Nervos
Eu só sei que quando a vejo
me dá um desejo de morte ou de dor.
[Lupiscínio Rodrigues]
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? Arílton chegou e esguelhou a mulher largada de lado num fiapo de cama – sem coragem de encarar o corpo deformado de fome. Os ossos pareciam dedos apontando culpas, remoídas cobranças: olha o esqueleto em que você me deixou. Na lua de mel, ela tão diversa das mulatas bojudas do bairro, de brincadeira a apelidara “Miss Etiópia”; nunca minhocou que pudesse dar nisso. Pele e osso. O estômago comia-lhe a estima, auto e outra, desfazendo-se em lágrimas sem sal pela cara esquálida: você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Fechou a porta. Dormia a mulher, lombriga criada, sem força a puxá-la para fora do sono de sonhos órfão. Ele, seu homem, dos mundos que prometera só sobraram os cheques sem fundos. E um jornal amarelo tirado da camisa suja – o guia de empregos. Leu, revirou, mas suas mãos, totalmente inadimplentes, zonzeavam pelas funções das páginas sem achar uma rima ou sinal: maquinista, encanador, frentista, vendedor, balconista. Nada vezes nada, nisso era douto. A cabeça doía. Como sair, pé-rapado e carteira em pêlo, mendigar um trabalho? Incompleto o primário, boa aparência nem pensar, não era da idade certa, todos os documentos em desordem, parente importante ou amigos influentes esqueça. Arílton era uma ilha rodeada de zeros por todos os lados. E a fome lhe mastigando dentro. Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? Ter loucura por uma mulher?
Uma barata ia passando – o único movimento na casa isolada de todos os domingos. Ia passeando a barata, tempos em tempos, antenando qualquer resquício comível. Inútil viagem. Olho no inseto, Arílton não lhe tinha nojo; antes, compaixão. O marrom ambulante lembrava os sapatos do casamento, lustrosos e promissores. Pois batera neles pelas ruas até arrancar as solas. O terno, vendeu. A aliança, empenhou. O bolo, arrotou. O vestido de noiva virara a cortina de uma vizinha. E até a barata foi embora, lenta, lateral, asas nos bolsos, envergonhada de entrar num lugar tão clandestino de pão. A casa voltou a ser suspensa. Você sabe? Por acaso você sabe?
Ajudante, auxiliar, assistente. Arílton cavava dentro de si mesmo, impávido destroço. Para que servia? Em suas veias só ralavam dízimas – e ainda assim, periódicas. Escriturário, vigilante, lixeiro, guardete, enfermeiro, garçom, motoqueiro, recepcionista, meio oficial pintor. Viveu até hoje foi de teima, de orgulho, de acaso. Seu fazer era um abismo. Seu mistério era viver em queda livre. Absolutamente livre? Ali, encompridada na cama, o y da questão, a esfinge de vidro, o espelho em que não fazia a barba toda manhã, delatando o perdedor em tempo integral, fracassado com carteira assinada.
Torneiro mecânico, técnico de processos, fresador ferramenteiro. Sem unhas, suavemente, quase espírito, suas mãos perseguiam um emprego feito barata atrás de resto. Guarda-costas, salva-vidas, bate-estacas. Não sabia até onde iria, até que porto agüentaria. O que o estraçalhava: entender como viera esse vexame. E por que ela nunca o abandonara? Por que sempre junto, acompanhando, enchendo seu prato de esperança temperada com fé? Ora, a fé! Fresador, cronoanalista, lemista, caldeireiro, sondador, clicherista, conferente, extrusor. Coisas que de tão complicadas perfaziam sua cabeça em fumacinhas. O rosto da mulher dormindo era a coisa mais linda desse mundo – isso ele compreendia, simples. Mas era uma boca. E vísceras, e miolos, e cabelos. Soltos numa enxurrada de maus pensamentos. Murchos peitos, miúda bunda, tísica buceta. Há pessoas que têm nervos de aço, sem sangue nas veias, sem coração. Mas você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Armador. Conciliador. Mandrilhador. Retificador. Desossador. Desossador. Desossador. Precisa-se, sem experiência. Mais nada. Sim. Isso ele era: toda inexperiência vivente. Ali havia uma ocupação! Conferiu a rua, o número. Perto, sem precisar ônibus. Ofereciam mínimos; bastava. Devia ser fácil, com um pouquinho de prática. Quem sabe ainda não enchida a vaga? Daria tempo. Olhou a mulher trêmulo, menino precisado de empurrãozinho. Correu até ela: avisá-la, inquiri-la, justificá-la. Em joelhos chegou-se, sem barulhos. Tocou-lhe as costas tão acarinhadas.
Frias. Gelada a mão. Duros os lábios. Duro, o corpo todo. O corpo todo osso – pronto para o desuso, para a última embalagem. A garganta dele partiu-se em duas. Precisava de um cigarro.
Abriu os olhos e a janela. Quanto tempo sem fumar um cigarro de seu próprio bolso? Por trás dos escuros, de fora e de dentro, nascia a lua cheia, imensa de dragões, alva. Pura. Perfeita – óssea.
Arílton assobiou ainda uma vez o velho samba que não lhe saía da cabeça – por que só lembrava do comecinho? – ; ele sabia. Doessem a cabeça, o estômago, o peito; mas isso, sim, ele sabia. Virou a mulher de frente, pernas e braços e olhos escancarados: pálida miração florada de veias roxas. Há pessoas que têm nervos de aço – ele era assim. Desossador. Devia ser fácil, com um pouquinho de prática. Alcançou a faca na pia. Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
.
Inverno, 1997.