Os infernos possíveis

contos de Ronaldo Bressane

Labirintos

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para Halley e Ferreirinho

De malungo pra malungo.
[Nação Zumbi]
Down, down. Would the fall never come to an end?
[Lewis Carroll]

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Linguagem. Lino Curimbaba Capastrana era o doidinho da cidade. Diz que falava seis línguas diferentes, o que parecia mesmo, visto que ninguém o entendia e tampouco compreendia na cidadezinha línguas estrangeiras além de um dialeto do português chamado mineiro brasileiro. Lino Capastrana bradava a todos, solícito loquaz, que tinha a capacidade inaudita de pronunciar seu pensamento – sabe-se lá o que era isso – em português, inglês, francês, italiano, espanhol e alemão. Aprendera este sexteto básico latino-anglo-saxão no cais do porto onde trabalhara dez anos antes, em Santos. Só que ali em Jacutinga, cidade do sul de Minas – reafirme-se o óbvio, Estado brasileiro não banhado pelo mar –, nunca jamais alguém tivera notícia de ex-marinheiros, até porque filho daquele grotão Lino Capastrana não era: e ninguém saberia dizer de onde, posto que uma hora Lino outorgava-se cidadania gaúcha, outra hora pernambucana, e terceiras vezes amazônica, em seu sotaque incompreensível povoado de palavras sem significado aparente porém prenhas de intensidade e intenção, coisa que lograva sempre algum espanto entre os que se dispunham a ouvi-lo, logicamente na praça principal, que é a arena em que os loucos debatem-se com os toureiros da civilização.
Afirme-se, embora, a imprecisão em relação a seu verdadeiro nome: da boca de Lino entendera-se também os cognomes Lívio Carraspana, Landico Catamarã, Elíseo Catrapanni e Ladino Sacripantas. Certa vez, uma delegação de botânicos alemães chegou à cidade, trazendo alegria e pânico ao prefeito – alegria por ter a cidade sido descoberta pelo Primeiro Mundo e pânico pois ali ninguém dispunha de alemão suficiente para um cicerone. Dúvidas à parte, o pânico e a vergonha pela ignorância foram engolidos por Executivo, Legislativo e Judiciário de Jacutinga, e requisitou-se para receber a missão alemã ninguém menos que Lino. Banhado, cabelos cortados, barbeado, vestido em terno presenteado pelo presidente da Câmara de Vereadores, Lino foi até a estação rodoviária e trocou com eles várias palavras. Por dez minutos cercou a comitiva e o intérprete o alto escalão da pequena cidade, estufando o peito de orgulho por Lino, sempre tão eloqüente. Durou pouco a euforia: assentindo de modo respeitoso e profundo, os alemães apresentaram várias cortesias e mesuras a Lino, deram-lhe o braço e colocaram-no gentilmente no ônibus, para onde voltaram, seguidos pelos apelos inúteis e espantados do prefeito, do deputado e do juiz, que ficaram ali na plataforma vendo o ônibus sumir na poeira.
Ninguém nunca soube o que Lino e os alemães conversaram.

Lírio. A linda morena envolvida em um vestido roto, quase branco, de flores já apagadas, transparecendo os seios empinados, tocados pela água da tempestade que caiu certa vez durante a missa na igreja de Nossa Senhora das Correntes, em São Francisco, Minas Gerais, num mês de fevereiro, pedia-me carona até sua casa.

Ladroagem. Lembro-me do cachorro do amigo meu, digo, o cachorro dele, chamado Cliff, em homenagem ao falecido primeiro baixista do Metallica, um boxer pequeno, preto, grosso, que todos os dias, exatamente às seis horas da tarde, girava velozmente em seu eixo buscando comer a própria cauda – que lhe havia sido amputada.

Leis. Às onze da noite, a advogada Sabina, com seu sotaque do interior paulista forte, seu gosto por impressionistas, seus cabelos loiros curtos, seus olhos azuis e seu sorriso raro, descrevia à luz das torres da Paulista alguns tipos de ritmos que sabia executar ao tamborim.

Loira. A do Banheiro. Em minhas andanças, foi com grande surpresa que sempre observei a coincidência de existir em cidades tão distantes entre si – Recife, Cuiabá, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo – o grande mito urbano da Loira do Banheiro. Segundo relatos de pessoas de idoneidade comprovada, caso de meus colegas no Dom Bosco de Cuiabá, da churrascaria Galpão 35 de Porto Alegre e integrantes do bloco Que Sunga Horrível, de Olinda, entre outros, a Loira do Banheiro surge inapelavelmente quando você tem por volta de 10 anos de idade e sente surgir entre suas pernas aquela vontade incontrolável de pedir ao professor de Matemática para sair da sala de aula e ir até o banheiro despejar sua iconoclastia ginasiana, se não, logo fará nas calças, coisa que ninguém deseja, meninos ou meninas: assim que você baixa sua underwear, a Loira aparece, alta, longilínea, em seu vestido de noiva, o véu mal escondendo a imensa caveira sorridente, algodões saindo pelos buracos do nariz. Sem abusar muito da repentinez de sua monstruosa aparição, a Loira emerge para as trevas brancas do banheiro estudantil cerca de dois segundos depois – o suficiente para você se mijar na roupa inteira e ficar com a cara quente com o escárnio ao voltar à aula de Matemática.

Longe. Pelo retrovisor, preparando-me para dar a ignição na viagem para Aracaju, vejo uma réplica de Shirley Mallmann, loiríssima, de olhos azuis, camisa do Corinthians, esperando o ônibus que partiria de Monte Santo para Cansanção, Bahia, me olhando como se eu fosse o único que a poderia entender, ou que fosse digno de seu olhar espantado, ou que a pudesse levar dali, ou que soubesse da extrema dor em ser tão linda e ao mesmo tempo estar confinada àquele cafundó e ainda por cima ter uma estranha mancha vermelha do lado esquerdo da boca.

Labaredas. No sertão parece ser comum a existência desses doidos mansos com idéias fixas. Em Cordisburgo, cidade-natal de Guimarães Rosa, conheci três. Um era o Milheiro, Milionário ou Emiliano, quase centenário, que passava os dias encostado numa igreja contando a fortuna que amealhara – e que quando estava finalizando o montante de riquezas, apagava tudo e recomeçava, pois sempre se esquecia de incluir no cálculo uma fazenda, uma junta de bois, uma cristaleira da Boêmia. O Juvenal, Simonal ou Infernal, o segundo sandeu, era um sujeito que me confidenciara conhecer um dos “suspiros” ou “respiros” do Inferno, localizado ali próximo da cidade – ele se dispusera a me servir como guia até lá, para conhecer “ele” (não pronunciava nunca a palavra “diabo” ou qualquer sinônimo), e ver “as labaredas dançando” mas eu resolvi adiar um pouquinho mais esse encontro e disse que deixava para uma próxima vez, não tinha pressa. O terceiro doidivanas era o interessante Anteu ou Ateu ou Ateneu, um que volta e meia gritava “no princípio criou Deus o Céu e a Terra”: se você olhava pra ele, o Anteu o pegava pelo braço e lá vinha: “foi assim que começou a doideira do Doutor Hélio Mourão, é. O Doutor leu três vezes a Bíblia e piorou, foi: botou fogo na casa dele, saiu gritando que Deus não existe. Doutor Mourão desmalucou, sim. No princípio criou Deus o Céu e a Terra!”.

Existe uma crença bastante arraigada pelo norte de Minas a afirmar que quem ler a Bíblia inteira perde a razão, o que talvez justifique a estranha história do Anteu – que, aliás, na versão do Infernal, que tomava uma pinga januária ali do lado escutando tudo, aquele era o próprio Doutor Mourão, só que já tinha se esquecido disso. Podia ser verdade, uma vez que apesar de tido e varrido como louco, o Juvenal, Simonal ou Infernal era fonte segura para entender-se os meandros de Cordisburgo; conhecera, por exemplo, o frei Sefronias (descrito como frei Sinfrônio n’ “O recado do morro”, de Rosa), e dele contava sua cruzada contra as prostitutas da região e o hábito de amealhar o dinheiro das beatas em causa própria, descoberto quando de um incêndio na primeira capela de Jesus Menino, onde aliás foi batizado João Guimarães Rosa, em 1908.

Levitação. Uma mulher luminosa num metrô em Paris. Ela está indo trabalhar. Quando o trem pára na estação Châtellet-Les Halles, levanta-se e me sorri o sorriso mais bonito que eu nunca vi.

Lâminas. Assim com os demais, este louco de rua [pois há também os domésticos, a maioria] usa roupas que são a um tempo degradantes e distintas. São em geral ternos a indumentária preferida pelos loucos-novos do Brasil, pós-agrário agora que urbano, mas ainda semi-ágrafo. Ternos que ninguém mais quer; ternos que perderam sua condição original e tornaram-se duos, no caso de paletó e colete ou calça e colete ou calça e paletó, ou somente unos, no caso de qualquer um dos três elementos citados. Porém, em geral campeiam os paletós – escurecidos, amarronzados, esverdeados, acinzentados, amostardados, azulados, envelhecidos, puídos, rotos, rasgados, sujos, com partes faltando: em suma, é como se os paletós tivessem como que sido tomados por uma lepra e desistissem aos poucos de si mesmos, o que era seguido fatalmente por seus ocupantes, soltos corpos pela rua como se pausas em variadas tonalidades na pauta ou versos brancos na página. Assim como seu tecido, seu corte era variado e de diferentes modas, donde o “em pé de pobre todo sapato aperta” surgir aqui para nos fazer companhia, posto que são tão ou mais destituídos de dinheiro quanto de razão os loucos de rua [a condição essencial do doido nos nossos dias é rasgar cédulas]: este o motivo de os malucos andarem sempre fora de moda, ou adiante de seu tempo, ou ao lado, nunca dentro; os de rua nunca estão na verdade nela, aos que nos incluímos como a face luminosa da realidade.

Este louco em particular conheço-o da Vila Madalena, São Paulo, lugar tão pródigo em prodígios da psique quanto Cordisburgo, Minas Gerais, ou Caruaru, Pernambuco. De onde talvez tenha vindo este, que quase sempre está bêbado – o que não desmerece sua invulgar loucura. Quando não está bêbado, está louco, o que para uns talvez dê no mesmo, à diferença de estar um pouco mais inclinado e tranqüilo do que o habitual no primeiro caso e falante e veloz no segundo. E é sempre neste que o invejo. Para loucos, o seu padrão de vestimenta é um pouco mais elegante: nosso amigo dispõe de um raro senso de elegância, que o faz obedecer ao figurino matuto do sertão – qual seja, chapéu claro, paletó claro, camisa e calças claras e alpercatas ou mesmo pés descalços [a palavra claro, aqui, claramente trata-se mais de um esforço de vontade que exatamente uma descrição fiel]. Pois bem: ele, a exemplo do Atravessador, aprecia passar de uma calçada à outra sem olhar para os dois lados, o que faz com que nos espantemos e o quase atropelemos quase sempre. Quando isso acontece, é sua insurreição: ele volta-se por cima do ombro e grita “vagabundos!”, “hipócritas!”. Como deve ser bom para um vagabundo jogar este epíteto sobre outros! Existirá mais doce vingança?

Leilão. Detrás de um banheiro abandonado, ocupado por uma família de sem-teto, surgiu uma menina negra de corpo perfeito, chamando-me sorrindo para o sexo na deserta praia de Atalaia Velha, Aracaju, às duas da tarde, por cinco reais.

Lazer. Ainda com a tese que trata dos ternos que passam de louco para louco, lembremos do Atravessador. Metido em seu escuro terno cosido com a lã do Exército da Salvação [isso mesmo, super fashion], este personagem ostenta longas barbas negras e semblante fervorosamente confuso. Sua doideira consiste em atravessar correndo as avenidas Rebouças, Brasil e Henrique Schaummann, segundos antes do sinal abrir, relogianamente. Assusta-nos e grita.

Devo aqui considerar não poder afirmar com absoluta certeza sobre o período acima, no que tange ao conteúdo e à forma da doideira. Para mim, um leigo motorista congestionado ao sol do meio-dia [algo muito semelhante ao Étranger, de Camus], ele somente é isso, alguém que atravessa a avenida correndo e gritando. Mas o que virá dentro de sua cabeça? Imbuído de quais pensamentos ele pratica tão radical esporte? Em nome de que ele se abandonou, ou foi abandonado, à margem dos velozes automóveis? Como será viver eternamente por um meio-fio? Será ele, o que usa terno de lã do Exército da Salvação, uniforme oposto aos que usam camisas-de-força, o antípoda concreto dos que usam ternos de microfibras presos por cinto de segurança, ou será deles o anjo da guarda? Em que meio-fio conseguiremos demarcar a exata fronteira entre os mundos da calçada e da rua? Ainda acho que o terno do Atravessador terminará num brechó moderno de Pinheiros, sendo cotado por alto preço.

Lua. Loira de cachos finos, olhos violeta-escuros, tatuagens na nuca, no pulso e na saboneteira, sotaque de carioca, pele claríssima, vendedora de bijuterias em uma loja chamada Anéis de Saturno, fã de Pixies, sorriso enorme, passeia pela feira tendo debaixo de um braço um ramalhete de rosas e do outro um pastel de carne.

Lemingue. A monomania, ou obsessão, algo como colecionar borboletas, parece ser o traço dominante para descrever ou identificar alguns loucos, como já foi dito, embora reassalte-se nossa ignorância quanto à perfeita compreensão destes cidadãos de hábitos diferentes [puxando pela via politicamente correta]. O Holandês Voador da Bicicleta era notório por cruzar várias ruas da cidade de Caruaru soltando um grito fininho, irritante, meio de cowboy meio de sioux, meio de mameluco mesmo: arrastava com seu urro geralmente ladeiras íngremes e descidas vertiginosas, sempre pelo meio da rua, invariavelmente sendo escoltado por crianças e cachorros em sua temerária viagem. Chegou a atropelar um amigo meu. Dizem que morreu debaixo das rodas de um ônibus – o que não julgo mais suicídio menos que temer tratar-se de acidente de profissão.

Lapa. A pequena guia Maria Wesllyane, de Bom Jesus, Bahia, levou-me pela mão e derramou água sagrada da fonte oculta sobre minha cabeça.

Leite. Uma senhora em particular me chama a atenção: os da Vila Madalena nela colocaram o pseudônimo de Velha do Rio. Ela tem longos cabelos lisos cor de leite, a Velha do Rio; usa roupas bem-cortadas, completamente surradas, carrega vários sacos de supermercados com suas coisas, suas roupas, seus badulaques, sua casa. Fala desarticuladamente vocábulos refinadíssimos, com a intensidade dos aflitos que capturam as idéias com peneiras de pegar borboleta. Sorri. Densa e longemente ela sorri. E às vezes, no meio deste sorriso de medusa, agarra seus olhos e não larga nunca mais. Por temer tornar-me pedra é que somente consegui encarar seus olhos através de um espelho.
Estava no Bar das Empanadas e dirigia-me ao banheiro masculino quando notei que o feminino estava ocupado porém aberto. Era ela. Dispusera todas as suas coisas à roda da infecta pia, sabonetes, toalhinhas, escovas, pentes, presilhas, bijuterias, estojos de maquiagem, como se real toucador, burguês picichê ou requintada penteadeira aquele sujo lavabo fosse. Então parei à porta, encantado com a cena: a Velha do Rio passeando pelos longos cabelos brancos uma escova dourada. Sorria para si mesma, fascinada. E então, os olhos desta obscura mãe de cavalos alados me tocaram.
Neles, não havia nada. Ou não haveria nada em mim?

Leão. Alma, alta e loira, sorriso e olhos estranhos, à beira da loucura, bunda pequena e seios belíssimos, Rimbaud, Doors e maracatu, me pede pelo amor de Deus mais um copo de vinho, só mais um.

Licantropia. Existe, em ruas próximas à estação Lapa de Baixo, um louco que passa os dias a andar pra lá e pra cá murmurando coisas como “eu quero que ela vá pro inferno!”. Usa camisetas que estampam propagandas políticas, em geral de candidatos governistas. Penso que ele deve ter aflição por pêlos pois sempre raspa a cabeça e fica passando de leve os dedos pelo couro cabeludo, como a certificar-se de que está mesmo careca. Por isso mesmo, paradoxalmente carrega o apelido, dado pelos taxistas e perueiros que infestam a área, de Cabelo. Ultimamente tenho visto a acompanhá-lo o Neguinho, rapaz jovem, de compleição nada frágil, inalterável vestido com uma calça jeans, botas rasgadas, camiseta preta e jaqueta de plástico preta, a catar piolhos eternamente sorrindo, a catar bitucas eternamente chorando, sem nunca ambicionar qualquer trocado dos passantes da estação Lapa de Baixo. Tem os olhos mais tristes, ou nostálgicos, que já vi. Parece tomado por uma saudade quase que completamente – saudade que não parece ausente nos murmúrios do Cabelo.

Desde que coloquei o olho nos dois, notei, com alguma preocupação, um súbito aumento no número de cachorros que invadiram as ruas da antiga vila inglesa que margina a estação – comum notá-los, no entanto, à noite, quando saía do trabalho; de manhã e de tarde, eram o Cabelo e o Neguinho que meus olhos-de-carrocinha caçavam. No verão, em noites de lua cheia, pude constatar uma certa mudança nos ares e gingares de algumas moças que passavam pelas ruas da Lapa.

Lente. A sombra de Bonita – olhos verdes gigantes, tatuagem perto da bunda e piercing no umbigo, seios pequenos, senso de humor, forró, moda e Björk – escovava os dentes de Bonita na parede do corredor do Divan.

Limbo. Muitos devem conhecer o famoso Piauí, um dos loucos-símbolos da USP. Conheci-o quando, em seu segundo ano de História – contrariamente aos que defendem a tese de que ele cursava Filosofia – dera para fazer discursos à frente da lanchonete. Não parecia de Piauí, pelo sotaque paulistano carregado; nunca atinei com a razão de seu nome de guerra. De saída, de sua tribuna imaginária, ele mostrava apreço a idéias – o evolucionismo de Darwin, o amor solidário de Cristo, a ciência transcendente de Einstein, o horror visionário de Hitler. No terceiro ano, flagrei-o já em plena metamorfose: de continente, ele passava a próprio conteúdo – ele era as personalidades. Mahatma Gandhi às segundas, Karl Marx às terças, Albert Einstein às quartas, Platão às quintas, Sigmund Freud às sextas. Chegou a fazer um certo sucesso: presenciei-o ser aplaudido muitas ocasiões. Às vezes culminava seu discurso com um apocalíptico “está chegando!”. Quando notava alguém rindo, rodeava as cadeiras e mesas velozmente, dançando sobre um pé só. Nesta época, ainda tinha um emprego fixo – vendia livros num dos sebos. Inseparável de seu casaco preto e seus óculos redondos, marcas registradas [uma das lentes estava pintada com uma espiral vermelha] – talvez por causa mesmo do casaco tenha sido preso. Ele saía da biblioteca da Letras quando foi abordado pela curiosidade do bibliotecário: sob o casacão, estranha vestimenta num verão absurdamente quente, descobriu-se uma Divina Comédia em italiano [uma das jóias da Letras], um preservadíssimo Capital e um obscuro Tratado da Apropriação Indébita. Encontraram em seu armário vários livros roubados da biblioteca, com o carimbo da USP pintado furiosamente de preto.

Encaminhado a uma clínica, dela saiu um ano depois. Já propunha-se em uma fase mais elevada: de sua boca, explodiam verdadeiros debates metafísicos entre Goebbels e Freud, Jesus e Nietzsche, ou mesmo a várias vozes, como a inesquecível briga que travaram em seu espírito Sócrates, Sartre e Fernando Henrique Cardoso. Recolhido novamente – estava ficando muito violento, despejando cerveja nos estudantes – voltou há dois anos [já não estuda há três]: reduzido a um estágio onomatopaico, gira grunhindo em volta das mesas e cadeiras fervilhadas de professores e alunos, que às vezes lhe oferecem um cigarro. O que virá depois?

LSD. Amapola, que fala alemão, atriz do Antunes, Cowboy Junkies, miúda quase anjo, piadas diabólicas, cabelos finíssimos e drogas em excesso, num bar da Vila Madalena contava-me uma história de Cortázar na verdade escrita por Borges.

Lógica. Uma família que conheci na Casa Verde: eles se reúnem todo domingo, à hora da ave-maria, para escutar um LP do Ary Toledo. Pai, mãe e casal de filhos escutam laboriosamente os dois lados do LP, que totalizam 40 minutos de piada na voz calorosa do humorista, totalmente em silêncio. Terminada a audição, retornam aos afazeres habituais do domingo. Isso tem acontecido todo domingo, religiosamente às seis horas da tarde, há muitos e muitos anos – continuarão fazendo isso até que morram, ou que o disco risque, trisque, quebre, ou a luz termine.

Literaturas. Daniela, nariz um pouco grande e delgado, levemente suspenso na metade do caminho, adornando boca de lábios longos e finos, no rosto duro, traços angulosos – talvez russos ou poloneses ou ciganos –, olhos azuis que mudam de tamanho e cor dependendo do humor do céu, debaixo de cílios que levitam em nossa direção, testa alta, pele de sulfite, cabelos lisos castanhos, atenta ao professor como se este fosse uma divindade. Mas, na verdade, ela mesma era divinal e não sabia – o que afinal é próprio a seres que habitam as alturas.

Laços. Em Caruaru, Bombinha e sua mulher Mudinha. O homem mais elegante da cidade, estilo Waldick Soriano, chapelão branco e gigantescos óculos escuros, Bombinha carrega sua mulher, vinte anos mais velha – ele tem uns 60 – pelas ruas: ela, flores nas mãos, de pé numa plataforma com rodinhas, ele puxando o carrinho por uma corda. Presas à plataforma, latinhas de refrigerante e cerveja amarradas por barbantinhos vinham batendo e anunciando vossa passagem. Às vezes as crianças jogavam arroz sobre eles. Vivem há décadas do dinheiro que as pessoas oferecem. Uma vez Bombinha ficou bêbado, deitou falação ao mundo, gritou e tirou a roupa, veio a polícia e caiu em cima de porrada; o delegado ficou sabendo e mandou todo mundo em cana – Bombinha ganhou terno novo e muitas desculpas. Sei lá por que tinha esse apelido: já era assim quando vi os dois. Necessário muitíssimo respeito. Em Caruaru fossem dois santos. Mudinha sempre vestida de noiva, tiaras de mandacarus, estrelas nos véus, anáguas aparecendo. Bombinha não desgruda dela, da cartola e da bengala, anônimo capitalista – acha Mudinha a mulher mais linda do mundo. Se era bonita? Ele era doido, ôxi. Bombinha passa os dias limpando religiosamente as lentes de seus óculos, para que muito raramente se vejam seus olhos lisos, blasés. Cordial, cumprimenta ao povo tirando a cartola, nunca pede esmola. Parece que aceita dinheiro e comida por piedade aos outros – superior que é. Só ele entende o que ela grunhe, só ela entende o que ele fala.

Outra vez foram convidados para uma comemoração de um sujeito rico, em Recife. O sujeito gostava tanto dos dois que mandou-os virem para a festa de debutante de sua filha. Ficaram hospedados num hotel na praia de Boa Viagem. Dia seguinte, a atração local: Mudinha na praia chegava muito perto do mar; Bombinha lhe dava broncas, “queres morrer, é, galega?” O povo na praia parou pra ver e rir dos dois doidos. Gargalhavam com Bombinha cuidando de Mudinha feito ela sua neta-avozinha. Só eu não ria, só num canto da praia, porque tinha respeito – em Caruaru rir deles era a mesma coisa que fazer malcriação. Ficava olhando pros dois e pensava que era uma fuleiragem rir, feito ver uma rapariga cega de perna aberta.

Antes de dormir, sempre imagino príncipe Bombinha levando Mudinha, ereta e altaneira como rainha, para passear. Eles dois não eram um casal: eram sim uma procissão, uma prece; delicados feito flores e vento. Só lembrando deles é que consigo dormir.

Latim. À beira da Linha Verde, litoral de Alagoas, uma garotinha me deu uma bronca ao ver que eu não sabia abrir um buraco em um coco; olhando-me dura nos olhos, empunhando o facão do pai – que devia estar bebendo e que não tinha dinheiro para colocá-la na escola [o sonho da menina era ser escritora, segundo me confidenciou depois] –, ela cortou o coco de um só golpe.

Luz. Tem também aquele maluco da estação Luz do metrô. Um velho pedinte que usa um paletó de couro e um gorro de lã na cabeça que só lhe deixa à mostra os olhos muito azuis e penetrantes e um nariz bastante adunco. Sempre que o vejo, penso que hoje é dia de seu aniversário. Tem cuidados extremos com a vaidade, como o atesta seu paletó brilhante como se para um baile estivesse vestido – na lapela, um lírio, um cravo, às vezes uma avenca. Não morará ali na plataforma, contudo é sempre ali que o encontro, pois nem mesmo em nenhuma outra estação o vi. Ele passeia por entre as pessoas que entram e saem, estica a mão precisamente para uma, olha fixo-azul para seus olhos e pede um trocado sem falar nada. Escolhe as pessoas como se as pescasse, não parece às cegas: tem intenções determinadas para com um alguém especial entre todos, como se existisse um contrato previamente estabelecido entre o pedinte e o benfeitor, ainda que este recuse-se a conceder a paga. A estação fica no bairro da Luz, uma das regiões mais degradadas de São Paulo, em cuja geografia recortam-se as fronteiras da Cracolândia, sede mundial de menores e maiores viciados em crack. Por este motivo, os alto-falantes bradam, a intervalos conseqüentes às paradas do trem: “não dê esmolas! Não estimule a mendicância!” Algumas pessoas acreditam nessa voz, outras não. E é delas que Luz – vamos nomeá-lo assim – recebe suas moedinhas, para comprar sabe-se lá o quê. Já peguei-o várias ocasiões assoprando uma língua de sogra. Já o vi diversas vezes dançando, levando invisível dama pela plataforma vazia, lentamente, cadenciado, rodopiando perigosamente com os olhos fechados à beira da linha. Talvez, ao contrário do que me ocorria, ele não morará nas imediações da estação, mas sim dentro dela própria. Mesmo na própria plataforma. Pois talvez ele somente more ali para meus olhos, toda vez que vou à estação da Luz, observando o trem do metrô como um rio, que lhe trará benesses ou a seca, ou a cheia, nos intervalos da festa para a dança. Pois é este trem o rio que corre por sua aldeia, e sua aldeia é o mundo. Em sua absoluta solidão de aniversariante – afirmaria mesmo, por trás de seus olhos frios, encontrar uma compaixão pelos outros seres solitários da grande barca que atravessa esse rio, que desaguará em outros, e quem sabe chegue a algum oceano, ou banhe algum seco solo.

Mas o importante é cuidar daquele porto, e daquele rio específico, que, idêntico a si mesmo sempre, jamais banhará duas vezes a mesma pessoa. Então o tempo de Luz é o tempo do rio. E uma vez que é eterno, todo dia é dia de seu aniversário. Ele é o rio – o rio que faz aniversário, solitariamente leito, lápide e lâmpada.

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Outono, 1998.

Escrito por faker

Fevereiro 23, 2008 às 3:48 pm

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