Invisível
Para Joana, quase
Quando eu era pequeno eu tinha um amigo invisível. Você sabe, por volta de uns cinco anos, quando já se aprendeu a falar a gente já consegue inventar ou contar uma história, coisa comum a crianças dessa idade, e o meu amigo se chamava Sandiliche. Engraçado, não é? Acho que era porque a gente só comia sanduíche nessa época; pelo menos é o que minha mãe diz como explicação para esse nome esdrúxulo. Eu falo da minha mãe porque ela é quem me conta muitas histórias do tempo que eu era menino. Coisas de que a gente nem se lembra mais. Assim, eu vou me recordando do Sandiliche pelo pouco que ficou de restos de sua figura invisível na minha memória, além do que minha mãe me conta, divertida, talvez aumentando um pouco aqui, eu subtraindo ali, até formar a pessoa desse amigo que eu tinha, o único, pois morava num prédio e as outras crianças me olhavam como se eu fosse um estranho.
Mas eu nem ligava, porque Sandiliche e eu éramos inseparáveis e explorávamos todo dia os arredores do edifício: os jardins, os corredores, os elevadores, as escadas, as garagens, os brinquedos da área de lazer. Eu e meu amigo, por exemplo, ficávamos horas na gangorra, eu aqui e ele ali, aí bem na distância que você está de mim, subindo e descendo. Quando anoitecia, era a hora de voltar pra casa, eu chegava contando para minha mãe hoje o Sandiliche me disse que vai viajar pros Estados Unidos, ou então hoje ele disse que não vai mais porque ia se sentir sem graça não tendo companhia, ou então hoje o Sandiliche ganhou um carrinho com controle remoto do pai dele mas não quer me mostrar porque tem medo que eu quebre, olha só, mãe, isso é coisa que um amigo diga? Minha mãe ria e falava que era assim mesmo: quando a gente ganha um presente não quer dividir com ninguém; depois, quando enjoa, a gente brinca junto e é até mais divertido. Lembro que me irritei tremendamente com isso, como é que pode um amigo nosso só querer emprestar um brinquedo quando está cansado dele? Tão furioso fiquei que acabei brigando com meu amigo. Ele não entendeu bem, mas deixei de descer durante uma semana, de tanto ódio. Um dia, voltando da escola, encontrei-o sentado no cavalo de balanço e ele, com aquele jeitão de sempre, olhando de lado, feito eu não fosse grande coisa, porém um sorriso se entrevendo em sua cara bonita, mexendo no cabelo encaracolado, metido arrumado dentro do uniforme azul, eu desengonçado em meu uniforme marrom. Ele me chamou, riu, e disse que o brinquedo era uma droga, que o pai tinha sido um idiota de dar pra ele um brinquedo tão ridículo como era o carrinho de controle remoto, muito mais legal era brincar comigo. Aí foi que fizemos as pazes apertando as mãos como fazem os grandes cavalheiros, os grandes amigos, e fomos brincar de cientista.
Eu tinha um microscópio mas era sempre o ele quem descobria os usos mais bacanas – enxergar o olho de uma formiga, a parte de dentro de uma minhoca, a asa multicolorida da borboleta, e desde essa reconciliação não tivemos outro problema. Até que Sandiliche veio com uma história de uma menina da escola dele chamada Juliette, que era bonita, de olhos verdes e cabelos pretos lisos lisos, quase até a bunda, que era francesa e rica e coisa e tal. No início achei interessante, ficava imaginando como seria a menina, perguntava dela e ele me dava detalhes entusiasmados. Daí comecei a achar tudo muito chato, o Sandiliche não queria brincar, só ficava falando dela! Um saco mesmo, cheguei a reclamar com minha mãe. E ela riu como da outra vez, falando que na vida é assim mesmo, a gente passa a gostar de uma pessoa e só consegue pensar nisso, mas depois passa, perde a graça e os amigos se cruzam de novo, o outro até reclamando da menina por quem foi apaixonado. Isso me tranqüilizou, eu agora conseguia agüentar a conversa fiada do meu amigo porque sabia, lá no fundo, que aquilo não ia terminar bem e que a gente voltaria a ter a amizade de antes, amigo de brincar direito e não só ficar falando de paixão.
Essa certeza eu nunca falei para o Sandiliche, o que me fazia muito superior a ele. E quando ele ficava lá, todo se sentindo o sentimental dos suspiros, eu não levava a sério, ria por dentro e inventava as brincadeiras mais inconseqüentes só para irritá-lo [como dar nó no rabo de um gato que zanzava por ali, ou furar o pneu de algum automóvel do prédio, ou dar trote pelo interfone do elevador]. Daí ele ria e gargalhava porque era o tipo de sacanagem que ele fazia antes de conhecer a Juliette e virar um romântico. Tanto eu fiz pra chamar sua atenção que fizeram uma sindicância no prédio e meus pais receberam uma multa: minha mãe brigou comigo e não queria saber de minha explicação de que o Sandiliche estava impossível assim por causa da Juliette. O pior aconteceu quando um dia, perto do Natal, meu amigo ficou sabendo que a menina ia lá no nosso prédio visitar um tio e quis impressioná-la com uma brincadeira bem grandiosa, feito um presente, só pra que ela visse como ele era o bom. O que ele fez eu fiquei sabendo só depois: ele deu um curto-circuito na instalação de lâmpadas na árvore de Natal do nosso condomínio, fazendo a árvore pegar fogo e provocar um incêndio em todo o jardim, quase queimando umas crianças que estavam ali perto. Isso foi demais! Quando eu cheguei da escola já estava tudo em pleno fogaréu. Era lindo ver aquelas chamas comendo os jardins e a árvore, até gasolina o Sandiliche botou na instalação para que a fogueira ficasse bem viva e impressionasse Juliette – o problema é que quem acabou se impressionando foi ele mesmo, que sofreu uma queimadura de uma lado do rosto, de leve, que deixou no entanto uma marca bem feia. Nisso, apareceu polícia e bombeiros e o diabo, a maior confusão, tão grande que o Sandiliche só desceu para brincar comigo depois do Ano Novo. Com um curativo enorme na cara, muito chateado, dizia que por causa do incêndio teria de mudar de prédio, ir para uma escola de crianças diferentes, como a mãe disse. Aquele seria o último dia em que nos veríamos. Mas antes que ele se fosse queria me dar um presente: era o controle remoto do carrinho que tinha ganho do pai, o carrinho não me dava pois era pra me a gente continuasse ligado. E eu chorei, e quis também lhe dar um presente – a lente do microscópio em que víamos as formações moleculares do nosso cuspe e do nosso sangue, só a lente. Ele chorou também, até molhar o uniforme azul. Então apertamos as mãos como grandes cavalheiros, grandes amigos, e cada um foi para sua casa. Eu não saía do quarto, minha mãe vinha me encontrar em lágrimas com o controle remoto na mão; decidiu que me faria bem mudar de escola, outros ares, até mesmo nos mudamos de bairro – e nunca mais vi o Sandiliche, somente de vez em quando sonhava com ele, sentado sobre o branco cavalo-balanço, ou então grande e terrível tacando fogo nas árvores de Natal da cidade, ou então tendo os cabelos acarinhados pela menina que ao mesmo tempo ria de mim.
Tempos depois, mudei-me de cidade, fui crescendo, ficando mais velho até ficar velho, e esqueci do meu amigo invisível, só me lembrando quando vou visitar minha mãe e ela me fala do tempo em que eu era pequeno. Mas é raro eu visitar minha mãe, agora que me formei e saí de casa e tive amigos e namoradas e me casei, por coincidência com uma francesa chamada Juliette, engraçado, não é? Também tive filhos e eles cresceram, tanto que eu e ela ficamos sós e nos mudamos para outra casa. Foi justamente nesta mudança que encontrei toda essa lembrança de meu amigo invisível que estou te contando, e vim para cá pensando nele: se ele, por exemplo, ao sair de sua escola invisível fosse para outra cidade invisível, e crescesse invisível e tivesse outros amigos e amores invisíveis e esbarrasse um dia com um presente dado por um amigo aí sim visível, o que o faria tornar-se também visível e sair triste de casa, sua casa a lhe prender com transparentes tarefas cotidianas, e viesse caminhando, segurando com cuidado o presente, e tentasse esquecer de sua vida bebendo e lembrando a uma outra pessoa, desconhecida, a sua história escondida, e depois de vários sanduíches e copos no balcão se pusesse a acariciar a própria face com o brinquedo, um simples controle remoto velho no fio de uma quase oculta cicatriz, e olhando do outro lado seu interlocutor sorrisse lembrando-se de que, depois que dera a seu amigo invisível uma invisível lente de microscópio, ele jamais pudera ver-se de novo, e nunca mais fora o mesmo.
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Primavera, 1995.