Os infernos possíveis

contos de Ronaldo Bressane

Evangelho segundo Zé Maria

com um comentário

para Ricardo Miyake,
única pessoa que consegue conseguia
me fazer mudar de idéia

Fazia muito tempo que Zé tinha vontade de catar o Jovino de jeito. Assim, pela gola do uniforme: e agora, seu porra? enquanto rumava sua cabeça nas pedras do jardim do prédio, esmurrava seus dentinhos perfeitos vendo eles deslizar no sangue queixo abaixo, os dedos apertando o pescoço suado, Pára, Zé, Que pára o quê, cê vai é morrer agora, seu filho da puta; ele cuspia bem no meio da cara de Jovino e batia mais forte o coco dele nas rochas, o corpo do colega se descolando da vida, ah, vontade louca. Até se revirava na cama, sono perdido de ódio.

Seis meses esse desejo. Noite, noite, noite. Só faltava o motivo.

Desde que Zé Maria botou o olho no Jovino não foi com a cara. Assim. Três anos vigia, tinha se acostumado no trampo de guardar um magrelo predinho de apartamentos. Até que, motivado pela tal da onda de violência, o síndico decidiu chamar outro guarda noturno. Seis meses atrás apareceu o figura. Nada especial: novo, comprido, escuro, sarado, cabelo curto, rosto fino, de falar pouco e sempre acompanhado por um sorrisinho de tímido, parecia o Rivaldo, pernambucano como ele. Não curtia programas policiais de rádio tipo Gil Gomes ou Afanázio, não curtia pagode, não torcia pra time nenhum nem triscava pra zoeira. Tocava o tempo morto da noite chapado na leitura do Evangelho. Quieto, na dele.

Mas não era nada disso que perturbava Zé.

Nunca que brigaram: no contrário, se falavam bastante, Jovino ria sem graça das histórias bestas do colega, uma que outra fofoca do prédio; ria na miúda, os dentes tapados com a mão, riso baixo, rouco, risinho fino, um risinho. Era disso que Zé não gostava? Ele tentava decifrar – pois mais que o riso o que chateava era um tique, um pisco doido do olho direito que dava um jeito meio de malícia pro cara. Por causa da piscada acompanhada do tal sorrisinho, as moradoras reclamavam pros maridos, as filhas pros pais, entendiam cantada. Às vezes Zé se obrigava a explicar que não passava de um tique-tique nervoso, o colega era bíblia, respeitador; tinha que defender o outro, coisa que aperreava um tanto – o que nunca falou pro Jovino, pra não pegar mal. Mas – não era isso também a pulga que roía a orelha, a formiga que farejava o miolo. E durante o dia na cama Zé tentava dormir e a lembrança do riso e da piscada do Jovino e o sol e a insônia moíam e mordiam ele doido, doído de ódio.

Uma noite, junto da guarita, posto que revezavam, a conversa era de filme de artes marciais. Nisso ele também era chegado. Jovino contando uma cena dum filme velho do Bruce Lee, Zé contratacava de van Damme, o papo na moral quando o Jovino raspou baixo a voz, necessitando um particular. Falaí, fez Zé, curioso. É que eu luto caratê; cê sabe. Sou faixa-preta. Aí, um dia, um bacana de me viu treinando na academia lá que eu freqüento, fim-de-semana, e chegou e falou, bem na frente de todo mundo, tu luta muito bem, já te falaram isso? E tem um corpo… bem legal. Aí eu engrossei: que história é essa, rapai? Ele veio: sou diretor de cinema. Tô fazendo um filme que tem umas cenas de caratê. Filme de caratê brasileiro? Caratê o caramba!, foi o que Zé pegou. Peraí, Zé, dêxeu terminar, o cara falou que queria fazer um teste comigo e me deu um endereço lá no centro pra mim ir lá, não é legal? Jovino escancarou a dentuça: Eu vou lá amanhã, não fala pra ninguém não, falou? Zé mirou o fulano de esguelha: Sei não, Jovino, acho essa conversa atravessada, sei lá… filme de caratê brasileiro? Ah. Caratê o caralho, ele quer é fazer um filme de sacanagem contigo; aí ele se afastou pra fazer a ronda na garagem, deixando o Jovino no sorriso amarelado.

Tempo depois e o assunto girou pra cinema pornô. É, Zé curtia muito esse tipo de lance – puta, pinga e pipoca, aí se enfiava sua grana pouca. Jovino piscava o olhinho doido quando Zé descrevia as aventuras do Homem das Treze Polegadas e Meia. Tava ficando ligadão, dava pra ver, quando ele rolava uma cena em que uma enfermeira trepava com o Homem, um médico e um anestesista, no que sem mais o outro saiu com essa: …Xi… sei não… issaí parece coisa de baitola! Como assim, perguntou Zé, que é que tem? Ah, não sei… repartir mulher com outro, num rala-coxa… xiii… Que que é que tu tá falando, Zé se alterou, tu quer dizer que quem gosta disso é viado? Não, óa, não sei se o cara é boiola ou não, já que ele come tudo quanto é mulé nessa fita, feito cê diz… mas eu não faço isso não… pra falar o certo, nem gosto de ver essas coisas, não acho direito, e é perder dinheiro… Jovino até suou pra falar tanta coisa, piscando e sorrindo, a mão tapando a boca, sem-jeito, e aí foi que se enfiou de novo no livro preto.

Peraí, solta esse troço aí, explica isso direito! Zé esbugalhou o olho. Tu tá quereno dizer que quem assiste filme assim é viado? Sua garganta apertava. Não, Zé, tu não entendesse… Tá me chamano de burro, tamém? Eu tamém sei ler! Zé pôs a mão na cintura, perto do cassetete e do berro. Ah, dêxisso pra lá, que nóia, mano, eu falei é que quem faz isso, pra mim… acho esquisito, sabe, ficar pelado junto de outro macho, visse?… Escutaqui, seu preto metido a Bruce Lee, se tu quer me chamar de bicha por que não faz isso logo? Num é home? Ih, Zé… Jovino abaixava a cabeça: ôxi! deixa quieto, esquece isso aí, bobagem, não gosto de discussão à toa! Não gosta porque tu num tem culhão, né, não tem coragem de falar na minha cara o que tu pensa de verdade… covarde! Cusão! Cê já tá me ofendeno, chiou Jovino, se levantando na boa e saindo da guarita pra cima de Zé, que devolveu: Ah, fresco; tô te ofendeno, é? A estrelinha de cinema ficou putinha? Tom’ isso aqui, bichona: e deu um golpe certinho com o borrachão bem na testa do Jovino: Ai, aiai, faz isso não, meu, que brincadeira boba, dói que só a porra… Ah, mas tu vai chorar agora, frango? Quedê o caratê? Jovino colocou as mãos no machucado, tomou outro baque, agora na nuca, caindo no chão gemendo, Isso dói, Zé Maria, paraí, descupaí, eu tava só brincano… Zé agarrou o fulano pela camisa e puxou ele pra trás da guarita, pra não chamar a atenção, sempre esbordoando o feio, que se tentava defender com os braços na frente do rosto, o olho não parando de piscar, porrada em cima de porrada: Ri agora, seu porra, ri, cadê o caratê, viadinho? Caratê o cacete; Jovino já nem reclamava, seu rosto numa pasta negra e roxa se deformando no meio duns gemidinhos fracos, todas as bordoadas na cabeça: Zé deu uma última pancada, bem no meio do cocuruto – dava até gosto aquele som crocante feito pipoca no cinema, junto duns vermes de chocolate que caíam pelos buracos vermelhos que rasgam o cérebro – jogou pra longe o borrachão, se atirou pra cima do Jovino pelas golas do uniforme: Falagora, diz aí que eu sô boiola, diz! Da garganta do Jovino não saía patavina, e aí Zé pensou: …quem sabe eu salvo ele com respiração boca-a-boca, que nem nos filmes… mas logo mudou de idéia, que é isso que eu tô falando? Diz, seu viado! Fala comigo! Jovino! Jovino! Jovino. Mas ele não falou nada, e aí Zé lhe fechou as pestanas.

Zé Maria voltou pra guarita, se sentou. Fazia tempo que tinha vontade de catar o Jovino de jeito. Sempre faltou foi o motivo. Fechou o casaco, ventava frio; cruzou os braços, recostou a cabeça na mesa. Ali ficou, sem querer entender, sem querer mais nada de nada, dormindo pela primeira vez em seis meses, em cima das páginas amareladas do Evangelho.

Inverno, 1991.

Escrito por faker

Fevereiro 21, 2008 às 11:03 pm

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Uma resposta

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  1. [...] imaturidade. O fato é que há mesmo um ou dois contos que realmente eu acho foda, caso desse aqui, que em breve aparece em uma antologia de literatura sadomasoquista ao lado de coisas do Rubem [...]


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