História em cicatrizes
Para os Brescianni, Bresciani, Bressani, Bressane…
Avelino vela o touro. O miúra mira Avelino. Olhos azuis diminutos versus grossos olhos pretos. A arena é uma clareira em meio a uma mata cerrada, território de onças, fogos-fátuos e mulas-sem-cabeça; dois ou três capiaus formam a platéia. Ereto ao centro, o homem mostra o queixo quadrado de soberba, um bigode escorrendo negro-brilhoso semicircularmente pelos cantos da boca; no céu, em meio-dia ofusca o sol; a dez metros, o touro negro abaixa a enorme cabeça exibindo orgulhoso seus raios lunares. Num desejo de ajudar Avelino, a assistência movimenta-se, nervosamente. Sem olhá-los, Avelino sobe o braço esquerdo perpendicular, como que afastando-os; volta-o à cintura, onde, enrolada, está a corda, laço já preparado. O touro bufa. Sob o chapéu, o couro cabeludo de Avelino eriça-se e se irrita pelo calor; empelotada de suor é a aberta planície de sua testa.
Do outro lado da cintura está o Smith & Wesson calibre 38. Soerguendo-se nas patas traseiras, o touro, que recém abandonara sua condição de novilho, inclina ainda mais o pescoço para baixo, olhos alteados; e resvala duro no chão seco uma pata à frente. Avelino decide desprezar a corda: ergue os braços feito portasse uma capa; mas então, lentamente, estrala os dedos, assopra as unhas, e suas mãos tomam a curvatura dos chifres. Ele sorri para o touro. Como num convite para uma dança.
Novamente, o touro bufa. Avelino sente todos os músculos do corpo tensos. Arregalam os olhos, os capiaus. Ouve-se um sussurro: – vem! O touro bufa. Grande. Os dentes de Avelino refletem o sol.
Cicatrizes são uma forma de escrita, e, portanto, de mentira. Dizer cicatriz é pronunciar sangue estancado, acicate sem fio, bissetriz da memória. Cicatrizes rasgam a história de um corpo em dois: antes e após. São como rios na densa geografia de uma pele – vertem narrativas.
Encurralar esse touro foi uma dificuldade. Escapara da fazenda dos Garcia e desatinado desembestara pela viela do Ferrabrás. Um corisco preto, sem eira nem beira por aí, que perigo. O jipe de Avelino teve de ser abandonado no caminho, pois um pneu furou e o homem quase rolou uma pirambeira. Ele ia ficar a pé, não fosse o auxílio duns matutos que deambulavam por ali, os três num só cavalo, muito pangareado, aliás. Vendo-lhe a autoridade no fio do bigode, os três coitados desencavalaram-se e Avelino subiu na montaria, a qual, desacostumada a chutes no ventre, pôs-se a galopar doida feito nunca. E o touro já se fez visível no horizonte de ipês-roxos e flamboyants.
O sol ardia. Avelino possesso com o bicho fugindo ao controle. Gritava com o cavalo, gritava com o touro; atrás, as três sombras o acompanham correndo, temerosos com o patrimônio. Um cansou-se, ao ver que o touro entrava numa picada, e parou. O homem raivoso sobre o baio catou de um facão na cintura e tirava faísca dos troncos das árvores, tanto se espantava: mas que bicho é esse que corre tanto assim? A-la-pucha! A floresta fechando-se, úmida e fria, num labirinto, o cavalo se esfarrapando, Avelino saltou. Começou a seguir o touro pelo barulho das patas e da respiração, lembrando preocupado da natureza dos miúras de levar seu perseguidor para caminhos fechados – como florestas e desfiladeiros–, para daí o surpreender com seus cornos cruciais. Por um segundo temeu que o frio na testa fosse medo; afastou a hipótese como se mata uma mosca. E de repente encontrou-se numa aberta clareira de uns vinte metros de diâmetro, com árvores circulando altas o terreno. Tudo ficava muito escuro. E tudo muito claro: do outro lado, o touro a fazer-lhe sala. Avelino cuspiu a exclamação, para assombro dos dois ou três capiaus: – cazzo-al-culo! Vou te derrubar na unha, seu filho duma putana.
O menino, que – sem querer – pegou a mãe desprevenida saindo do banho, deu de olhos com a cicatriz grosseira, em meio-círculo, formadas por inúmeros ziguezagues feito um zíper curvo, e sonhou com a lua crescente. Na manhã seguinte teve febre e não foi à escola. Cercado de mimos da mãe nos cabelos finos, perguntou qual o motivo do rabisco na barriga. Uma facada? A mãe riu-se:
– Não, filho. Foi quando eu tive você: fizeram um corte na barriga e você saiu por ali. Aí, ficou a cicatriz. – E desta maneira o menino aprendeu o que queria dizer a palavra.
Um tempo mais tarde, os olhos perdidos na trama da novela, a mãe tinha suas mãos nas do filho, que brincava de ler o destino, um livro mágico aberto ao lado. Deparou-se com duas linhas finíssimas que não estavam no mapa do livro-guia – estavam cada uma em cada pulso. Riscos sem explicação: o que eram?
– Depois eu conto – a voz da mãe saía sinuosa e lisa. – Agora estou vendo a novela.
Após a novela a mãe foi cuidar da janta do pai, que somente chegaria às três da manhã, falando alto e trazendo um estranho cheiro para casa. O menino caiu no sono e lá embaixo sonhou com a lua crescente, polida como se a tivesse cortado uma espada, como se fosse a própria espada. Acordou com febre. Mas foi à escola, pois gostava da aula de educação física.
Um miúra reprodutor nomeado Paz E Sossego pelos peões da fazenda [paz e sossego eram cada um dos testículos], o touro formava parte do dote do casamento de Avelino com Francisca. Um espanhol escuro, de secos modos, magro falar – o futuro sogro -, Dom Ernestino, como era chamado, queria ver se era mesmo verdade que Avelino tinha aquela habilidade no laceio, e se era macho de, como falavam, pegar um monstro desses.
– Não vou desapontar o senhor – foi a voz que escapou do peito de Avelino, garboso sob a camisa impavidamente branca. O miúra urrava, escoiceava e arremetia contra as grades do cercado de onde saía apenas para a paz e o sossego de quantas se dispusessem a esposá-lo. Comentários surgiam, de um que outro matuto, de que era preciso cortar-lhe sem demora os bagos: senão nasceria um assassino, de seu couro um verdadeiro belzebu. Suas patas já haviam feito cascalho das costelas de um desavisado que resolvera montá-lo; imagine o que seus chifres não poderiam realizar.
– Como é, carcamano? – os olhos do espanhol brilhavam. Por seu lado, a pequena Francisca, versão feminina do pai, espiava o terço. Ambos sentavam-se sobre um tronco derrubado, de fora das cercas.
No estábulo, morrendo de calor, relinchavam os cavalos. Avelino cofiava o bigode e sorria. Pegou a corda, pulou de cima da cerca e andou cinco passos. Dom Ernestino levantou-se, sério, deu a volta na cerca A filha permanecia metida dentro do vestido de algodão branco que descia até seus tornozelos; recebeu um olhar de Avelino, mas a reza dominava seu rosto de cima para baixo. Nas mãos do homem de olhos azuis desenhou-se um laço perfeito. O espanhol gritou: – vai! – e soltou o touro.
Inversamente, o touro nem trelou para Avelino: pegou a esquerda e disparou pra cima de uma cerca de pau d’arco, que, sentia-se, estava um pouco solta. E galopando, virado cavalo, desaparecendo-se.
Os dois homens o contemplavam inertes quando Francisca levantou-se, assombração branca sob o sol de esporas:
– A última vez que ele fugiu, foi pras bandas do Ferrabrás. – Então Avelino nem esperou explicação: pulou para o jipe e colocou-se a caminho. Imerso na poeira levantada pelo touro, que lhe dourava as faces, e observando pelo retrovisor a maligna e dura expressão do casal pai e filha, parados os dois, teve a impressão de que aquilo não podia estar acontecendo com ele, era como se fosse um sonho.
São, sobretudo, bem-vindas as cicatrizes: pois ninguém planeja passar a vida com uma ferida a céu aberto. Dividem as pessoas, esses riscos que avançam a epiderme; por vezes são horrorosos e nojentos; outras, atraentes e charmosos: tombos de bicicleta transformam-se em heróicas lutas contra o garoto mais forte da rua. As cicatrizes ensinam, atemorizam e prevêem. Para um masoquista, a cicatriz proveniente de uma escarificação voluntária constitui-se numa nova zona erógena. Para um lutador, quanto maior o número de cicatrizes maior a qualidade do orgulho por sua coragem; pois, se é verdade que o que não mata deixa mais forte, quanto maior a quantidade de aberturas no corpo maior a confiança em crê-lo fechado.
Ser noivo era algo em que Avelino jamais havia pensado. Casar! Dizia aos amigos que era o mesmo que trocar ferros com alguém quando vai a lua nova. Uma parvoíce, uma estultice. Exemplos não faltavam.
A mulher do Abreu, pega pela mulher do Ambrósio, na cama do Ambrósio, toda arreganhada com o referido sujeito. Pensou-se em prendê-la por adultério, mas lá se foi o chifrudo Abreu sussurrar ao xerife um perdão de Cristo.
– Desta água não bebo nem que me afoguem – e Avelino virou mais um copo de pinga, ensolarado pelas risadas dos companheiros e pelas zombeteiras modas de viola.
O Dimas do açougue era outro disgramado. Embora fosse ele quem desse em cima das freguesas – e volta e meia levava uma zinha pro abate, no mato do Ferrabrás -, isso até se desculpava, em virtude da sordidez desmilingüida de sua mulherzinha Raquel. Mas era um tal de boquejar pras vizinhas que o marido isso e aquilo, que os cotovelos da mulher já estavam até cascudos de tanto esfregar no parapeito da janela; a casa, ficando pras baratas e os filhos, pro beleléu – ela só se preocupava em arranjar assunto fiado. E o sonso, de remorso por sua safadeza, procurando se mascarar com boa figura, cobria-a de rendas e jóias e vestidos que não podia comprar. Sua culpa, sua multa. Onde começava um vício e onde se enfiava o outro?
– O homem nasce, cresce, amadurece, fica bobo e casa – Avelino estalou a língua noutra branquinha. – Eu, em mim, ninguém põe arreio.
– Mas ô Arvelino – atalhou o da viola, sem aquietar os dedos – e filhos?
– A-la-pucha! Disso o mundo já deve de estar cheio. Digo por mim. Quem é que precisa casar pra isso?
– Ah, mas vem me dizer, se fosse a espanholinha dos Garcia, que eu já vi vosmecê botar olho comprido…
Avelino sombreou a cara.
– Quem bota alguma coisa é galinha e olho comprido quem tem é cachorro. – O homem de bigode molhado de pinga e limão pôs-se de pé. – E eu não tenho cara de galinha nem de cachorro. Ou tenho? – O violão emudeceu; os amigos arregalados. Colocou o chapéu branco na cabeça, uns cobres no balcão e os pés na rua. – Vamos é cuidar da vida. Boas tardes!
Enfiado nas botas que lhe iam até os joelhos, mais semelhava um soldado de maus coturnos, rosto duro. Entanto, irritava-o esse conversê assim da Francisca, como se tivesse se engraçado por ela. Ouvira já um diz-que-disse por aí. O que não dava graça nenhuma. Era um homem independente, ora, e gostava disso. Mulher tinha em penca. Sem falar nos irmãos menores, a orientar. Certo, distribuía um afeto pela moça, mas daí a… O povo tira mais coisa do nada que minhoca tem na terra, pensava, indo à direção de seu posto de gasolina. Metia as mãos no bolso, tal menino que quer ocultar-se do castigo da palmatória, mas o caso é que estava enrabichado pela fulaninha andaluza. Tentou que tentou mudar o rumo dessa prosa, não adiantou: volta e meia, os dois papeando no portão da fazenda. Tudo por causa do raio daquele entrevero, num arrasta-pé meses atrás. Lembrava nitidamente do dia, desde o primeiro sol.
Despedira-se de sua mãe, dona Umbelina, e seu café aromoso, e, jipe na estrada, dirigiu-se para o posto, único existente na cidade de Lavínia. Município também chamado de Lá-foi, tamanho era pequena: se se desse um grito do começo da avenida, dava pra pegá-lo lá no final. Pois Avelino era proprietário desta importante posição, por direito e por sangue. O direito vinha da labuta; o sangue, de Seu Giovanni, italiano de Brescia, temido por seu temperamento colérico mas adorado pelas infusões e chás de raízes que preparava e, contava-se, curavam até a doença sagrada. Mais que um curandeiro, um verdadeiro santo. E transmitira sua força ao primogênito, a quem batizara em homenagem a uma montanha coberta por aveleiras, o Monte Avellino. Firme feito uma montanha serás, falara o homem, soerguendo seu primeiro filho no Brasil; dez anos depois, morreu. A viúva, dona Umbelina, foi cuidando do porto até o mais velho tomar conta e risco, e por intrepidez acabou virando dono de boteco, venda, posto, armazém e botica. Com tal arraigado capitalismo, Avelino foi eleito pelo alcaide local o xerife, e lhe deram um revólver, o Smith & Wesson 38 que conduzia reluzente na cintura, e que jamais tivera o gatilho apertado – até a noite deste dia.
– Dia – Tião, velhinho que cuidava do posto, levou a mão à pala do chapéu de palha, em resposta. Avelino olhou o homem ali acocorado, devaneando à espera que algum carro aparecesse, e teve uma idéia:
– Ô Tião, o pessoal da Esso me mandou uma carta lá da capital.
– É? – mascou o matuto.
– Parece que eles querem o posto pintadinho de azul, não de amarelo.
– É, é?
– É, sim, pois é. E ordens é ordens. Toca a pegar os latões de azul lá do armazém. E me pinta bem bonitinho, ouviu?
– É. É sim – o velhinho cuspiu fora o fumo. Por engano, haviam entregue um carregamento cinco vezes maior que o pedido, e Avelino não sabia mais o que fazer das tintas: já oferecera à igreja, espalhara uma multidão de mãos na própria casa – e os latões sempre lá, sobrando. Não era homem de catar trocado em pulga, portanto acreditava mui exorbitantemente na exuberância do esbanjamento. E escarrapachou-se numa cadeira de balanço, espiando o trabalho do outro.
Já era hora da sesta quando Avelino acordou com diversa idéia. Sabia de uma festa que ia suceder na fazenda dos Garcia, de noite, e pensou que seria interessante pregar uma peça naquele espanholzinho pernóstico. Mais interessante era vingar-se do motorista-capataz dele, que sempre ia abastecer a caminhonete na vizinha cidade de Lins, em vez de em seu posto. Levantou-se, entrou na lojinha do posto, bocejando, e ligou para a telefonista.
– Meu bom Arvelino, tanto tempo a gente não se vê…
– Pois é, dona moça… as obrigações, não é, o posto, o armazém…
Dona Eustácia, a telefonista, viúva de sardas no nariz e no colo, respeitabilíssima, tida e havida como a discrição em pessoa, fora tempos atrás exímia freqüentadora do Ferrabrás. Junto de Avelino.
– O telefone dos Garcia, diga, qual é?
Desfeito o contato com a viúva quase alegre, Avelino chamou à voz o capataz Ernâni, pondo um lenço no bocal do aparelho:
– É o motorista de dom Ernestino? Aqui é o seu Manolo. Sim, seu Ernâni. Olha, eu quero que você faça uma coisa pra mim. É uma surpresa para o dom Ernestino, e eu não queria que ele soubesse que fui eu que mandei… Você não quer vir até aqui buscar esse embrulho?
– Vou, sim senhor.
– Só que tem um porém, seu Ernâni: é uma coisa tão delicada, mas tão preciosa, que se o senhor vier de carro ou de cavalo tenho certeza que vai quebrar. Dá pro senhor vir a pé? Está no posto, com o Tião, eu deixei lá ontem.
– A pé?
– Eu tô falando espanhol?
– Não, seu Manolo, mas é que…
– Ele ia ficar tão triste se eu não desse, seu Ernâni… se ele descobre, nem sei o que pode fazer: é tão esquentado…
Dobrado por este argumento, o capataz disse que logo viria buscar, e desligou. A distância entre a fazenda de dom Ernestino e o posto Lavínia era de quarenta quilômetros.
– Tião? Tá vendo aquelas pedras ali? Aquela corda lá? Essa caixinha aí? Esse papel aqui? Você me faça o seguinte…
Deu três e meia e Avelino decidiu ir até o armazém, depois até a botica, conferir os negócios. À noite, iria ao boteco ver os amigos e de lá, quem sabe, para a festa. Antes, passou em casa, para um banho. Dona Umbelina começou:
– Figlio, você já com 27 anos e senza u’a donna…
– E quem é que vai cuidar de você, mamma?
A discussão parava sempre por aí. Já perfumado, Avelino deitou-se na rede, preparando-se para a noite. Muito ativo toda a vida, após ter sido promovido a xerife Avelino dera para filosofices de balanço, rede e colchão. Não exatamente um come-e-dorme, Avelino aquietara o braçal, para espicaçar o íntimo. Alguma coisa incomodava. Uma sensação de quebra, ele não sabia o que era. Talvez tivesse relação com Francisca, talvez fosse só o tédio das coisas sempre iguais: os negócios, a família, a cidade. Então, solucionava pasmaceiramente o inquietar com os amigos e os irmãos e as conversas e piadas que iam até bem cedo. Levar a vida, leve. Lembrando-se da brincadeira que fizera com Ernâni, pensou numa coisa que poderia ser o tema da prosa mais tarde: – metade das pessoas no mundo passa a vida carregando uma pesada caixa pra lá e pra cá sem nunca dignar-se a abrir. E, sorrindo, abriu sono solto.
Foi despertado aos atropelos:
– Seu Arvelino! Arvelino!
Era Tião.
– Ligaram da fazenda: o seu Manolo e o seu Ernestino tão se pegando na festa! Vão se matar!
Num pulo, Avelino já tinha juntado o 38 e a chave do jipe: imediatamente seu rosto ficou todo vermelho. Em cinco minutos, irrompia no arrasta-pé. Verdadeira zorra: dom Ernestino dava um murro em Manolo e dizia que ele não tinha vergonha na cara, fazer uma brincadeira dessa; Manolo, um baixote barrigudo e bundudo, revidava e chamava o amigo de louco. Aí, paravam e ficavam se encarando longos minutos, até o próximo golpe. Nem parecia uma briga de verdade: a turma do deixa-disso muito não se manifestava. Era só mais um exagero do Tião. Em volta, os familiares e amigos espiavam a briga sem fazer nada – mas percebia-se que aquele bate-boca já acontecia há algum tempo, e mesmo assim os contendores não pareciam nem machucados nem cansados. Cansado estava o capataz Ernâni, encostado num pau-de-sebo.
Então Avelino compreendeu o motivo: próxima da fogueira, uma pedra recém-desembrulhada, que tinha um formato a lembrar vagamente um órgão sexual. Teve gana de dar um soco na cabeça do Tião. Escolher justo uma pedra dessa feitura! Mas somente deu três passos à frente e gritou “parados!”, erguendo a arma para cima.
O problema é que a bala não saiu. Ou melhor, saiu, mas pela culatra: o povaréu todo se começou a rir. Até mesmo os dois brigões. E aí Avelino percebeu – zonzo de sono, tinha saído de casa só de camisa e samba-canção.
Vermelho, vexado, amarelo sorriso na cara de ameixa, não sabendo onde pôr as mãos, meteu o impotente revólver no meio das pernas e foi escapando de fininho. Antes, porém, esbarrou numa mocinha que, de mãos tapando o rosto, não o via e lhe atrapalhava a passagem. Mal deu tempo de captar quem era: a filha de dom Ernesto, Francisca, que aniversariava dezessete anos. Envergonhada com o sucedido. Isso foi o suficiente. E Avelino picou a mula.
Meia hora mais tarde, para desfazer qualquer má expressão, Avelino retornou, de largo sorriso sob os bigodes. Os ânimos já estavam apaziguados – em cima de seu próprio ridículo. Logo foi servido de cerveja e fez cumprimentarem-se seu Manolo e dom Ernestino. Ainda que jovem, irradiava uma autoridade irresistível. Claro que não contou o que sabia do caso da pedra. Isso já nem o interessava mais: seus olhos iam certeiros na menina morena dentro do vestido de algodão e cheiro de laranjeira que havia respeitado com tanto afinco suas vergonhas. E saiu dali tropicando e cantando errado, abraçado aos amigos.
Quem diria – pensava ele, agora que relembrara toda a história a caminho do posto -, quem sopraria que um homem como ele, Avelino, a montanha, ia parir um rato que era esse sentimento tonto? Já não adiantava esconder isso dele, nem mais de ninguém. Dom Ernestino entregara-lhe uma carta, através de Tião, naquele mesmo dia pela manhã. Dizia de precisar de um homem-pra-homem. E já adiantando o assunto: noivado. Chegara-se de conversa fiada entre esse homenzarrão e a menina dez anos mais nova. A carta implicitou até um dote. Mais, só entrelinhava. Avelino sentou-se na cadeira de balanço, olhou o céu faiscando e entremunhou para Tião:
– Ô Tião, recebi outra carta da Esso…
E Tião, cuspindo o fumo:
– É… que cor, seu Arvelino?
– Vermelho…
O menino já se acostumara a ver o pai só aos domingos. Mas não se acostumara àquela marca no peito do pai, que aparecia quando ele abria dois botões da camisa.
– É só um machucado, filho.
Domingos depois, a marca apareceu um pouco maior; depois de outros domingos, desapareceu detrás de uns esparadrapos. O que seria?
– É um tipo de queimadura. Quando o papai foi viajar pro Caribe, tomou muito sol e aí criou um ferimento.
O pai viajava muito para o Caribe, nas férias. Não levava o filho nem a mãe.
E a vida corria de domingo em domingo quando num deles a marca, e com ela o pai, não apareceram. Explicou a mãe:
– Seu pai foi de novo para o Caribe.
Na cabeça do menino o pai era um temerário, um louco: tinha ido de novo pra esse lugar que lhe abria buracos pelo corpo, cheio de piratas. Era que nem atravessar a rua sem olhar.
Segunda-feira o menino só não caiu de cama porque já estava nela, queimando de febre. Imaginou o pai com um disco de fogo no peito, cercado por mil leões. A pele do pai era uma escama de lagarto e o pai mudara de cor: ficara agora leitoso como o círculo quase completo da lua, brilhante palidez no céu preto.
Mas no domingo seguinte o pai apareceu, trazendo chocolates e surpresas. Não tinha ido pro Caribe.
– Uma operação, filho. Aquela marca era câncer de pele. Eles cortaram todo o tecido em volta, tiraram um pedaço de pele da perna e colocaram no buraco do peito. Viu? Quase não dá pra perceber.
O menino voltou tranqüilo e ao mesmo tempo inquieto. Para distrair-se, foi até o quintal, por onde ficou zanzando. A mãe o encontrou já bem tarde, dormindo no chão. À sua frente, um rabo de lagartixa se contorcia.
Pouco antes de morrer, Avelino foi chamado pelo pai:
– Me dá aqui tua mão esquerda.
Um homem de corpo grande, gordo, muito branco, de onde sobressaíam um nariz de vermelho permanente e minúsculos olhos azuis que deram cria no rosto de Avelino – vergado pela doença, don Giovanni era pouco mais de uma sombra magra e disforme. Dona Umbelina veio e lhe trocou outro lençol: apesar de curandeiro, o pai de Avelino não tinha nenhuma receita para pensar a sua própria doença – que fazia surgir de todos os poros finíssimos rios de sangue. Era como se uma vermelha teia de aranha sutílima se lhe cortasse o corpo. Giovanni passeou os olhos nas linhas da mão do filho, fechou os dedos do menino que tremia o queixo à sua frente e apertou com extrema força seu pulso:
– Tu és muito forte, filho. Mas és o último. Depois de ti, o sangue dos Brescianni será mais ralo que sangria em fim de festa.
Riu; sua cabeça, lenta, lentamente, enterrou-se no fofo travesseiro.
A cicatriz significa que algo foi bem assentado. A pele fica fina, mas mais forte. Porém existem cicatrizes em eclipse. Geralmente, marcas sobre as quais se passa levemente a ponta dos dedos e se sorri, ao recordar o brilho do punhal que produzira sua forma. Entretanto, este tipo de cicatriz floresce para dentro, em rancores e ressentimentos, e arboriza uma genealogia de outras cicatrizes. O que quer dizer que, apesar de fato consumado, cicatrizes não são matéria morta: a envergadura de uma família dá-se pelas cicatrizes de seus membros. A cicatriz é o trovão riscando no céu a eletricidade, é a mão parindo pelo lápis a palavra. A cicatriz é o próprio tempo em estado de semente, e, como tal, prolifera-se em outras cicatrizes. A cicatriz é a tatuagem do acaso.
– Vô, o que é isso aí no seu peito?
O avô, cabelos brancos que se desmanchavam no vento, fumava um cigarro no terraço do apartamento do menino, entronado numa rede. Estendeu a mão ao bule de café no chão, encheu a xícara até a boca – o médico lhe desaconselhara o álcool -, tragou o cigarro, cofiou o amarelo no bigode e riu:
– Foi um acidente de jipe que eu levei. Rolei uma ribanceira. Nada demais.
De noite, o menino sonhou com alguma coisa, de que não conseguiu se recordar. Depois dessa época, teve certa dificuldade em lembrar os sonhos.
Na clareira. O touro. Avelino. O sol. Dois ou três matutos na espia. Olho no olho, touro e homem. Parte o touro, a força nas patas dianteiras, as traseiras no ar. Parado o homem sorridente, músculos em rochedo metamorfo. O touro persegue o fim da distância: as mãos de Avelino são garras prenhes de ódio. Vindo, vindo, o outro cresce. Alto, em pé, duro o homem. Mas então – foi o sol, foi o sal nos olhos, foi o ódio, foram os olhos do touro, foi o medo, foi o quê? – Avelino decide-se súbito e desfaz as garras, abre os braços em cruz, e sorri, entregando-se inteiro. É a deixa: o touro impõe-se num salto de duas meias-luas em cheio no ventre do homem. A dor. A dor. O homem levantado do chão, o chão levantado no ar, o sol vazado nos furos do corpo de Avelino; feito um anjo de vitral varado de luz: plena levitação, homem dentro do céu – céu –, chuva de sangue doce queda sobre a terra. O touro bufa. Caído gigantesco no centro da clareira, Avelino em cruz desfeita. O touro se afasta para um canto, sossegadamente e em paz. Em sua direção vão dois filetes de sangue, até encontrarem sua grossa língua. O mundo é noite adentro rasgado de fora a fora pela luz da lua. Pânicos, correm os capiaus, a socorrer Avelino.
Meu avô passou trinta dias num delírio coagulado de mezinhas, soros e ungüentos que dona Umbelina lhe aplicava sobre os furos no tórax. Um chifre passou a um segundo do coração. De quando em vez, meu avô despertava numa voz pastosa: não mexam no touro, não façam nada com ele. Ninguém acreditava na história contada pelos dois ou três capiaus – quem podia entender? E, milagre dos milagres, as feridas cerraram em duas grotescas cicatrizes, o sangue cessou de correr. Um dia, todos assustados: Avelino em pé na soleira da porta, pedindo um cigarro. Vó Francisca, ao vê-lo, saiu de seu mutismo de terço e correu para abraçá-lo. Quem viu diz que ficou emocionado. O casamento ocorreu dali a exatos quinze dias, assim que a igreja foi totalmente repintada pelo imutável Tião.
Quanto ao touro, meu avô teve, durante a convalescença, seu pedido atendido; temiam que ele morresse, no contrário. Paz E Sossego precisou de dez homens para ser encurralado numa redoma de paus d’arco trançados e nunca mais cobriu nenhuma fêmea. Não que tivesse sido castrado: meu avô – e ninguém conseguia atinar com isso – ameaçou com a degola quem se aproximasse dos bagos do bicho. Razão não demasiado se fazia: era porque era, Avelino falou, causa acabada. Dizem que o animal morreu de velho, em solitário urro. Outros dizem que meu avô, envelhecido, se esqueceu do porquê do touro preso e o soltou; o touro, entanto, velho também, não se moveu um milímetro.
Mas dizem também que, quando meu pai nasceu, foi feita uma grande festa; o touro miúra, sacrificado: e que em Lavínia nunca tinham comido carne tão saborosa.
Verão, 1994.