Os infernos possíveis

contos de Ronaldo Bressane

Aos meus olhos de cão

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Mas não era a noite a me tolher os passos: talvez fosse uma saudade. Nuvens explodiam à luz de minhas lembranças e por trás delas o cão veio descendo devagar e mudo a rua que dá pro beco; um negro cão pastor. Eu só bebendo e olhando, não gostando nada da idéia de companhia. Eu só me basto. Descendo, a besta. Chegou perto, parou, encolhendo o rabo prum lado. Me mandou um olhar tão imponente quanto uma lata de lixo. Se sentou, levantou o pescoço para o céu cinza e uivou.

Latiu infinito por entre os minutos. Uivo veludo, suspenso em um mistério limpo, só um sussurro de voz. Me irritei, o mandei embora: ele não parou de uivar – e eu tive medo, um medo muito grande, que meus ouvidos sangrassem.

Chutei-o, de leve, ele se virou sem interromper seu vulto de canto. Volteou-me, investiu sobre mim. Chutei mais uma vez, agora com força: o animal rosnou-me ultimatos, me vomitando urro em cima de urro. Chutei de novo, lhe dei um pisão no dorso, outro pontapé e, feito despertasse dum torpor, já socava o cujo, sempre aquela rouca voz me penetrando os tímpanos; o cão uivava e correu de encontro à parede pichada: peguei uma garrafa, acho que de cerveja, ali do chão, bati contra o muro, batia contra a cabeça do cachorro: entanto, ele não parava, não sustava seu olhar e seu grito; perfurei seu corpo, no estômago talvez, no meio dumas manchas de sarna, o animal já não fugia de mim, se deixava ferir, se entregando nunca tirando seus olhos dos meus, eu chutava e cortava, rasgava e feria, suicidando o cão às minhas mãos; se deteve em seu canto, parou, parou de uivar, brilhante entre cacos de vidro, e no que eu chutava, chutava, batia e batia, ele não dava um gemido só: só escutava ossos quebrando-se, sem parar, cartilagens rompendo-se, sem parar, vasos sangüíneos esfacelando-se, sem parar o cão jorrava sangue, fervente, viscoso vivo eu me lavava no estranho líquido de cheiro amargo cavando um buraco em minhas narinas e um gosto doce na língua, cansado súbito parei rindo e com as mãos cortadas sangue na cara nos olhos súbito parei os cabelos empastelados nas têmperas súbito parei o cão morreu.

Os olhos fixos em mim.

Respirando forte, arranquei de suas órbitas aqueles satélites pretos e os atirei longe; foram rolando paralelos até o meio do beco. Pararam. Continuando a me vigiar.

O vento de novo.

Apago o cigarro numa dessas cavidades úmidas, não vou esperar mais. Me levanto. Então, a garrafa tomba, talvez por efeito do vento, ecoando seu sopro de vidro, derramando o fluido dourado. Viro, me agacho, e, ao me aproximar, vejo na poça turva o reflexo inteiro da alta lua.

Uma nuvem passa entre pensamentos ralos.

Depois, somente meus olhos de cão.

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Inverno, 1988.

Escrito por faker

Fevereiro 21, 2008 às 9:33 pm

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2 Respostas

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  1. Hi, this is a comment.
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    Mr WordPress

    Fevereiro 21, 2008 em 9:33 pm

  2. [...] ler o Cara e ter certeza do que queria ser, dali para a frente. Quatro anos depois, escrevi este conto inspirado no ‘Corvo’. Happy b-day, Master! Nenhum Comentário até o momento Deixe [...]


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