Os infernos possíveis

contos de Ronaldo Bressane

Fuga

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Um homem, vestido como soldado, caminha deserto por uma estrada. É noite. Sua mochila camuflada verga-lhe um ombro – dentro, dorme uma mudança. Venta frio. O homem sua como se tivesse cubos de gelo sob o quepe. Algumas luzes, na mata que ladeia a estrada pela esquerda, acendem-se e apagam-se. Sorri: em seus devaneios no front, quando via as bombas explodirem no céu, seus olhos viam fogos de artifício, seus olhos viam luzes de Natal, seus olhos viam vagalumes. Agora é a hora dos vagalumes, do vento, da noite, e da beira direita do asfalto ruim uma montanha eleva-se como velho ídolo – ao redor do cume, uma coroa de nuvens brancas. Os vagalumes luzem nos olhos do soldado que volta para casa.

Nesta casa, em seu mais noturno íntimo, num quarto atulhado de brinquedos e alucinações, respira crespa uma mulher. A seu lado, dorme um homem. Sob as pálpebras, a mulher está na verdade de olhos abertos – para dentro de si mesma. As cortinas dançam silhuetas insuspeitadas pelas janelas escancaradas, como se a noite viesse lamber os lençóis daquela cama agora quieta. Nua, ela pressente seu fluido e o sêmen do homem que ressona profundo a escorrerem por baixo de si, para aninhar-se nas trevas do colchão onde ela guarda algum dinheiro. Com estas notas, ela imagina comprar passagens para si e para o homem que sonha.

Por sua vez, ele, cuja pele se eriça no que o vento penetra as frestas de seu cobertor passeando por seu corpo suado, crê ser uma criança que desliza por um sábado de sol montado em um velocípede. Feliz numa rua solitária – onde os pássaros não cantem e as nuvens estatizem-se no céu feito pintadas, onde os postes e os edifícios e ele mesmo não deitem sombras –, o menino gira velozmente seus pés nos pedais. Do outro lado da distância, uma menina num vestido vermelho o observa, muda e sorridente. O menino sente seu suor apaziguar-se no vento fresco da corrida. Antes de chegar à menina, o menino e seu velocípede encontram um profundo buraco. Nele, mora um velho.

O homem de longos cabelos brancos olha para as mãos sentado no catre da cela em que se encontra. Sabe, pelo que lhe dizem os caminhos com que pegou as coisas do mundo, que seu tempo terminará em breve. Sabe, pelo canto dos pássaros do lado de fora das grades da prisão, que jamais sentirá novamente asas pousarem em suas mãos. Seus dedos trêmulos tateiam as faces marcadas de rugas. Há muito não olha para um espelho; há muito decorou a imagem fiel de seu rosto; há muito se esqueceu de tudo – já não lhe explicam mais nada os símbolos que decoram as paredes. Somente fere suas retinas a lembrança longínqua – quem sabe, a primeira – de uma menina vestida em vermelho.

Aquela menina talvez nunca desconfiasse das promessas que repousam em seu sorriso: passa suas tardes a rabiscar invenções, como pássaros de cinco asas, casas mal-assombradas, nuvens de formigas, vagalumes lilases. Pensa num garoto de sua rua, que vivia a persegui-la montado num velocípede. Um dia poderia se casar com ele; se cansaria dele, em seguida: precisaria fugir para longe, então – é esse lugar que seus lápis perseguem, furiosamente, no papel branco que se borra de muitas cores quando as granadas estouram, lá fora, e homens são vistos voando em sangue. Tem de interromper o desenho quando a mãe surge em seu quarto, com um envelope aberto nas mãos – não precisa escutar a notícia para entender que sua mãe só teria ela como companhia dali para frente. No papel, um homem vestido de soldado estaca a dois passos de sua casa.

Falta muito pouco para o cheiro quente da comida longamente sonhada nas trincheiras. Falta muito pouco para ler as notícias do futebol, embalado na rede no jardim de domingo. Ele acende um cigarro: a fumaça lhe traz um vago tremor – como estaria a mulher, depois de tantos anos? O revólver encontra o relógio no bolso, produzindo um som misterioso. Baixo, um avião risca o céu: breve, possivelmente a guerra chegaria àquela cidade. Porém, qualquer conspiração de seus pensamentos é menor que a sensação que domina os pés endurecidos nos coturnos; o caminho de volta lhe imprime uma fé que jamais teve – falta muito pouco para contemplar o corpo de sua mulher na cama.

Seu sonho era fugir; fugir sempre foi seu sonho. Até hoje não saberia distinguir a fronteira entre suas vontades e suas ações; nem sempre adivinhava onde começava a necessidade de escapar e as inacessíveis ilhas. Quisera casar-se, mas no sim que certa vez em público seus lábios murmuraram também esteve presente a palavra nunca. Seus pensamentos jamais desconfiavam da ciência que sua carne obtém das coisas do mundo. Por isso, naquela noite fria, que despede o calor de seu corpo, ela já pressentisse em seus desejos um insuficiente pesadelo, quando o homem ao seu lado desperta.
– Sonhei que caía num buraco – flutua na noite a rouca voz, para logo em seguida resvalar em soluços, nos seios amados da mulher. – Tenho medo de que alguma coisa me aconteça… – Não pense assim, meu amor, é por pouco tempo… logo estaremos juntos de novo. Daí a gente vai poder viajar… o que você prefere? Praia ou montanha? – Eu preferia não ter de ir para lá – ele geme, feito um menino; ela desliza os dedos pelo rosto crispado do homem que chora, tentando imaginá-lo vestido de verde. Cobre-o com o lençol. Amanhã, logo cedo, irá à guerra.

O soldado abre a porta de casa com sua própria chave. Profundamente, respira os cheiros noturnos que popularam durante tanto tempo suas alegrias e suas angústias. Pousa a mochila na mesa decorada com as bananas de sempre, prova o mesmo gosto de barro na água do filtro, reconhece o som da geladeira velha como o latido de um antigo cão. Nas sombras, calmamente, dirige-se até o quarto. Um pouco antes, detém-se, para ver-se ao espelho do banheiro: seu rosto é o esperado. A porta range um pouquinho ao empurrá-la. Quando dá por si, suas mãos estão cheias de rugas, seus cabelos são longos e brancos, e pela janela gradeada ele aguarda que os pássaros lhe tragam a notícia de uma menina vestida em vermelho.

Inverno, 1998.

Escrito por faker

Fevereiro 21, 2008 às 11:17 pm

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