Os infernos possíveis

contos de Ronaldo Bressane

Bacanal

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Meu coração, não sei por quê.
[João de Barro]

Serei feliz, bem feliz. Orlando contemplou Alice ao seu lado, enquanto dirigia ansioso o carro para a suíte presidencial. À entrada do motel, a recepcionista pegara os RGs do casal e não desconfiara de nada. Talvez, até uma estranha não duvidasse da coincidência entre a Alice do carro, menor de idade, e a da fotografia antiga – as mulheres de hoje fazem tanta plástica. Ele apanhou a garota nos braços, autêntico noivo. Sentiu-se viril, rejuvenescido pelo corpo delgado e leve de Alice: degrau a degrau, o sorriso dos olhos dele nos da garota, distraída.

Pousou-a na cama redonda, deslizou dedos no painel de controle, escolhendo a iluminação mais adequada, no rádio a estação que tocasse suas músicas favoritas, de décadas atrás. Espera um pouco, amor, vou tomar um banho antes. Alice somente sorriu.

Sem querer, ouvindo do rádio o som em consonância com as bolhas de sabão pelo peito de pêlos brancos, Orlando lembrava-se da outra Alice, a do tempo de suas canções. Existira apenas um encontro, num lugar furtivo como este, e ela furtivamente fugira. Para nunca mais. Esquecida sobre a penteadeira, a cédula lhe identificava os dezoito anos – por muitos outros banhada no beijo e na lágrima de Orlando.

Então, há um mês, encontrara esta Alice, algum tempo mais nova. Prometeu a ela o céu. Não podia menos, ou mais. Ela só calou. Ele entendeu um consentimento. Pediu-a para sempre. E ela só calou. Enfim – resolvera – ela deve ser jovem demais para compreender o que sofri. Que só eu a ame, já bastará. Serei feliz. Colocou o roupão, à mostra uma grossa corrente de ouro. Minuciosamente, penteou os pêlos do bigode grisalho para cima. Saiu do banheiro assobiando, entre névoas.

Cercada por espelhos, o rosto de Alice resplandecia, pálida e lunar. Insondável. Orlando ajoelhou-se sobre os lençóis à frente da garota. Num arroubo, suspirou: – vem! vem sentir o calor – enlaçando-a, beijou seus lábios macios, tirou-lhe as roupas, sempre carinhoso, gaguejando umas palavras que a moça não conhecesse, talvez. Nua, o coração de Orlando bateu feliz: a pele claríssima de Alice brilhava e exalava um intenso perfume almiscarado. Passando as mãos pelos cabelos dourados dela, ele beijou-lhe a boca, suave. E, com muito cuidado, a penetrou. Sentiu-se todo circundado por um tremor; a emoção da noiva, imaginou, a deixar a virgindade. Amou-a lentamente, todo, banhou-a em suor; não se cansava de lhe declarar seu amor – nem mesmo quando, traiçoeira, sua mente recordava-o da outra Alice, a que fugira, e alertava-o de que esta, mais jovem, fatalmente escaparia também. Depois de horas e carícias, exausto, ele puxou-a para seu peito. Observou a ambos no espelho. Não importa o que virá, não interessa – suspirou, voltando a beijar-lhe os seios, perfeitos. No teto, os olhos de Alice abriam-se, luminosos como ônix, como em delírio.

Pelos três andares da suíte, Orlando ensinou à noiva passos tensos de velhas danças. Em seguida, mergulharam na piscina. Relaxado, Orlando saiu para buscar uma bebida para os dois; ao retornar, paralisou-se, mirando Alice de braços abertos a boiar, tranqüila – sem querer, novamente, a idéia tola: – mas, mesmo assim, foges de mim. Caiu na piscina e nadou até ela, furioso; abraçou-a com força, tentando espantar os maus pensamentos. Ah, se tu soubesses… e colocou-se dentro dela outra vez, e desta, sem cuidados, rude: ela tremeu, tímida, ou assustada. Em seu jeito misterioso, inatingível. Orlando amava-a, e respingavam água morna.

No entanto, seus dentes nos lábios de Alice foram traiçoeiros: ela começou a sangrar. Como se nem tivesse sentido o ferimento, ainda assim oferecia a ele a boca. Orlando, horrorizado, percebeu nos olhos de Alice o perigo, a pressão baixa: e embora ela não se queixasse, seu corpo todo tremia, se soltava, em desespero Orlando tentava verter os pulmões inteiros para o corpo da garota, que só fazia mergulhar aos espasmos na piscina; o coração dele, batendo apressado, pressentiu que seu beijo havia sido fatal – a cada abraço Alice mais mole; no fundo d’água, o peito dele, unido ao da boneca inflável, doía, Orlando viu que Alice nenhuma fugiria, nunca mais: um cansaço tomou-o. Era feliz.

Verão, 1990.

Escrito por faker

Fevereiro 21, 2008 às 9:51 pm

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