Conto
Mas o pior de tudo mesmo nessas noites quentes não é o mormaço, nem os insetos entrando pela janela que seu eu não deixar escancarada o quarto se inunda de mais calor; nem a insônia, impedindo-me de dormir e então levantar-me mais cedo e por conseguinte ir dormir mais tarde no outro dia, alimentando um ciclo sem fim à vista sempre aberta sempre alerta ansiando por sonho ou sono ao menos que não vem nunca, eu que amanhã tenho de acordar bem cedo; não, o pior de tudo mesmo é esse silêncio que faz fora e cala dentro e dificulta-me, como a insônia ao sono, usar o pouco tempo de que disponho para sonhar em vigília e escrever o Conto que devo entregar amanhã às nove. Falar nisso, são três da manhã e um dia desses vou tomar uma decisão e começar a beber, a fumar, fazer qualquer coisa que uns Escritores que conheço fazem quando se põem a escrever, quem sabe assim. Porque, ficar observando os peixes azuis e vermelhos e amarelos que nadam nos aquários espalhados pelo apartamento, brincando com suas caudas, imitando seu movimento com a boquinha ou batendo no vidro só para assustá-los já vi que não dá. Então vamos sair dessa pequena janela e recostar-se à outra, a que dá para a rua, talvez desse jeito arranjo um assunto pro Conto, uma vez que o último o Editor descobriu que eu me inspirei/roubei duns trechos da Revista de Medicina, num artigo sobre os gases que se formam no corpo depois que a gente morre, artigo esse que polemizava com um Texto de um espírita, na mesma página, o qual discorria a respeito da vida após a morte, muito interessante a polêmica – não posso resistir a declará-la bastante espirituosa – bem; eu só estelionatei ipsis litteris uma parte em que se contava a história de uma mulher que desencarnara e no dia do velório apertou a mão do cunhado várias vezes, antes da terra cobrir-lhe os olhos, e o tal amado cunhado chamou o morgue, a polícia e o diabo, que é sempre o último a saber desses fatos, aos berros de que a mulher estava viva, então o artigo explicava que, ao se formarem, os gases dentro do corpo morto fazem com que ocorram movimentos involuntários e é óbvio, o kardecista rezava serem movimentos voluntários pois comandados pelo espírito da mulher tentando retornar à vida mas afinal, que isso importa? Interessa nada, o Conto foi publicado e a inês é morta ou seja lá qual for seu nome, o Editor vai me mandar embora da Empresa se eu não entregar a ele outro Texto e um bom, amanhã, e desta vez quer um inédito, já se cansou de topar com meus plágios tarde demais, o que vai ser difícil para mim, sem imaginação há meses [desde que comecei a escrever senti que não dispunha de imaginação, mas tudo bem, descobri muitos Escritores carentes desta matéria-prima de sonho, eles entram pela Rede e chupam alguma coisa acolá e mudam daqui e torcem de lá e pronto, já basta aquele prêmio ignóbil os desculpando com seu famoso “imaturos copiam, maduros roubam” e estão todos justificados, o Dinheiro creditado na conta automaticamente e o mundo correndo em sua perfeita ordem]; da janela, nada vejo além de prédios e prédios apagados em ruas escuras e calçadas vagas no ar parado e sem gente, Cidade morta e na calçada um corpo estendido, um corpo estendido no chão à frente do meu edifício.
Eu disse um corpo estendido? Opa, isso dá pra brincar, será que é de um morto? Imagine, imagine, vamos lá, Escritor, do que será que é que o cara morreu? Terá gases movimentando suas mãos? Aqui do décimo-sétimo não dá pra ver muito bem e ainda eu, míope, e talvez o homem nem esteja morto, hoje em dia tanta gente sem tento dorme na rua, nem sei de onde tirei que ele está desencarnado, contudo não sou doido a ponto de descer só pra me certificar disto, vai que aparece a Polícia ou pior, um marginal, um bandido, um ladrão e vem e me rouba e me mata e me joga no Rio e aí estou sim esquecido para sempre, adeus fama, ou pior, o cara está só fingindo de morto apenas pra me assustar e me matar, mas não sou bobo não, tenho certeza que é isso mesmo que ele está querendo, dá até pra ver um sorriso na carona dele apesar de estar super escuro: eu que não me atrevo a descer, a vida nessa Cidade é tão perigosa, do que será que o cara morreu?
Esta é a questão; pense somente nisso, Escritor, não se perca por pensamentos ou imagens fúteis; Conto, segundo os manuais abalizados, não é digressão, ache um título, que tal “Tá lá um corpo estendido no chão”, daquela Música daquele Compositor, como é mesmo o nome? Não, o Editor não iria gostar, melhor me concentrar na primeira Frase – já sei, uma boa sempre é colocar de saída um gancho enigmático, tipo E o morto sorria : boa, Escritor! O passo seguinte é descrever objetivamente o sujeito, para não perder o Leitor, entanto, está tão escuro, ou será que o cara está escuro mesmo, colorido pela morte? Acho que sim; não! Em Conto deve-se ser claro ao máximo e vago o mínimo possível, sem essa de tons cinzas, não existe o “algo”: vamos lá pegar o binóculo.
Merda de binóculo caolho, uma lente está trincada mesmo assim dá pra notar que o homem tem uma cara cinzenta e os braços e pernas abertos em X e cabelo grande e camisa xadrez, os olhos fechados, e que sorri – por que sorri, e de quê? Ocorre-me que ele talvez não esteja morto; pode estar só dormindo. Dormindo, numa noite dessas? A uma hora dessas? Como é que alguém pode dormir na rua e sorrir? Não é possível, assim não dá. Deve ser o rigor mortis. Focalizo o quanto posso o rosto dele e é um semblante simpático de olhos cerrados e acode-me uma idéia – se ele estiver dormindo, não poderia igualmente estar sonhando? E se sonha, não é falta de educação eu espiá-lo? Mas de onde veio essa dúvida, agora? Bem: o homem tem uma testa alta e um queixo quadrado que nunca poderiam estar mortos tamanha a sua ênfase viril, porque se for um cadáver tudo bem, nada demais dar uma xeretada, mas e se estiver vivo e sonhando? Ele não pode saber, se dorme, que o espiono; entretanto, estando morto, saberá, segundo o kardecista, posto que vagaria por perto de seu antigo invólucro, apesar de, por outro lado, conspirarem contra mim teorias que afirmam que o indivíduo deixa seu corpo durante o sono, sua mente passeando por aí inclusive podendo estar por perto e até mesmo entrar pela minha janela, mas, o que é isso, pés no chão, Escritor, para mim qual a melhor opção? Acho que permanecerei na dúvida pois nunca que vou descer para saber qual o real estado do infeliz e isso nem me interessa: importa é o Conto que farei usando esse corpo estendido no chão de uma madrugada qualquer e que Leitores irão lê-lo e o Dinheiro que ganharei com isso, é nisso que devo me concentrar – eu tenho essa mania de desidratar meus pensamentos e idéias, como neste instante, quando escuto passos, leves passos, diria mesmo sorrateiros passos, serão no corredor à frente da minha porta? É o espírito do morto! É isso, o cara me assombrando, dando-me um susto, vou ou não vou olhar no olho mágico? Mas que coisa! Eu não moro sozinho nesse edifício enorme, deve ser algum vizinho chegando em casa a essa hora – quem chegando de madrugada e de onde? No olho mágico o corredor branco e vazio estala ainda os ecos dos passos sorrateiros na minha cabeça, não era ninguém, não era ninguém, Escritor, porém os passos não passam, janela lá vou eu – é só um homem, que aliás eu conheço muito bem, andando apressado na rua.
Meu companheiro de insônia! Quase feliz por vê-lo, novamente; coitado, creio que também não suporta dormir no calor dessa noite – um homem de estatura mediana e acelerada, ele é todo velocidade, os cabelos puxados para trás com gel, os óculos pretos e quadrados, sempre de terno cinza e gravata preta fininha, seus pés rebrilham as luzes de mercúrio – um ser em si apressado desfilando sua insônia. Sim, tenho absoluta convicção de que ele tem insônia e não consegue dormir à noite, pois dá várias voltas ao redor do quarteirão e deve vir de longe, ir não sei pra onde, penso que anda rápido assim a fim de ficar cansado e conseguir dormir – pelo menos é isso o que eu faria se fosse louco o bastante para andar à noite por esta Cidade –, e ele deve assim dormir o dia todo, porque nunca o vi andando pelas redondezas durante o dia, se bem que não saio muito: sou quase um recluso pra falar a verdade, e porque quero é claro, escapo de meu recôndito apartamento o suficiente para ir até a esquina e comprar comida e comprar velhos livros num sebo decadente pois meu computador está quebrado [não consigo conectar-me à Rede e assim fico sem material para furtos, por isso a estúpida Revista de Medicina retrocitada] assim como o telefone [crise de depressão], quem sabe eu dou um jeito com a comunicação interna do Condomínio; o Editor de hábito manda um motoboy pela manhã para pegar os contos que passo por debaixo da porta para a digitação deles, acho que depois de uns dez contos conseguirei pagar o conserto de minha infra-estrutura e aí sim nem precisarei descer, aqui tenho tudo o que preciso – e daqui da janela vejo tudo quando o homem insone, ao pegar a calçada de acesso ao meu edifício, começa a andar devagar, os passos agora entreouvidos precisos, um a um, sem eco, pés de cautela: terá visto o cadáver? Um Conflito!
Um flash estoura em minha mente: um morto em meu caminho – esse insone é maluco: ao invés de, percebendo o cadáver, andar mais veloz, modera o passo [cá entre nós que ninguém nos escute, somente o fato de ele caminhar à noite para curar sua insônia já o faz meio louco, mesmo eu tentei fazer isso algumas ocasiões para tratar da minha, no entanto os vizinhos não são muito compreensivos e reclamaram ao síndico do barulho que saía dos meus pés, apesar das meias, fato que muito me constrangeu] – e o homem vindo, vindo, vindo com o meu Conflito. Ele agora está bastante próximo do morto e pára aos pés dele. É. Pára – e olha. O quê? Bom, seu idiota, o mesmo que você está vendo, um corpo estendido no chão. Mira o resto do corpo. Por que o espia? Pena? Conhece-o? Viu este rosto em algum cartaz Gratifica-se quem encontrar? Melhor apanhar o binóculo novamente. Os dois estão bem debaixo da minha janela, devo ser cuidadoso e não fazer nenhum ruído que me denuncie e estrague a cena. Não é todo dia que a gente topa com um Conto nascendo bem debaixo do nariz, pra falar a verdade acho que nunca me aconteceu. Nada deduzo das faces do cadáver a não ser que sorriem e são, como disse, sólidas. O morto não ri com os dentes, os beiços bastam. Do rosto do insone nada sei, somente vejo seu cocuruto. O homem, parado. Ambos estáticos. Até eu, o ar, estacamos. Então pressinto que não é a cara do cara que o insone observa. Não, não o rosto. É algo abaixo. Não a camisa xadrez, aberta no peito, pêlos escapando dela. Não; deve ser a calça marrom de pernas rotas em V e entre elas uma braguilha escancarada por onde escapa um pênis duro, um pau bem duro, duro, duro.
Um morto sorrindo de pau duro! Este Conto está se saindo melhor que a encomenda, não pode ser verdade. Ou então o morto não está morto. É um cara que dorme, e, além, talvez sonhe. Com o que sonha para ficar assim, tão inflexível, tão imóvel, tão imenso? Não; não é rigor mortis. O homem tem um sonho que o deixa excitado. E um outro homem, que não dorme, e não sonha, observa-o. Pois sim, o insone mantém os olhos fixos no membro do cara que sorri e sonha. Grande idéia para um Conto!
Bem ao alcance da mão – digo, dos olhos. Por que o insone não tira os olhos dali? Será um tarado? Um outro Escritor sem assunto? Mas não, está somente parado, olhando e olhando. No que pensará? Que, enquanto não consegue dormir, outro homem, muito mal-vestido aliás, diferente dele, dorme, e dorme na rua, e que além de tudo sonha, e que ainda por cima excita-se com este sonho? É um pênis enorme, no entanto eu queria mirar o rosto do insone, adivinhar-lhe a mente através da expressão. Sentirá desejo? Revolta? Inveja? Dó? Quem sabe, medo? Medo de que o outro desperte e o veja assim, frágil ante a verdade de um homem grande e seu membro, que sonham. Pois, de certa forma que não sei precisar, é responsável pelo sonho do outro. Porque, para que um durma, outro deve velar – e por este motivo não pode sair dali. Entretanto, tem de tomar alguma decisão. Não pode manter essa pose indefinidamente estática à mercê da ereção do sorridente sonhador. Talvez, o homem que sonha não saiba que o zíper de sua calça está aberto, e é um crime deixá-lo nesta inocência aos olhos dele mesmo, e dos outros homens. E não seria errado o que faz? Espiar outro dormir. Espionar um desconhecido tendo um estranho sonho. E isto, igualmente, não se trataria de um crime? E pior? E mais grave, e mais… insolente? O insone pensa: parece até que você sabe. Parece até que você sabe que eu estou olhando para você: por isso sorri. Uma espécie de vingança, esse seu sonho erótico. E o outro responde: você chegou aqui como quem não quer nada, me vê aqui deitado, pensa que eu tô morto, vem curioso, me vê alegre, tua curiosidade se acendendo mais e mais, e aí, catapimba: me vê de pau duro – te peguei! Nunca vai poder fugir disso. Jamais conseguirá apagar da memória o dia em que viu um homem burlando uma lei antiga, aquela que diz: nenhum homem velará o sonho de outro homem sem se envolver com ele – mas você pensou que poderia fugir de minha felicidade, enquanto seus olhos pediam um acréscimo – e aí está! Meu pau duro triunfando sobre essa sua maldita curiosidade. Meu sono duro como o eu jamais o foi. Meu sonho puro feito água limpa que te afoga. E é por esta razão que, cuidadosamente, o homem que não sonha apanha da calçada um papel velho e suave o coloca sobre o pênis do homem que sonha.
Sempre espiando cauteloso por sobre o ombro – como pensei, sua expressão é de extremo pasmo – dá um passo, e se sente aliviado, dá dois, e se sente livre, dá mais outro, e é homem outra vez, senhor de seus passos noturnos e anônimos. Caminha ainda devagar, sensação quente no peito, como se tivesse feito a sua boa ação do dia e tivesse ganho uma estrelinha no céu como se conta a alguém uma mentira que fizesse bem – e anda resoluto até a esquina. Subitamente, detém-se, em sua mente um último chamado do homem ignoto com o qual travara tão estranha e extenuante luta. Então, uma brisa quente ilumina-lhe os olhos de horror, pois o papel flutua no ar a um metro do triunfante membro até cair no meio da rua.
Terrificado: os olhos convulsos de pavor, o vapor da noite desenhando-lhe na cara a surpresa, passa as mãos nos cabelos empastelados, tira um pente ordinário do paletó, penteia-se – e pensa: vou voltar até o homem e recolocar o papel sobre ele; contudo, isso é impossível agora, seu crime está descoberto; o papel, tábua de salvação, retirado do sonho do outro por alguma invisível e implacável mão. Assim, para ele é claro o sonho do outro, e lhe pesa longamente sobre os ombros todo o seu cansaço e toda a sua insônia – mas o pior de tudo mesmo é que ele não é o único a saber disso: alguém mais deve saber.
Sim, um outro além o conhece, e contará a muitos outros o seu crime. À sua mulher, inclusive [ela saberá então que tinha esse hábito de espiá-la por entre as dobras do sono.] Ao seu patrão, inclusive [confirmar-se-á a sua inconfiabilidade e a sua indiscrição, inadequadas a um subordinado, causando-lhe uma vexatória reprimenda]. À sua mãe, inclusive [quando garoto deveria inventar ter medo para poder se deitar na mesma quentinha cama que ela, só para poder fingir que dormia e roubar seu sonho]. Sim, todos saberão. Logo, trêmulo, anda dois passos para frente; o sorriso do sonhador, límpido e grande e branco e estático, o vento calmo na noite erma que grita calor em seus ouvidos – e o insone não mais pressente, sabe, sabe que alguém mais sabe de seu crime, para o qual não existe expiação suficiente, e, ainda assim, como todos os condenados que perderam sua dignidade e condição de homens íntegros, anseia compartilhá-lo com alguém, que seja esse desconhecido alguém – e então torna o olhar para o outro lado da rua, para a esquerda, para a direita, para trás de si, e nada vê, nem sombra, no entanto ainda sente essa presença inquietante, e dá mais dois passos na direção do sonhador e uma última vez contempla seu sorriso e nesse fitar compreende a espada sobre sua cabeça: desejando com todas as forças me surpreender, calmamente levanta e levanta e levanta o queixo, e o rosto, e os olhos – e antes que ele me veja, porém, rápido, saio da janela, corro para a mesa, sento-me à velha máquina de escrever que me foi enviada pelo Editor para quebrar meu galho. E começo a escrever o Conto. Ainda que tenha a sensação de um certo vazio, são quatro e meia da manhã e preciso entregar o Texto às nove, não há mais tempo e se o Editor não gostar desta história que se dane ele, e eu também, pois não terei Dinheiro para pagar a prestação do imóvel, eu que, solitário disperso nessa Cidade, não disponho de outros rendimentos nem de outrem a quem recorrer. O problema é que esta sensação de vazio me prende os movimentos dos dedos; meus olhos ainda algemados à cena da rua, querendo o prosseguimento da narrativa; bom, afinal de contas, já a compreendi, nada mais poderá acontecer, escuto passos – devem ser os do homem insone. Óbvio que ele fugiria. Uma coisa me deixa na dúvida: teria ele me visto?
Não… impossível; somente a luz fraquinha da luminária não chegaria até ele… ainda assim, como poderia provar que o observava? Não: eu saí antes. Não, é evidente que não me viu, e mesmo dessa forma estou muito bem seguro, aqui… é, só se viu o reflexo das luzes de mercúrio nas lentes do binóculo. Não, mas o que é isso… não poderia sequer vislumbrar isto, usa óculos, deve ser míope… me viu ou não? Apesar desse susto e dessa suspeita, não posso deter minha curiosidade… e lentamente, cabisbaixo e hesitante, coloco primeiro o nariz no parapeito, em seguida a cabeça, giro-a para baixo e vejo, lá na mesma calçada campo de batalha de antes, uma radical mudança: tanto o insone quanto o sonhador desapareceram. Imaginação minha? Avanço um pouco mais o pescoço e nada: nada vejo na calçada, na rua, na esquina, na Cidade, os dois foram mesmo embora, nem me avisaram – onde estava com a cabeça para retirá-la do posto de observação precipitadamente? Agora, acabou-se; bem-feito, comecei a escrever antes da hora e perdi o final do Conto… entretanto, não: é esse mesmo, o fim da história: os dois se foram, felizes; mas será que foram mesmo? Não seria esse um fecho enganoso? Pra onde é que foram? Ah… vamos deixar isso pra lá. Isso não interessa mais. Importa o Conto, que agora redijo, importante é que não foi outra madrugada vã e que arranjei um assunto, e uma história, e quem sabe após tudo acabado, uma boa grana; e depois disso dormirei um pouquinho, até as nove, e quem sabe sonhar, não sem antes dar comida aos peixes e que falta fazem a um grande Escritor um cigarro e uma bebida, se bem que isso deve dar uma tremenda dor de cabeça, vou me deitar.
Mas o pior de tudo mesmo nessas noites quentes não é o mormaço, nem a insônia, e sim o silêncio, depois de meia hora que se tenta dormir, as marteladas de uma distante e absurda máquina de escrever ressoando ainda nos tímpanos, o silêncio quebrado por passos leves e sorrateiros que andam apressados no chão perto, perto, perto, cada vez mais próximos de mim, violentamente penetrando na minha cabeça, passos traiçoeiros de alguém que não posso encarar pois tenho os olhos firmemente apertados e não vejo e no entanto sei, somente sei, que esse alguém está sorrindo, e me olhando.
Inverno, 1992.