Documentário
That’s right, that’s right,
I’m loosing my mind, that’s right.
[Beastie Boys]
Sejam poucas tuas palavras:
os muitos cuidados produzem sonhos
e no muito falar achar-se-á a loucura.
[Eclesiastes, 5, 1-3]
Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais é mera coincidência.
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I. Sonho que em todo o bairro há mesas e cadeiras vazias e passeio atônito com uma mulher [que não conheço mas sei que não é minha e no entanto tenho ciúme dela] e sou enquadrado por três ladrões aí no instante do tiro eu acordo, porque não sou besta.
31: Transito. Engarrafamento nas avenidas Brasil, Paulista, Reboucas. Transito pesado na Radial Leste. Congestionamento nas marginais Pinheiros e Tiete. Transito parado na avenida Cruzeiro do Sul, por causa de acidente envolvendo uma carreta, dois onibus, quatro carros e oito motos.
29: Noticias. Programa de emergencia para 99 – o governo deve enviar ao congresso, em outubro, um programa de emergencia de ajuste de contas publicas p/ tranquilizar os investidores estrangeiros e adaptar o orcamento a nova situacao internacional sem aumentar impostos.
II. Modo de usar: aplique sobre o cabelo molhado e couro cabeludo, massageando suavemente. Enxágüe. Repita se necessário. Para melhores resultados, utilize-o com freqüência. Para cabelos ressecados e/ou danificados, utilize o Condicionador ao menos uma vez por semana.
Eu é que não sei/ mas é melhor escutar/ se você quer ouvir/ e eu quero falar/ eu preciso dizer/ mas não quero escutar/ eu devo dizer/ mas não posso parar:/ my name is Rusty James [Edu K, DeFalla].
III. Composição: Lauril Éter Sulfato de Sódio, Mica/Dióxido de Titânio, Coco Amido Propil Betaina, Silicone, Goma Guar Quaternizada, Formaldeído, EDTA Na2, Vitamina E-Acetato, Ácido Cítrico, Hidróxido de Sódio, Perfume, Glucasil Complex®, Polímero Carboxivinílico, Cloreto de Sódio, Água.
[Copos. Copos. Copos. Uma festa. Gente. Bandejas girando. Pessoas girando. Copos girando.]
IV. GÊMEOS [21mai-20jun]. Chega um momento na vida de todos os seres humanos em que devem-se tomar atitudes graves e radicais. Tentar evitar isso é como pedir ao destino para ele fazê-lo por meio de seus misteriosos mecanismos. Encare suas obrigações.
V. TROCA-SE perna mecânica usada por bichinho de estimação. Pode ser qualquer um. Tratar Roselângela, tel. [011] 560-0909.
03: Estamos te aguardando hoje a noite em casa para um fondue com direito a bacanal de sobremesa. Beijos, Clara Crocodilo.
VI. FALECEU anteontem à noite, ou na madrugada de ontem, o professor de Matemática Não-Linear David Couthard d’Amore. A moléstia, conforme relato de Kennedy Jeremias, médico do IML [ou EPM], parece ter-se iniciado há dois anos. Couthard publicou dois livros, que a reportagem não pôde encontrar pois foram todos incinerados por estudantes de matemática linear, no “Sábado Vermelho”, episódio sangrento ocorrido na Escola Politécnica em1994, em ocasião dos festejos do décimo aniversário da Teoria do Caos.
O professor Couthard teria incitado alguns alunos a desenvolverem “atos aleatórios”, os quais, numa seqüência de eventos inesperados, redundariam em “fatos passíveis de serem previstos àquela altura dos acontecimentos, trazendo de volta ao Homem as rédeas sobre esta arbitrariedade tola apelidada O Destino”. [Um destes “atos” teria sido um cigarro, ou uma coxinha, segundo outra versão, que um aluno lhe deu – coisas que à época Couthard dizia odiar.] Os alunos do professor Eric Bernardo Campoforto [Matemática Linear Avançada II], revoltados, resolveram então pôr fogo nos livros, que estavam ali postos à venda, como forma de ironizar os “atos aleatórios”. Houve luta e dois estudantes morreram – cada um pertencia a um campo oposto.
Consternado, segundo amigos e alunos o professor Couthard iniciou um lento processo de psicose maníaco-depressiva, passando a fumar um maço de cigarros por dia ou então engolir várias coxinhas de galinha, sem mastigar. Em certa ocasião, o professor declarou que “ao ver serem incineradas minhas obras, ao ver morrerem jovens no calor de uma disputa tão estúpida quanto inútil, penso que deste momento em diante aprendi a morrer”. Seus discípulos, assim como seus adversários, em comum tristes com o desaparecimento do professor, afirmaram que lamentavelmente há muito tempo não se discute as idéias de Couthard: “como se ele já estivesse morto para a comunidade científica”, nas palavras do professor Campoforto, que declarou solenemente ainda que “a partir de hoje o professor Couthard deixa a vida para entrar na História – ao menos para os que crêem nela”.
Conforme seu último desejo, o professor Couthard será cremado em Vila Alpina, junto com sua coleção de borboletas. Deixa esposa. Dia 20/1 de outubro. A família não divulgou a causa do falecimento, mas segundo alunos, o professor teria morrido vitimado por edema pulmonar. Este jornal ouviu uma segunda versão, segundo a qual Couthard D’Amore faleceu de indigestão.
[Copos. Copos. Copos. Uma festa. Gente. Bandejas girando. Pessoas girando. Copos girando. Azuis, verdes, laranjas, rubis. Uma bandeja de copos girando.]
– Pode começar? Já tá gravando? Bom. Uma história foda que eu ouvi, mano, foi a do Bruninho, surfista lá de Maresias, tá ligado? ele memo, ia todo dia pra praia cinco da manhã, passava de pico em pico chamando os brothers pra aproveitar as ondas bem cedo, então, aí, teve um dia que deu cinco, seis, sete e o cara não piava na área, oito nove e cadê o figura, nada, resolveram catar o maluco na casa dele, bateram na porta e nada, foram na vizinha e ela: o doido tá no hospital. Vão pro quarto, o cara tá deitado, roncando, com os dois braços enfaixados, dois dias depois é que ficaram sabendo que o Bruninho tinha ficado bem loco de ácido, tá ligado, e começou a sacar um monte de barata em casa, o lóqui habitava sozinho e não tinha pra quem pedir ajuda, então, aí, né, demorou: as baratas começaram a cercar ele, e o bicho correndo dentro de casa, as baratas subindo pelas pernas do cara, pelo corpo, pelos braços, até que o Bruninho catou dois garfos e arrancou as baratas dos braços – mais a carne dos braços, né, mano véio. Foda.
VII. Resolvi que precisava fazer um esporte e optei pela natação: assim, num dia chuvoso, às dez da manhã de uma segunda-feira, subi na minha moto para ir até uma academia de ginástica ali na Vila Madalena. A mocinha da portaria, uma loira gostosíssima cujo rosto, magnífico, semelhava uma porta muito bem esculpida, ainda que todavia uma porta, o que não deixava de ser apropriado, me disse, comendo alguns ss e embananando-se frontalmente com uns verbos – o que me deixou um pouquinho melhor, uma vez que chegara ali meio por baixo –, que eu precisaria fazer, antes de tudo, um exame de avaliação física. Afinal, praticava regularmente algum esporte?
Não, respondi, a não ser levantamento de copo, e a velha piada não funcionou de novo, como já esperado; uma vez, bem, eu fiz natação, mas tive um problema do coração – e aqui ela levantou uma de suas esplêndidas sobrancelhas tingidas de loiro –, coisa que já solucionei, segundo a última visita ao médico, que foi há uns dez anos, acho; ah, mas mesmo assim vai ter de fazer de novo, de lá pra cá você pode ter piorado, pois é, confirmei, com certeza piorei, tanto é que resolvi fazer exercícios, veja você, então tá, ela sorriu, você preenche aqui essa ficha e depois aproveita que a examinadora da academia está aí e já faz a avaliação física com ela, e eu sorri, lembrando-me de cenas infantis em que quase sempre estava doente e era analisado por uma enfermeira, apalpado aqui e ali, coisa que sempre me dava muito prazer, pra não dizer tesão mesmo, até o momento impróprio em que invariavelmente aparecia um médico ou clínico cínico e brutamontes, para minha infelicidade, o que é facilmente explicável, nessa que é uma situação bastante óbvia.
[Copos. Copos. Copos. Uma festa. Gente. Bandejas girando. Pessoas girando. Copos girando. Azuis, verdes, laranjas, rubis. Uma bandeja de copos de refrigerantes girando. Pedras de gelo girando num copo de uísque – nós girando em volta. Copos de longe, de perfil, de frente, de perto, de muito perto, quase sendo tocados.]
04: Se puder, me ligue agora, tenho um convite a fazer. Beijos, Clarissa.
– Não te encontrei aquele dia porque resolvi escrever sobre o tal do ácido que tomei em Ilha Grande. Escrevi tudo direitinho, tintim por tintim, e coloquei num envelope, e o envelope no bolso do casaco. Fui com os amigos assistir Hana-Bi, e quando saí pra encontrar com você senti que o envelope não estava mais no meu bolso; aí lembrei que tinha tirado do casaco, pra não amassar, e colocado numa cadeira do lado da minha. Então resolvi voltar pro cinema: a gerente me disse que não tinham encontrado nada – entrei na sala assim mesmo, passando por cima da roleta, a lanterninha atrás de mim, desesperada, no meio da outra sessão, e fui até onde eu tinha ficado, atrapalhando todo mundo, fiz um senhor sair do lugar dele, falei que tinha perdido uma coisa importante ali, e não tava ali, aí tirei a mulher dele do lado, também não era, achei que fosse na outra fila e tirei outras pessoas de lá; começaram a chiar e a reclamar, veio a lanterninha me expulsar de lá, reclamando que eu visse depois da sessão, que ia demorar uma hora pra acabar.
Como o que eu tinha escrito era importante, talvez nem tanto pra você, mas sim pra mim, fiquei lá, que nem uma idiota, chorando de raiva, e não conseguia lembrar do teu bip pra te avisar o que tava acontecendo, quando terminou o filme eu entrei que nem uma maluca, já fui lá pra frente, mas foi aí que me dei conta que tava procurando em cadeiras muito longe de onde tinha sentado, por isso comecei a chorar de verdade. Tive certeza que alguém pegou o envelope, com a história que eu ia te trazer, e fiquei desesperada, afinal de contas alguém devia estar lendo tudo o que me aconteceu naquela tarde, quando eu tomei ácido a primeira vez. Bom, eu tinha outra esperança, de que a pessoa que tivesse pego o envelope visse o meu nome e o telefone da Secretaria da Cultura, e quem sabe me devolvesse. Meu nome e meu telefone estavam escritos tanto no envelope quanto no papel que continha a história que eu queria te contar pra te ajudar a escrever teu conto. Ah, agora nem tenho vontade de te contar mais.
05: Nao tenho condicoes biopsicosociais de ir a reuniao de hoje sobre o bar. Comunico mais tarde os motivos reais. Pedro Paradoxo.
VIII. Peguei a ficha e preenchi todas as lacunas, de cara obtendo um prazer simplório, posto que me sentia como tendo já passado por uma prova – talvez os analfabetos não freqüentem academias de ginástica [só as de letras]. Nome, nomes dos pais, RG, CIC, estado civil [o que é isso nos nossos dias?], cartão de crédito [para quê?], escolaridade, como tomou conhecimento da academia, esportes favoritos, esportes que pratica, bebe, fuma, usa drogas, quando foi a última vez que desmaiou, tipo sangüíneo, já foi operado, tem tatuagens, é alérgico a alguma coisa, tem convênio médico, tem hipertenso, cardíaco ou diabético na família, ufa! em cinco minutos dei toda uma descrição de mim mesmo, será que era verdade que em um retângulo de mais ou menos trinta perguntas e respostas se podia resumir um homem? E se fosse importante saber que eu torcia pelo Corinthians para que meu condicionamento físico desse resultados? E se eu tivesse mentido aquilo tudo [principalmente quanto ao cartão de crédito]?
Bobagem: eu estava a pedir demais das coisas, o mundo era assim mesmo, duro e antipático como a recepcionista loira e fria à la Xuxa que me sorria cortesmente, e aquilo não era para dramas, talvez só uma comédia sem graça: com desdém, entreguei a ficha e subi. Nem cheguei no primeiro degrau, escuto: – você esqueceu de assinar!
06: Marilda, estou chegando em casa em meia hora. Beijos, Antenor.
IX. Worm’s work: that’s the work of writers. Apenas procuro fazer um jornalismo do inconsciente.
– Eu, quando fumo maconha, fico deprimida. Muito deprimida. Começa que eu vou ficando dispersa, olhando para as coisas como se elas quisessem dizer mais do que elas realmente fossem. Então é como se eu estivesse escutando a voz das coisas. E essas vozes são muito tristes, solitárias e carentes. Elas precisam de você, de alguma forma. E eu sou muito pequena para poder dar o amor que elas esperam, precisam. Aí procuro ver o que posso fazer por elas. Como posso atingi-las. E acabo atingida. Suas demandas são sempre superiores às minhas ofertas; e o que desejo, ninguém pode me oferecer. Existe um confronto primário nisso tudo: um desajuste entre dois planos. Vai daí que fico cansada, com as pálpebras caídas, e simplesmente sorrio. Às vezes me dá sono, e durmo. Às vezes me dá fome, sede, e como ou bebo. Por dentro, os abismos em mim se abrem, se agitam e me puxam. Quando dou por mim, já se passou um longo tempo – e os cinzeiros estão cheios de bitucas.
07: Flectere fi nekueo fuperos, Acheronta movebo. Eneida, Virgilio. Lidia.
[Copos. Copos. Copos. Uma festa. Gente. Bandejas girando. Pessoas girando. Copos girando. Azuis, verdes, laranjas, rubis. Uma bandeja de copos de refrigerantes girando. Pedras de gelo num copo de uísque girando – nós em volta. Copos de longe, de perto, quase sendo tocados. O líquido e suas ondas – e por trás, pessoas em ondas: pessoas dançando, pessoas rindo, pessoas andando, pessoas se abraçando, pessoas se beijando.]
08: Amor da minha vida, acorde, estou morrendo de saudades, acabei de chegar em SP, acorde agora, e me ligue. Um beijo. Bianca [porem preta].
09: Voce ja se lembrou da melodia de Jesus, Alegria dos Homens? Beijos, Beatriz.
X. Olho para aquele vazio pessoal e intransferível que me produz uma emoção distante, fria: o encontro com você mesmo todos os dias, sempre que ocorre esta situação. Todo dia você fala quem é – na sua assinatura, diz: esse sou eu; eu estou aqui – eu sou. Em geral assinando cheques, faturas de cartão de crédito, encomendas recebidas, bilhetes com pedidos, entregas de trabalhos – onde dar-se-ia o instante da auto-revelação, conjuga-se outro ocultamento, nova mascaração. Afinal, quem é você? Você é o seu emprego? Você é o que você come? Você é o que você gosta? Você é as pessoas que estão com você? Você é as roupas com que se veste, os livros que lê, os filmes a que assiste, as músicas que ouve? Você é seu cheiro ou os cheiros que você gosta? O que determina a sua existência ou o seu destino? Quais são os fatores que indiciam as suas escolhas? Até que ponto você são suas escolhas e até onde estas escolhas manipulam sua vida? Por exemplo, digamos que você gosta de fumar: você vai comprar um cigarro por causa daquela primeira escolha que foi gostar de fumar e conhece a sua alma gêmea na padaria. Se não fumasse teria a chance de conhecê-la alguma vez? Posso usar o telefone?
(Conectel bom dia, o código. Código 33813, mensagem?) Você morre de medo de mim, não é? (Sim, senhor, pode continuar.) Morre de medo que eu te agarre, né? Mas não adianta. Eu vou agarrar você. E isso não é nem uma ameaça. (Um momento, senhor, estou mudando de tela, código 33813?) Pra mim, já é uma lembrança. (Quem assina, senhor? Ela sabe? Obrigado, senhor, tenha um bom dia.)
A terceira fase, separada da segunda por uma crise redobrada, uma embriaguez vertiginosa seguida de um novo mal-estar, é algo indescritível; é a felicidade absoluta. Acabou o redemoinho, o tumulto. É uma beatitude calma e imóvel. Todos os problemas filosóficos estão resolvidos. Qualquer contradição transformou-se em unidade. O homem virou deus [Baudelaire, O poema do haxixe].
– Não, não me lembro direito, não vou poder te ajudar. Só que foi muito, muito, muito bom. Divido a minha vida em antes e depois daquele momento. Aliás, não só minha vida, como também o meu pau. É que, sabe, estava com a minha garota. A noite toda. Foi tão louco que muito depois é que percebi que aquela parte, a pele, sabe, atrás do freio, manja, tinha rasgado. Acho que a gente ficou transando vários dias seguidos. Tive que ir prum hospital, dois ou três dias depois, não me lembro, pra operar. Hoje estou 100%. Na hora, desculpe o trocadilho, doeu pra caralho. Mas foi maravilhoso. Bom demais!
09: Imagino que com esse tempo voce deva ter ficado doente. Se precisar de um cha de limao com alho, me avise. Um beijo. Ale.
10: Juvenilton, se for o homem da minha vida, pode me ligar, ja estou desocupada. Um beijo, Abigail.
– Já fumei em cada coisa, cara. Nem sempre se acha seda decente. Papel de pão. Papel sulfite. Folha de dicionário. Papel de maço de cigarro. Guardanapo [os melhores são aqueles de televisãozinha]. Lenço. Palha. Jornal velho. Qualquer coisa fininha serve, manja. Papel higiênico foi uma decadência. Uma vez, rasguei uma tirinha da lâmpada japonesa de um amigo – carbura super bem. Até hoje, o melhor papel que peguei foi de uma bíblia dessas que deixam pra você pegar numa gaveta de hotel. Lembro que era a última folha do Apocalipse. Decidi parar com isso quando estava chegando no Antigo Testamento. Agora, só tomo guaraná em pó. No máximo, cheiro rapé.
11: Ja sarou? Estou esperando. Um beijo. Jo.
12: Espero que voce esteja se sentindo melhor! Um beijao, Betina.
13: Nao foi possivel conseguir a roupa que voce pediu. Tentei durante a semana, mas nenhum dos meus amigos pode me arrumar. Nao vou dormir na sua casa, pois tenho de ficar com a mamae. Ela quebrou o pe. Qualquer coisa, me bipe. Ainda ta doente? Beijo do teu irmao.
XI. Então fui subindo lentamente as escadas, já me sentindo um condenado – só não sabia qual era a sentença muito menos o crime. Ao último degrau, deparo-me com a moça que vai a mim propor os testes de condição física: uma morena clara pequena, de porte gracioso, proporções perfeitas, músculos suaves, cabelos presos num rabo-de-cavalo curto, deixando a descoberto a nuca em que flutuava uma penugem loira; vestida de camiseta branca, shorts pretos de ginástica e tênis brancos, e mais nenhum adereço fora seus olhos pretos investigadores, olhos que pareciam mesmo vir de fora deste corpo – a própria imagem da perfeição acadêmica, se assim posso concluir. Seu nome era Fernanda, mas todo mundo a chamava de Fê, como apresentou-se. Levando-me delicadamente, sem me tocar, Fê mediu-me, pesou-me, anotou-me em seu laptop. Pediu-me que fizesse alguns exercícios básicos – nada que confundisse minha coordenação motora – e calculou em seu winchester implacável os números que definiam o vigor de meus músculos e nervos, a ética material de minhas células, o compromisso moral de meu DNA em relação ao potencial da força humana. Pelo rosto liso e reto de Fê, que me sorria a um tempo consoladora e motivante, emoções não passavam: o homem, mais que ele e suas circunstâncias, é suas medidas e suas condições. Talvez anatomia seja mesmo destino, como resignou-se Freud certa vez.
Creio que as minhas medidas não eram nada boas, afinal sentia-me já meio cansado [lembrava-me ainda em jejum], e perturbado pelo meu pager, que não parava de tocar. Foi no teste final que encontrei uma revelação para a qual não me havia preparado.
14: Ligue para nos. Estamos preocupados. Lu e Gilson.
15: Cliente Teletrim, nao localizamos pgto fatura venc[ctj] 08/09[/98] evite desativacao servicos em 21/09/98, efetue pgto ur[g]ente
– Comigo, imagino que a coisa se passe assim: não importa que eu tenha fumado maconha, hash, tomado ácido ou chá de cogumelo, a sensação de fundo é a mesma: o outro eu que eu sou ocupa sua vaga dentro deste corpo. Digamos que este outro homem ria, chore, emocione-se, reflita e observe o mundo ao seu redor de uma outra forma, enquanto o primeiro homem foi para longe. Ou então as coisas que se passam comigo só aconteçam porque está presente o outro, e então as memórias da época da loucura sejam apenas reflexos do passado de um outro – ou mesmo sonhos dele. Ou então pudessem ser os meus próprios sonhos, e o sonho seja o espaço de que o outro emerge. Esta sendo assim a explicação para os nossos sonhos: você vai dormir, e outro você ocupa o seu lugar; do mesmo modo, do outro lado, quando acorda, é porque está colocando o você outro na cama. Ou quem sabe nós sejamos os sonhos de outros, e quando mergulhamos nas drogas estejamos somente nos lembrando do período em que fomos simplesmente nós mesmos? Se a metáfora é a primeira expressão da arte poética humana, tal como os sonhos são nossa primitiva épica, diria Vico, via Borges, utilizando alguns meios de expansão/deformação da percepção/estados de consciência poderíamos lograr atingir essa época rudimentar de entendimento da realidade e voltar então àquele preciso momento em que o homem ainda não havia se dissociado da natureza e estabelecido a radical fronteira entre ele e o mundo, entre as coisas do homem e as coisas que não têm nome: porque esta é a verdade – a partir do instante em que as coisas se nomeiam, elas deixam de existir.
[Copos. Copos. Copos. Uma festa. Gente. Bandejas girando. Pessoas girando. Copos girando. Azuis, verdes, laranjas, rubis. Pedras de gelo girando num copo de uísque girando – copos de longe, de frente, de perto, de muito perto. O líquido e suas ondas – e por trás, pessoas em ondas: olhos por trás de copos. Tudo gira, dança, sem ponto de fuga ou linha do horizonte; e luzes sendo sugadas pelos líquidos; escorrendo para os lados; incandescendo dentro dos copos: reflexos, visões, fantasias, vertigens, miragens.]
16: Voce ja pensou em escrever um conto sobre os objetos que as pessoas perdem nos cinemas? Beijos, Bia.
17: Oh, poeta namorador, passeador de maos dadas, nao poderei comparecer ao lisergico encontro… e coisa… e tal…
If the Sun refuses to shine, I don’t mind [Hendrix].
– É pruma pesquisa, é? Falou. Olha só. Foi em Floripa. Eu tinha 14 anos e minha irmã estava com uns amigos muito doidos, minha mãe tinha viajado. Eu estava no sofá dando uns beijinhos no Dani quando de repente eu vi na minha frente aquele quadradinho colorido, que diziam ser a orelha do Bart Simpson. A gente mandou ver com um chazinho de dama-da-noite. Naquela época tudo era muito florido. Lembro até hoje que estava tocando “If six was nine” e que chovia um pouco, aquele ventão da ilha batia nas janelas. Bom. Daí eu rachei com o Dani o doce, botei embaixo da língua e pá e mandei o chá de trombeta, uma cerveja e tal. Aí é que foi a mandioca.
Quer dizer, ainda não tinha sido. Eu cismei de tirar as roupas do varal, por causa da chuva, e nisso também levei o Hulk pra passear. Não, o Hulk não era um cachorro; na verdade, na verdade, era a iguana do Daniel. Bom: quando eu vi os caras tavam falando Bibica, você tá louca, tira essas roupas daí, e eu não entendia nada, porque tinha que secar as roupas da chuva e o pessoal não deixava, tirava de dentro, rindo, e daí eu colocava de novo, demorou um tempinho pra eu perceber que aquilo não era a máquina de secar, era a geladeira. Então, decidi ir descansar um pouquinho no quarto, no meio dos ursinhos de pelúcia, mas quando cheguei lá a cama estava tomada por várias Hebes Camargos em miniatura, pegando na minha bochecha e falando “que grachinha!”. Logo vi que ali não era o meu lugar. O pôr-do-sol, ou nascer do sol, eu já não lembro – na verdade, na verdade, a loucura durou uns dois ou três dias – foi a coisa mais linda do mundo, não dá pra descrever a quantidade de cores e sons e sensações boas.
O chato foi só o que rolou com o Hulk: tadinho, a gente deixou ele no relento e ele morreu de fome.
18: Voce nao acha que ja venceu o periodo da nossa separacao? Eu prometo que nao vou colocar voce no pau e nem pedir mais a pensao das criancas. Liga pra mim, estou com saudades. Princesa Encantada.
19: Voce vai me ligar, ou eu vou ter que continuar a limpar com a sua camiseta a privada? Beijos, Lully.
XII. Subi na bicicleta ergométrica e comecei, com muita facilidade, o último teste: e foi “muito fácil” o que respondi à examinadora que indagava-me sobre o grau de dificuldade em proceder à tarefa. Então ela girou um botão e a bicicleta pareceu um pouco mais pesada, o que me fez diminuir minhas expectativas para “fácil”; ela continuou girando um botão no que um véu negro ia se abatendo sobre meus olhos ao mesmo tempo em que bolas de ferro eram-me colocadas nas pernas, “pouco fácil” para “pouco difícil”, felizmente ainda não impossível; e nisso eu só gostaria de nunca ter ido àquele lugar, jamais deveria ter tido a idéia tola de melhorar o condicionamento físico; buscando pelo menos espiritualmente fugir àquelas aflições físicas, como um torturado buscando não confessar o crime – que seria talvez a fragilidade do corpo –, eu, num último esforço, puxei meus olhos para a janela, e lá alumbrei a Necrópole São Paulo, do outro lado da rua, e seus ciprestes balançando melancolicamente na manhã gelada e branca sobre as lápides indiferentes, as lápides e seus nomes gravados junto com últimas vãs mensagens ao mundo, últimas vaidades, últimos discursos em últimos ternos de formatura, suas flores vestidas de urubus, suas visitas culpadas, remidas, ocupadas em dirigir pensamentos ao passado – este espaço imutável do cemitério, onde as coisas nascem para trás, como se, ao invés de jardins, fossem plantados desertos: era nisso que meus olhos puseram pouso, trazendo no bico o espírito e o corpo fatigados; para que tanta agitação e fúria? Frente à eternidade, nada faz sentido; perdem-se valores como gotas num oceano: tudo se dilui, esquece-se a consistência, noções de causa e efeito inexistem, objetos se desprendem de suas denominações, estados se alternam – pode parar, o teste acabou, soprou Fê, enquanto meus olhos se perdiam nas tumbas e minhas pernas giravam velozes, sem nenhum esforço. Pode parar, repetiu. Posso parar, pensei.
Quando saem os resultados?, perguntei, vestindo-me atrás de um biombo, enquanto os números de minha matéria refletiam-se, fosfóricos, em seus olhos negros. Já saíram, sorriu, tirando do laptop um disquete. Você está ótimo, pronto para começar o seu condicionamento físico, não vai ter problema nenhum, está com uma resistência excelente, sorria, academicamente. Ali naquele quadrilátero preto estava a síntese de meus músculos segundo os parâmetros da ciência moderna, e o que ela afirmava estava em conformidade com o mundo. Você fica com o disquete e entrega pro seu instrutor, que ele tira uma cópia pra você. Ah, sim, fora a plataforma em bytes eu teria um equivalente em papel. Mais um auto-retrato sem transcendência dos meus dias. Obrigado, despedi-me, e desci as escadas. E aí, veio a recepcionista loira, foi legal? Quando você quer começar? Jamais vou começar algo que não possa terminar, respondi, e fui ao encontro da minha moto na manhã gelada.
20: Fomos feitos da mesma materia dos sonhos, e nossa curta existencia e rodeada de sono. Voce me perdoa se eu for dormir e a gente nao sair? Beijos, Bonita.
[Copos. Copos. Copos. Uma festa. Gente. Bandejas girando. Pessoas girando. Copos girando. Azuis, verdes, laranjas, rubis. Uma bandeja de copos girando: fantas-laranjas, fantas-uvas, coca-colas, sodas limonadas, guaranás. Pedras de gelo girando num copo de uísque girando – nós girando em volta. Copos de longe, de perfil, de frente, de perto, de muito perto, quase sendo tocados. O líquido e suas ondas – e por trás, pessoas em ondas: pessoas dançando, pessoas rindo, pessoas andando, pessoas se abraçando, pessoas se beijando. Olhos por trás de copos. Tudo gira, dança, sem ponto de fuga ou linha do horizonte; de todos os lados. E luzes sendo sugadas pelos líquidos; escorrendo para os lados; incandescendo dentro dos copos; por baixo e por cima: reflexos, visões, fantasias, vertigens, miragens. Uma bandeja de copos girando: uísques, vodcas, vinhos, licores, caipirinhas, tequilas. Bocas bebendo. Línguas passeando pelas bordas do líquido. Suor em gotículas pelas paredes dos copos, pelas faces das pessoas. Dedos girando pelos cubos de gelo. Dedos sendo chupados. Dedos molhados deslizando pelos rostos das pessoas. Pelos olhos molhados das pessoas. Pelos olhos vistos por trás dos copos, por trás dos líquidos, dos cubos de gelo, pelas paredes de vidro, pelas gotículas que suam nas paredes. E chove sem parar nesta noite descontínua, desesperadamente, sem escalas, larga e desmedida noite, líquidos por todos os lados, do começo ao fim dos tempos continuará chovendo e não se ouvirão jamais os risos e choros das pessoas que bebem, somente o som vasto e esplendoroso e cheio da chuva chovendo.]
Primavera, 1998.