só João vazou pra voltar mais tarde muquiado nuns óculos escuros. Catei de uma das peitudas gostosas, mandou cínico, pele camarão. Dormi, ou desmaiamos. Não lembro.

2. Esse porra desse sorveteiro, cadê que não aparece? O calmeiro deixava a gente bêbado, furioso. Derbinha previa: – alguma coisa chegando ao fim. É o fim do ano, animal: Toninho de nós o mais rude, o mais chefe. Entra ano sai ano a gente nessa merda – defendido por um de maior. Bando de otário! Tio Nino explora nós, faz a gente pedir esmola, bater carteira, bate em nós depois: troco do quê? Não ser justiçado? Ué, Derba cutucou, mas eu achava que tu gostava dele… A gente caiu na risada com Derba rebolando. No que o Tony deu um pontapé bem no cu do Derba, aiaiaiai. Quero saber de graça, putinho? Tua batata tá assando e tua bundinha tá guardada. Nós passando necessidade, aqui fechado. Fome, sede. A praia lotada de gambé. Toninho, dentes faiscando, de tanto sol tava de preto o demo. Tamo fudido. E esse corno desse sorveteiro, cadê? Nisso na entrada do buraco veio Tio Nino. Sorria feito uma vara curta, oi-oi crianças, pilotando o carrinho de sorvete. Ninguém perto. De cara Tony arreganhou a fuça: é agora.

3. João se jogou nas pernas do Tio Nino, Derbinha puxou a cabeça dele pra trás, o figura berrando, era pequeno, do nosso tamanho, Toninho capotou no soco no filhodaputa, puxando ele pro chão pelos ombros, forte segurando os braços; eu voei no carrinho e peguei uns sorvetes de limão que descascava e metia na goela do vendedor – não, não, irmão do tio de vocês, parente, favor – grande, mas fraco logo caiu e logo tapei sua boca com os picolés, os olhos azuis se escancarando, apertei com gana seu nariz pra que não respirasse no que empurrava os sorvetes por sua garganta, o calor derretendo o limão, o rosto vermelho e vergado do sorveteiro entendendo tudo, olhei pra João muito compenetrado nas pernas de aranha sambando, Derbinha nervoso espancado pelo suor e só no Toninho vi um sorriso de mano, ele, Tio Nino e eu sacando tudo o que a gente fazia, uma coisa sem nome, escorregando pela minha cabeça feito a pasta de sorvete o que me deu uma vontade doida de falar, eu, que era sempre o que menos abria a boca, e cantei ADEUS ANO VELHO, FELIZ ANO NOVO e aí aconteceu outra coisa estranha e incontrolável, os músculos do afogando em espasmos de galinha sem cabeça, uns dez ou quinze palitos de picolé enfiados na sua boca não deixava de ser engraçado pra dedéu, e a gente riu dentes cariados numa gargalhada serpenteando carrosséis de vidros coloridos, um som alegre e fanho tipo um baleiro girando rápido, tudo se alongava em horas só que na real foi rapidinho que ele se engasgado no riso e no suco gelado de limão, ah, se fodeu.

4. No que demos com a coisa pras cucuias pulamos no carrinho catando os tesouros – picolés, dogues, porra, tava cansado de chupar sachê de ketchup; e a gente corria e gritava em volta do morto, chutando areia na cara onde um espanto saltava ainda, aquilo sim durou tempo, parecia pouco: a tarde chegou roxa e Toninho lembrou logo vai chegar gente de tudo que é canto pra festa da passagem, e o presunto? Num canto mais escuro a gente furou um buraco – antes disso Toninho fechou os olhos do tiozinho. Areia sobre, espetamos o guarda-sol do carrinho de sorvete no meio das pernas dele, feito o túmulo na sombra de uma flor gigante, porra, mãe, a gente sim sacava de poesia.

5. Levamos a conquista prum lugar mais agitado da praia; tinha ainda uma porrada de sorvete e salsicha. Os gambés nem vieram pra cima, tudo se desculpava na comemoração, povo se abraçava, se beijava, bebia, comiam, feito uns porcos mesmo. E caímos no mar revolto entre fogos multicores e estrelas e balões e velas queimando pedidos e gente que gritava, e molhamos nossos corpos felizes e saciados na noite calorenta: tinha que entrar um ano bom. Cansado, me deitei na areia, brancura deslizando nos dedos, em meu ouvido a concha e o oceano. O plano tinha girado: eu queria dizer alguma coisa pros meus manos; mas eles dormiam. Queria perguntar umas coisas; não sabia pra quem. Tem quem nasce morto, mãe? Sol nascia, roxo o céu lambido de verde – a praia e seus despojos da festa, um desconforto: dor de barriga, de garganta. Logo voltaria aquela merda de calor. Adeus ano velho.

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Verão, 1991.

Escrito por faker

Fevereiro 23, 2008 às 3:57 pm

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